segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O fim da luz de Luiz



O fim da luz de Luiz.

Era de manhã, passei vi aquele homem sentado na calçada, Nada demais alguém se sentar na calçada. Rua tranqüila, poucos carros parados. Cotovelos apoiados nos joelhos segurando a cabeça grisalha e meio calva, magro, bem vestido. Parecia esperar, não sei o que ou quem, mas esperava. Dava essa impressão.
Passei de volta na hora do almoço e lá estava ele. Passando pelo outro lado da rua, podia ver seu rosto cansado, o olhar perdido, distante. Voltei do almoço e vi ainda estava no mesmo lugar e que tinha encostado no poste logo atrás de si, cochilava. 
No fim da tarde, voltando pra casa, lá estava ele. Cabeça baixa, parecia esgotado, murmurava algo, e balançava a cabeça de forma negativa, como se estivesse lembrando de algo que reprovasse.
Parei para falar com ele. Abaixei ao seu lado e perguntei se precisava de alguma coisa, se estava tudo bem. Ele me olhou por um tempo, desviou o olhar para o chão e disse, não sei. Olhou de novo na minha direção, mas parecia não olhar pra mim e disse : Eu não estou lembrando de muita coisa, estou meio perdido, me sentindo vazio, como se tivesse alguma coisa pra fazer e não lembro o que é, ou algum lugar pra ir que não sei onde pode ser. Nem sei se estou esperando alguém. Baixou os olhos novamente e ficou em silencio.
Perguntei se tinha família, ele disse que sim, mas só lembrava do nome da filha, Elisa. Disse se chamar Luiz, que era contador.  Mas que não tinha certeza disso. Perguntei se tinha algum documento ou algo nos bolsos que ajudassem a localizar alguém da família ou o endereço. Tira do bolso da camisa um cartão do banco, algum dinheiro, e um documento de identidade. Nada que ajudasse muito. Perguntei se estava com fome ou com sede, disse que sim. Fomos ate a lanchonete que estava logo atrás de onde passara o dia, sentamos e pedi algo para comer e beber. Precisei conduzi-lo pela mão, estava sem iniciativa. Conversamos um pouco, mas não disse nada que acrescentasse, que ajudasse a localizar sua família ou saber da sua história. Lembrava da filha, descreveu ela com riqueza de detalhes, da voz calma e afetiva, do cabelo cacheado castanho claro e comprido. Dos olhos claros, da pele morena e de ser graciosamente baixinha. E que cuidava dele com muito carinho. Enquanto falava seu rosto ia se alegrando, se abrindo, trocando as rugas da tristeza pelas do sorriso e de ma felicidade fugaz. Mas logo se apaga, volta a expressão de tristeza e de vazio. Pergunto se não tinha mais nada nos outros bolsos, com dificuldade tira papéis amassados de propaganda, desses que se entregam na rua, algumas balas, elásticos de borracha, moedas e do outro bolso surge um celular....ufa que alegria a minha. O celular não lhe dizia nada, não significava um elo de conexão com a família.
Tentei ligar o aparelho, mas sem sucesso, estava sem bateria. Corri pro garçom que trouxe um carregador, e assim, com o mínimo de carga na bateria, o celular ligou e uma chuva de mensagens chegaram. Eram da filha do Sr Luiz. Ainda com o celular ligado a tomada, liguei pra filha e indiquei onde estávamos. Ela muito preocupada, dizia estar, desesperada, quis saber do estado do pai, informei tudo o que tinha acontecido e ela se pôs a caminho.
Avisei ao Sr. Luiz que tinha conseguido falar com Elisa e ele se mostrou mais alegre, ficando mais atento a tudo que nos rodeava, ainda com olhar vago, mas estava mais animado. Ofereci mais alguma coisa para comer e ele disse não saber se queria. Pedi assim mesmo e ele comeu e bebeu com satisfação.
A filha finalmente chega. Era de fato como ele descreveu com detalhes. Moça bonita, jovem, postura de quem parecia ser firme, decidida. Chegando ao lado do pai, colocou a mão em seu ombro delicadamente. Ele olhou pra ela e por uns instantes ficou sem reação, mas em seguida sorriu, levantou e a abraçou. Se abraçaram, e se embalaram um nos braços do outro. Até que ele começa a chorar aos soluços. Ela o acalma, deita a cabeça do pai em seu ombro e o consola como a uma criança. Ele se acalma e ela o põe sentado. Ela de frente para ele, com as mãos dele entre as suas, pergunta com carinho se ele esta bem, se ele lembra dela e do que aconteceu. E ele só abana a cabeça negativamente, e diz, só me lembro de vc. Choramos os três. Ela se vira em minha direção e conta que há 8 meses o pai vem tendo apagões de memória. E que ela tem feito de tudo para não tirar a autonomia dele, enquanto fosse possível. Ele olha pra ela como se tivesse recobrado a memória e pergunta: Essa é aquela hora que combinamos filha? É sim pai, sinto muito. Ele baixa os olhos e as lagrimas que escorrem dos seus olhos começam a molhar a mesa. Chora como se sentisse uma dor profunda, um uivo baixinho sai da sua garganta. O choro enche de som o ar, fazendo que todo o ruído do ambiente diminuísse, as poucas pessoas que estavam na lanchonete parecem entender o momento e baixam a voz, se calam, os olhares se solidarizam. Elisa conta, que combinaram, que quando ele se colocasse em risco ou se perdesse ele teria que aceitar ter alguém sempre por perto, que não poderia mais sair sozinho, e que a casa teria sempre que ter uma funcionária. Ele tinha relutado com essa idéia por muito tempo e dizia que não ia admitir tal coisa. Pois não estava ruim da cabeça e que não precisaria. Mas naquele instante a consciência, a razão da sua condição se revela com uma dureza inevitável, pungente. Como se a razão lhe atingisse em cheio e provocasse uma dor sem fim, sem que o consolo chegasse. Choramos juntos eu e Elisa ao ver sua desolação. O garçom que de inicio estava curioso, rondando a cena, agora enxuga as lagrimas na manga do paletó branco do uniforme. Torce o pano de mão como se tentasse  transferir para o pano sua tristeza. Fica cabisbaixo e a distância com olhos vermelhos e as vezes se sacudido por dentro para segurar o choro. 
Elisa consola e acalma o pai, ajuda a se levantar, se despede de mim com um abraço e sai levando o pai pela mão. De novo o olhar vago toma conta do seu rosto, mas segue sem questionar a filha que jamais saiu da sua lembrança.
Dias depois o garçom me para na rua para devolver o celular que fora esquecido. Disse não ter entregue antes pois não me viu passar e que não teve coragem de ligar pra filha do Sr Luiz pra devolver o celular. Disse ter ficado tão comovido com a história que tinha receio de começar a chora quando ligasse. 
Liguei no dia seguinte para a filha do Sr Luiz, ela me conta que há dias ele não reage. Só come com ajuda, não se cuida sozinho. Esta praticamente em estado vegetativo. Olhos abertos, embaçados, vazios. Como se aquele corpo não fosse mais o seu pai.
Era só um corpo. Estava sem luz, nem era mais Luiz.