quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Só um golinho dˋágua.

Viajando de ônibus. Viagem longa. Parti a tarde, só chego a noite. Duplas de estranhos dividem das gratas companhias, as vezes indesejáveis. Gordos demais, fedidos demais, roncam demais. E segue a viagem. Inicio da viagem, sobem mais alguns passageiros, gente que se ajeita, bagagem que se acomoda, até que tudo se acalma, Entre um cochilo e outro, observo a dupla a minha direta, logo a frente. Parceiros desconhecidos, seguiram nessa aventura em momentos diferentes. Dormiam. Roncavam. Eis que o passageiro sentado no corredor, acorda, se espreguiça, olha em volta, e lentamente....pare a cena e imagine tudo em câmera lenta .... segue a cena... estica o braço em direção a garrafa d'água do outro, pega devagar, abre com cuidado, da um gole, limpa a boca, fecha, coloca no lugar procurando não fazer barulho, e finge dormir.
Instantes depois o outro, o dono da água,  acorda com uma tosse catarrenta, daquelas que vem do fundo da garganta, aquela tosse escandalosa e produtiva, que provavelmente desculpem a nojeira, terminaria naquela cusparada catarrenta. O escândalo foi tanto que quase acorda o ônibus todo. O dono da agua, avança para a garrafa recém devolvida, toma toda água, e emite aquele aahh de satisfação. O que tomou da água alheia, imediatamente se levanta e vai correndo ao banheiro, de onde se ouviam muitos ruídos estranhos. E segue a viagem.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Pega ladrão ?!

Essa história poderia começar assim: Em uma pacata cidade do interior paulista.....
Estava esperando a carona que ia me levar pro aeroporto, e desci pra esperar na porta do prédio. Era uma rua calma, típica de cidade de interior. Um bar na esquina a minha direita, duas casas de moradia na sequência. Bem em frente onde estava um açougue. Em frente ao açougue duas senhoras conversavam calma e tranquilamente. Uma delas segurava um cachorrinho pela coleira e na outra mão uma sacolinha meio cheia, junto com a coleira segurava uma bolsinha preta. A outra senhora de costas pra rua conversava animadamente com a outra senhora que parecia ser sua amiga. Falavam, gesticulavam, riam, tocavam uma na outra pra contar algo mais sigiloso ou "fofoquento" rs. Eis que do nada surge um moleque vindo da esquina correndo alucinado. Passa entre as duas senhoras e quase derruba a que estava segurando o cachorro, que perde o equilíbrio, e pra não cair se escora no muro que estava atrás de si. Assustadas e nervosas gritam e esbravejam levantam os braços como se fosse bater em alguém que estava por ali. Atravessei a rua pra falar com elas, e ver se estava tudo bem. Ficaram contando e repetindo o acontecido várias vezes. E começam a reclamar da violência, da falta de segurança e a falar que isso é desespero das pessoas sem emprego.  Perguntei se tinham levado alguma coisas delas, e percebi que a sacolinha não estava mais na mão dela. Pois é meu filho, disse ela, levaram a sacolinha onde estava o coco do meu cachorro. Eu levo ele pra passear e fazer necessidades, mas não deixo cocô no chão. Mas estão roubando até o cocô do cachorro, terminou ele indignada.
Se está ruim, sempre pode piorar.

Lanchinho agitado

Escuta essa, digo, leiam essa história.
As coisas acontecem e a gente nunca acha que vai passar por certas situações ou estar perto de algumas delas.
Estava tomando um lanche em uma padaria de esquina em São Paulo. Demorei pra achar um lugar legal pra comer, e tinha esta lanchonete e pastelaria. A Barca. Não sei porque do nome. Recomendo o americano e o omelete com fritas.
Mas, o começo desta história, o fato ocorrido é típico de bar e ou lanchonete de esquina. Bêbados chatos e moleques sem noção, o que tem em todo lugar. Sentei de frente pro balcão nos fundos da lanchonete. O lugar é pequeno. Ao lado de onde estava sentado, a minha direita, uma mesa pequena encostada em um vidro que mostrava a rua.
Fiz meu pedido, e fiquei de conversa com o chapeiro e o copeiro. Na minha frente do outro lado do balcão, perto da entrada e do caixa estava o nosso primeiro personagem, um rapaz completamente embriagado. O chapeiro e o garçom me contavam que era um profissional muito competente e respeitado que trabalhava com acabamento de madeira em residência, ou coisa assim. Mas que aos sábados fazia uma via sacra entre os bares daquela região e terminava ali. Até aí, era só mais um bêbado de padaria. Passado alguns minutos, entram três caras no melhor perfil moleque bombadão de academia. Hipertrofia em baixo, atrofia em cima, acho que da pra imaginar. Até aí, normal. E eu ali esperando o meu lanche, assuntando com o garçom e o chapeiro. Eis então, que entram duas moças muito bonitas e arrumadas. Pelo vidro deu pra ver quando saíram de um barzinho na esquina oposta, atravessaram a rua entraram e sentaram na mesa que estava a minha direita, nos fundos da lanchonete. Pediram alguma coisa para comer e ficaram conversando. Aí os personagens desta história começam a interagir. Os três "pityboys" provocaram o rapaz que estava de fogo a ir mexer com as moças. E assim era a cena, ele ia, e elas despachavam o cara na moral e até com certo bom humor, isso por várias vezes.  Mas, os babacas que estavam provocando o bêbado começaram a apelar e a falar alto, baixando o nível da conversa, dizendo pro bebum chamar elas disso e daquilo. E falando alto um monte de coisas, que em certa altura, chegaram ao nível do intolerável. Que na minha opinião já tinha passado do tolerável fazia tempo. Foi quando eles disseram, "vai lá e passa a mão na gostosa". Antes que o nosso primeiro personagem pensasse em fazer alguma coisa, as duas se levantaram da cadeira ao mesmo tempo e tiraram da cintura, mas atrás das costas, uma pistola cada uma. E apontaram pros moleques. Agora , congela a cena.....duas moças aparentemente indefesas, sacam duas automáticas e estão em posição de tiro. Segue a cena, o bêbado cai de costas em cima de uma pilha de carvão que estava encostado no caixa, os babacas ridículos, não tem outra coisa pra chamar esses caras, se escondendo, tropeçando um no outro e se estabacando na geladeira atrás deles. E as meninas dizendo com uma autoridade que não parecia sair delas: VAZA!!! Na hora senti que algo escorreu pelas minhas pernas, sim nas duas. Não sabia se era o meridiano da bexiga tendo um ataque ou era coisa mais líquida, e o suor descendo. O garçom e o chapeiro se afundaram no balcão, o caixa idem, e os babacas gritando "PELAMORDEDEUSMINANUMFAIZISSO" (coloca um sotaque paulistano nisso que vc vai entender como era). E elas repetiram mais uma vez VAZA!!!! Quando eles iam saindo, um se arrastando de costas no chão e os outros dois um se escondendo atrás do outro, elas gritaram, VOLTA E PAGA A CONTA SEU BABACA. Eles jogaram uma nota pro rapaz do caixa, e foram embora. O bêbado sumiu, não sei por onde ele saiu. As moças enfiaram a pistola no coldre que estava nas costas, sentaram e continuaram a tomar o lanche. E eu estava em dúvida em como fazer pra levantar dali. É cada uma que me acontece.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Josephine - A descoberta da felicidade pode ser dolorosa.

Acordo de um sono mal dormido, no meio da madrugada. Frio, chuva fina, estava em um acampamento para ver um fenômeno natural. Nada feito, chuva, neblina, vento, frio e um bando de doidos acampando no alto de uma montanha. Ninguém dava o braço a torcer, ficaríamos ali. Ficamos. E nos lascamos.
Acordado pela dor que atormentava todas as partes do corpo e pelo chão duro, tentei achar uma posição naquela barraca, que já não balançava tanto com o vento forte. Acomodando os sentidos começo a perceber os ruídos do entorno. O vento fraco, garoa fina batendo na lona, pessoas rindo ao longe. Alguns passando perto da barraca. Nada chamava a atenção. Meio dormindo, quase acordado, a dor no corpo vai se acomodando e passando para outras partes menos doloridas, tento me acertar de novo, e me acalmo. Não sei quanto tempo depois, acordo com vozes, duas amigas conversando. Não conseguia avaliar há quanto tempo estavam ali conversando. Com certeza, na barraca ao lado. Não falavam alto, mas a direção do vento e o tom de suas vozes, traziam a conversa ate mim.
Parecia que a conversa já estava adiantada quando acordei com as vozes. Tentei não ligar, afinal queria dormir e que a noite acabasse logo. Pq deitado naquele chão duro, estava cada vez mais difícil. Tentando esvaziar a cabeça dos pensamentos e do desconforto, a conversa praticamente caia direto, no centro da minha atenção ou da minha barraca. Não tinha saída, me pus a ouvir. Tbem não ia mandar calarem a boca. Não me ocorreu, ou não tive coragem quando ouvi a frase de uma das moças que parecia desabafar. “preferia não ter descoberto a felicidade, assim sofreria menos”. Opa!! Isso me despertou, quase sentei.
A curiosidade bateu, afinal é uma frase de efeito, e na impossibilidade de dormir parecia que o tema era bem interessante.
Chegam mais duas amigas e perguntam o que está acontecendo, e é ai que tudo começa.
A protagonista desta história, que aqui chamo de Jose, começa a contar para sua amigas que tinha encontrado a felicidade, a reação das amigas veio de imediato – Que estória é essa!? Está de lua de mel com o marido? Descobriu algo novo nele depois destes anos de casamento? Alguém ataca de forma mais incisiva, tá de caso com alguém sua louca? Todas riem e falam ao mesmo tempo um confusão que não se distingue nada do que dizem, enfim se acalmam.
- Pois é, continua Jose, aconteceu. Era um estranho, se tornou amigo, mas sempre tinha um algo mais no ar, que não sabia o que era, não sabíamos o que aquele sentimento significava. A amizade se fortaleceu, o carinho ficou evidente no dia a dia, na convivência, na preocupação um com o outro. A ponto de ligar pra saber se a dor de cabeça tinha passado, se tinha dormido bem, se aquele projeto do trabalho tinha dado certo. Cuidado com as preocupações cotidianas. Percebi que é isso que mantem as pessoas juntas, que fortalece a relação, o interesse de um pelo outro. Mas vc não tinha isso com o Fulano ? perguntou uma delas. O dia a dia leva a gente pra uma vala comum, onde todas as coisas parecem iguais e sem importância, ou que parece que tudo esta sub entendido, dito sem dizer, e tudo acaba ficando sem ser percebido, falado. Aquela fase do “eu achei que vc tinha entendido”, “achei que vc tinha dito”, “achei que vc soubesse”, e assim as coisas deixam de ser vividas, sentidas compartilhadas.
Mas e ai sua louca, rolou aquela noite de sexo selvagem com o bofe?! Não, não Fulana, relações não são apenas sexo, são também sexo. A questão não é essa, a questão é carinho, cuidado, atenção com o outro e sexo também claro. Ah para com isso!!!! retrucou a mesma Fulana, que besteira romântica é essa, o que vale é o “rala e rola”, senão nem vale a pena. O que ela disse na verdade é impublicável neste espaço. Larga de ser tonta e cai de boca, todas riram inclusive Jose. Outra disse, isso nem é traição, vc nem fez nada, retruca a outra, não mesmo, como vc é babaca, trouxa. Mas e o bofe vale a pena, é gatão, sarado, tipão??? Vc é tão tonta que nem da pra perguntar se o cara manda bem, todas riram. Jose explica - gente é triste se sentir sozinha estando acompanhada, é solitário estar junto de quem não tem o interesse por vc, pelo seu dia, pela sua vida. A gente se sente secando. Independente do que vc faça, nada muda. Ai do nada, vc encontra uma pessoa atenciosa, e se sente cuidada, acolhida, querida e desejada. Todas reagiram - aeee uhul, ta escondendo o jogo “miga” ? Claro desejada tbem explicou Jose. Na minha cabeça não existe uma coisa separada da outra, as amigas riram, e todas falam ao mesmo tempo, eu ouvindo, ri por dentro. Só vc que vive um conto de fadas, atacou uma, outra dispara - brasa encoberta, dizia minha avó, mais risos e uma falação que não conseguia distinguir o que diziam, mas riam e faziam pouco caso da situação da amiga. Uma delas apaziguou os ânimos e retomou a conversa. Vai Jose, conta mais, parece que isso é muito sério pra vc. Gente, para de zuar. Fala Jose. E ela continua, com o mesmo tom de voz morno, sem alterar o tom. Imagino a cena: essas quatro moças sentadas em roda, uma delas deitada com a cabeça apoiada na perna de uma outra. Jose com as pernas cruzadas e com os cotovelos apoiados nos joelhos e com as mãos apoiando o rosto. Imagino que seja jovem pelo timbre da voz, cabelos compridos e não sei porque imagino que seja morena. Das outras não me vem nenhuma imagem. Pela claridade que podia ver através da lona fina da barraca, havia uma lanterna acesa dentro do barraca amarrada ao teto, apontando para baixo. Era essa a cena que me ocorria.  
O que mais me doi disso tudo, continua Jose, a outra interrompe e ataca, foi não ter dado pra ele, todas riem. Não é isso, se defende Jose, é descobrir a felicidade e não poder vive-la. Saber o que é, toca-la, senti-la e não poder desfrutar disso integralmente. Ai que chatisse isso, disse uma das mais escandalosas, mas foi a única a se manifestar, as outras se calaram e entenderam. - Preferia não saber, continuou Jose, preferia não ter vivido isso, assim não sofreria, não sofreria por ser feliz. Silencio absoluto. Ficaram assim não sei quanto tempo. Ouço o que deve ser um fungar de nariz e só.

sábado, 29 de outubro de 2016

Uma história de atropelamento e fuga

Uma história de atropelamento e fuga.
Filho pequeno, animal de estimação, objetos de uso constante e de valor, levamos sempre a mão, em rédea curta, sempre próximo dos olhos e das mãos. Os motivos são óbvios. Mas as vezes temos aqueles instantes de bobeira e eles se soltam, se vão. Aproveitam da nossa distração e partem pra experimentar o novo, a liberdade sonhada, espaço almejado, enfim, o que será que se passa dentro de cada um? E assim, lá estava eu, com amigos, chovia, lama, buracos, frio. Uma dessas aventuras que a gente se mete a convite dos amigos. Mas junto com os amigos a gente topa até passeio de índio, lá estávamos nós. 
Quando percebi, não estava mais ao alcance das mãos ou dos olhos. Olhei em volta, perguntei aos que estavam por perto. Voltei ao carro e nada, uma sensação angustiante e de vazio tomaram conta de mim. Comecei a correr pelos lugares que já tinha passado e nada. Pedi para os amigos que estavam próximos de mim, que ajudasse a procurar e a chamar por ele. Nada! A sensação era terrível. Tudo nessa hora passa na sua cabeça. Onde estará, o que será que aconteceu, está com alguém ? Momentos torturantes. Até que de longe eu avistei. Caído na lama. Entre os buracos da rua, cheio de lama. Corri ao seu encontro. Á distancia não acreditava no que estava vendo. Não podia ser verdade, mas era. Lá estava ele, estirado no chão. Só, abandonado, sujo e aparentemente sem vida. Com carinho eu o peguei, limpei o que era possível. E ví que definitivamente estava sem vida. Não respondia a nenhum dos meus estímulos. Era o fim. Ele estava morto. Uma tristeza profunda toma conta de mim. Não sabia o que fazer, nem como agir. Estava desnorteado.
O que me deixa estarrecido é a falta de solidariedade e compaixão da pessoas. Não foram capaz de impedir, nem de socorrer. 
Apesar da sua breve vida, vivemos muitas coisas juntos. Alegria, tristezas, momentos de prazer, trabalho. Enfim ele se foi. Meu celular foi atropelado. Estou arrasado. Neste momento, de luto.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Marcelino e Severina

MARCELINO E SEVERINA.

Chegou do norte como quem chega do nada, e na bagagem de mão e da vida, tudo, menos instrução.
Assim chegou Severina. Semblante severo. Olhar Sereno. Apesar da vida marcada pela vida, trazia o desejo da esperança, que não sabia de onde viria, mas que viria, sabia.
Conheceu Marcelino. Um menino. Que professava a arte da madeira. Marcelino, marceneiro era. Sempre seria. Seu pai foi. Nunca conceberia saber outro saber. Já sabia o que era. Sempre soube o que seria.
Marcelino conhecia Severina aos poucos. Como se deve conhecer quem vai se amar para sempre. Conhecia, amava e entendia, mas não compreendia o seu não saber. Não entendia como alguém não sabia ler ou escrever. Ensinar ele tentou e a ambos frustrou. Mas os seus amores cresciam, disso, eles sabiam.
Marcelino marceneiro, acostumado a vencer a resistência e a dureza da madeira, escolheu novo ideal. Venceria o não saber de quem sabia, que poderia vencer. O de saber ler e escrever.
Marcelino então foi aprender, saborear novo saber. Rompeu com seu destino, professor queria ser. E uma nova sina, logo teria.
Marcelino, bom menino aprendeu logo o novo ofício. Madeira mesmo, agora só via no lápis, torneado e apontado. Mas Severina, a nova matéria prima, que daqui pra frente tornearia, logo outra resistência ofereceria. Matéria prima que uma vez marcada, pra sempre ficava.
O que aprendeu não resolveu, o pulo do gato ninguém ensinou, ou não sabiam. Ensinar, achou, que fácil seria, na verdade difícil missão se tornaria, pois com Severina nada conseguia.
Apaixonou-se por professar a arte de professorar. Foi um mestre de seus pares. A criançada, a nenhum outro preferia. Mas ainda não entendia, como Severina nada aprendia. Ainda assim amava, aquela, que não lia ou escrevia.
Sem saber como e porque, Severina, entendeu sem querer com a amiga Maria, o que Marcelino tanto lidava e ela não aprendia. Era só alegria o que ela sentia. Finalmente daria esta alegria a ele que tanto bem lhe queria.
Marcelino quando soube, ficou cheio de emoção e alegria, porque finalmente Severina, alfabetizada seria. O que ele ainda não entendia, era porque com ele, ela não aprendia.
Olhando daqui, sem conhecer essa moça e esse moço, o que logo ouço do meu coração é que Severina não aprendia porque que era o homem que ela queria e não ao professor que de tudo sabia.
Hoje Severina mulher de Marcelino, é professora que gosta de alfabetizar, e sabe como ninguém que para aprender e para amar é preciso se entregar .

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Meu encontro com Celeste


Meu encontro com “Ela”.
E ficamos assim, por um longo tempo nos olhamos. Não conseguia tirar os olhos dela. Tinha um olhar insidioso. Penetrantemente verde.  Lindos. Tinha pose, uma certa superioridade.  Mostrava a língua de forma provocativa, o que as vezes me levava a evitar o seu olhar, mas eu não conseguia, não podia . O corpo jovem demostrava a sua força e vitalidade. Sentia na minha perna o seu toque. Me chamava. Pequenos toques. TAP TAP TAP. E de novo como mais intensidade TAP TAP TAP TAP TAP. As vezes me apertava com mais força para chamar a atenção do que estava acontecendo ali. Ela estava embaixo de mim.
Isso aconteceu quando resolvi ir ao Bonete, comunidade “quase” isolada em Ilhabela/SP em uma caminhada solitária de 12 kilômetros de trilha, com subidas íngremes e descidas, que era preciso colocar a mão no chão pra dar apoio, travessia de pontes e rios. Era um desafio pessoal. Na verdade várias situações a superar.
Quando se começa a caminhada numa trilha dessas, tem que se tomar alguns cuidados. Folhas secas no chão podem esconder aranhas, cobras ou bichos menores. Prestar atenção em ramos e galhos, pois pode se encostar em folhas urticantes, teias de aranha, vespeiros. Mas depois de um tempo de caminhada, vc só quer acertar o próximo passo, buscar o ar que está faltando e tentar não pensar na frase “o que é que eu tô fazendo aqui ?!”. Nessa hora vc pensa na sua casa, na cerveja gelada e no sofá confortável. E que voltar pode ser tão ruim ou pior do que o esforço de terminar. Até pq a sensação de ter “arregado” é horrível. Esse desespero, vem sempre a meio caminho do destino.
No começo vc se acha o máximo. Acreditando que é logo ali e que está inteiro, molezinha! Depois de um tempo ou respira ou pensa. As duas coisas não funcionam juntas.
Como foi que encontrei com Ela ?
Então,  já sem fôlego e quase cambaleante em meio a tanto esforço pra subir a pirambeira, lá está ela. Embaixo de mim, sob os meus pés. Quase me faz escorregar. Só a vi de canto de olho, depois que a passada já havia sido dada, e o pé tocou o chão.
Sem pensar ou instintivamente mantive o pé sobre ela. Ela me olhava com um olhar penetrante. Me provocava mostrando a língua, e quando fui me ajeitar para não perder o equilíbrio, apertei-a mais ainda e como reflexo, ela se agarra na minha perna com a cauda. Sim tinha um rabão daqueles, era uma cobra. Seu corpo frio e escamoso me aperta a panturrilha suada e a ponta da sua cauda me chamava num tipo de Ei , me solta !!!! Tap tap tap.  Quando apertei mais, de novo recebo os tapinhas tap tap tap tap tap, e imaginava o que ela queria me dizer “ Ei, qual é? Me solta!!!
Estávamos ali, os dois, em um momento intimo, ligados pelo olhar, presos um ao outro. Se eu soltasse ela me mordia.  Imaginei ela me dizendo : me solta cara, qual é tá machucando!!! Se eu soltar vc me morde, eu respondi. E ela retruca, mas é claro vc está com o pé no meu pescoço. Mas foi sem querer, retruquei. Sessou a conversa. Afrouxo um pouco o pé e de novo, ela faz um ruído rascante e tenta virar a cabeça para me picar. Não temos outra saída, vc vai mesmo me picar? perguntei, e ela me responde, claro essa é a minha natureza, qual e a sua?, ela pergunta. Bom, pensei com as alças da mochila que estavam me ardendo o ombro: Somos mega predadores, matamos e caçamos sem necessidade, esgotamos e poluímos a natureza, tá certo, vou ter que te matar, respondi. Se ela pudesse engoliria em seco, mas com o meu pé no pescoço não dava. Olhei em volta, não achei nem um pedaço de pau que pudesse me ajudar, pela frente uma subida enorme que já vinha me desgastando a uns bons minutos. Não tinha coragem de mata-la, se tivesse já teria acabado com essa história. Resolvi então tentar uma saída, fui apertando de leve até ela não se mover mais e soltar da minha perna, talvez assim conseguisse pega-la pela rabo e atirar longe ou empurrar para longe com os pés mesmo. E assim eu fiz, fui apertando, ela se debatendo. Que aflição!!! Até que seu rabo perdeu a força e se soltou da minha perna, peguei pelo rabo sem soltar a cabeça que estava debaixo do meu pé e atirei longe. Assustado com aquilo tudo, arranjei um último folego e sai correndo morro a cima. Quando consegui me achar em segurança, olhei pra ver se encontrava a minha amiga Celeste, sim dei nome pra ela ora essa, afinal no meio de tanta intimidade tinha que ter nome. Sim, as referências são da celeste do castelo Ra Tim Bum, sim, sim, eu assisti. Bom, continuando, tentei ver se encontrava a Celeste, demorei mas encontrei seu corpo esguio e colorido estendido no chão, eu a tinha matado :( Lamentei. Pensei em ir lá tirar os seus restos mortais do caminho, podia assustar alguém. Fui descendo devagar tudo o que já tinha subido com sacrifício, olhando para o seu corpo estendido no chão. Quando comecei a chegar mais perto, eis que ela se mexe!!!! #@&»:\§£@ TA VIVA !!!!!! (Sim é um palavrão!!!) Gente nunca senti um arrepio tão forte como aquele, gelado, por dentro, trinquei de medo, virei as costas e subi voando o morro, nem sei de onde tirei tanta energia. Segui meu rumo e Celeste o dela. Nunca mais nos encontramos, ainda bem. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Bem mais que o tempo

Bem mais que o tempo.

De frente para a penteadeira ela tinha tudo do que precisava, e do jeito que gostava que suas coisas ficassem. Escovava os cabelos recém cortados. Sentia falta do resto dos cabelos que haviam ficado no chão do salão. Ela disparava perguntas para ele que estava lendo na cama. E quando lia quase não ouvia o que ela dizia. Mesmo assim ela insistia e o crivava de perguntas.
O que você achou do meu cabelo? E olhava pelo espelho esperando resposta. Não só verbal, mas a cara de aprovação que ele costumava fazer. Sabia que se ele respondesse sem olhar era porque não tinha gostado.
Ficou bom, eu já lhe disse – Respondeu olhando para o reflexo do espelho. Não sei porque você cortou. Já disse que gosto deles compridos. Mas você não me ouve. Depois fica me perguntando o que achei.
Ela procurando os olhos dele pelo reflexo do espelho retruca. Eu sei, mas agora que está cortado. O que você achou?
Ele se levanta e diz com a voz cheia de carinho. Meu bem você sabe que eu gostei. Gosto de você assim também. Com o cabelo curto, você fica como na foto que esta na minha mesa, lembra? Ele chega até ela e sentou-se a cavalo na banqueta de frente ao espelho, tomando a carinhosamente nos braços, beijando o rosto. Ah! Disse, incrédula. Você sempre diz isso. Ele riu, e olhou diretamente para ela e a apertou com um abraço forte. Bobinha, ele disse. Ela sorriu e se apertou contra o corpo dele, encostando a cabeça no ombro forte.
Olhando ainda para o espelho ela passa as mãos ao lado dos olhos e pergunta. - Você acha que devo fazer uma plástica, para tirar essas rugas? Tirar esse ar de cansado. Ela a pega pelos ombros e a coloca de frente e a olha no rosto demoradamente e diz – hum! Pensando bem... eu acho que...bem....deixa eu ver... Virando o rosto dela para os lados segurando pelo queixo delicado, como se observasse melhor. Finalmente diz – Não, esta bom assim. Ela protesta batendo com a mão mole no ombro dele dizendo dengosa. – Seu bobo! Não fica me fazendo de ridícula assim. - Estou falando sério. Disse ele, acariciando o cabelo recém cortado. Ela adorava estas sessões de perguntas ao passo que para ele era um exercício de paciência. Mas que fazia com carinho, pois sabia que para ela era importante esse exercício de afirmação da sua “condição feminina” como ela sempre dizia. Infelizmente nem sempre conseguia responder da forma como ela queria e logo ela ficava emburrada. Dizia que estava velha e feia e que ele não se sentia mais atraído por ela. Ai não tinha concerto, só no dia seguinte.
Não satisfeita, ela abre o penhoar e descobrindo o colo. Provoca, passando a mão sobre os seios. Eles não estão muito tristes, sem vida? Para com isso, vocês mulheres são muito severas com vocês mesmas. Ninguém esta falando nada e vocês vivem vendo defeito. Diz ele, quase a beira da irritação. Levantando-se volta para cama onde estava. É nada! Afirma ela nervosinha. Empertigando o corpo para frente para ver se mudando a postura, seus seios pareceriam diferentes. Virou se de lado, depois do outro, levantou os com a palma das mãos, sentido o volume e peso. E atirou contra ele a afirmação que mais gostava de fazer. Com o dedo indicador levantado, disse: Você, nestes anos todos, nunca me deixou fazer uma plástica, nem uma. Bobagem, dizia ele, o principal esta ai, você. O que eu quero em você, de você, está como eu gosto e amo.Você, assim do jeito que te conheci. Se bem que se ela quisesse, na verdade, teria feito e nem teria perguntado. Ambos sabiam disso.– Mentiroso, disse ela brincando e se levantando da banqueta da penteadeira, indo na direção dele. – Eu sei dos olhos compridos que você tinha para umas e outras, que tinham outros predicados diferentes dos meus. Um pouquinho mais aqui, e arrebitando mostrava com as duas mãos um bumbum maior. Um pouquinho mais ali, e forçando o tronco para frente mostrava com as mãos seios mais volumosos. – Larga de ser bobinha, sempre a mesma história. Mas seja lá quem você esta imaginando, no mínimo tinha menos aqui e aqui. Mostrando a cabeça e o coração. Ela que estava em pé ao lado dele, sentou-se ao seu lado na cama e lhe apertando as bochechas, coisa que ele detestava, e ela sabia, disse: Sempre a mesma conversa. Você é um grande galanteador, sempre foi. Sabia levar todos na lábia. É verdade. Estamos aqui hoje depois de tanto tempo porque? Riu. Fazendo cócegas na cintura dela, coisa que ela detestava mais que tudo e que ele também sabia. Mas como o clima estava mais pra namoro do que pra encrenca. Até que ele querendo virar o jogo, disse. É, eu também não posso falar nada mesmo, se eu também não sou mais aquelas coisas, o físico de nadador já era, as entradas já são um fato, a barriga é uma realidade e o desempenho, bem isso então nem se fala. Lá vem você com essa história de macho, disse ela querendo desarma-lo. Não começa porque você sabe que eu não acho nada disso. Já te falei. Porque vocês homens acham que é só assim que nós entendemos essas coisas. Ele não perdeu a chance de retrucar. É isso que eu estou dizendo pra você querida. Disse ele, largando o jornal que inutilmente tentava ler, e com carinho puxou a sobre si e a abraçando com força, amassando o jornal entre eles. Ainda olhando a nos olhos bem de perto, ele disse: O que eu vi em você 40 anos atrás ainda continua me encantando depois de tanto tempo, depois de tanta coisa que passamos juntos depois de todo desentendimento que tivemos. Independentemente destas coisas eu nunca deixei te amar.Claro fiquei triste, chateado bravo, irritado. Sei que você também ficou comigo. Mas nunca deixei de ter dúvidas do meu amor por você. Mesmo quando as coisas não iam bem. E olha que não foram poucas vezes e por vários motivos. Mas não é disso que eu estou falando, disse ela tentando desviar o assunto, pois estava ficando com os olhos cheios dágua. Ele insistiu.  Assim é com o seu corpo. Temos 60 anos. Não! gritou ela. Você tem 60, eu tenho 59. Riram e se abraçaram. Escuta, disse ele retomando a conversa e puxando o queixo dela para si. Meu olhar ainda te vê, cheio de desejo como no começo. Meu olhar envelheceu junto com a gente. Então é como se sempre fossemos assim, no começo e agora. Ela gostava quando ele dizia essas coisas, pois sabia que eram verdadeiras. Suspirou fundo cheia de emoção, afinal ela era generosa até com as lágrimas. Abraçaram-se forte. E ficaram assim até que ela se ergueu sobre ele e beijando lhe a boca disse. Você é um danado mesmo heim! Sabe me amolecer. Meu lindo. Ele gostava que ela o chamasse assim, e ela sabia. Cheios de ternura um pelo outro continuaram abraçados, ela sobre o peito dele, em silêncio se acariciando, pensando no que haviam conversado e por tudo o que já haviam passado. Ela, num sobressalto, quebra o silêncio e diz baixinho - Apaga a luz, apaga. Agora quem vai te amolecer sou eu.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Elisa e Roberson

Elisa e Roberson


“Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram.”
“Feliz daquele que acredita... mesmo sem ver”

“O dia a dia de quem trabalha com as pessoas é cheio de experiências inusitadas. São histórias ricas, e devem ser acolhidas com carinho e respeito. Alguns profissionais procuram não se mobilizar com estas histórias. Para que não haja envolvimento emocional. Assim não partilham destes sentimentos, não tomam consciência da realidade das pessoas. Não por descaso, desinteresse, mas por defesa. Para não sofrerem com as coisas que são incapazes de entender, de interferir.
A história de Elisa e Roberson é uma destas que chamam a atenção da gente, e nos fazem repensar conceitos e juízos. Eis a história.”
Elisa estava ansiosa para amamentar. Naquele dia em especial estava alegre, pois sentia que seu peito estava cheio, seu leite tinha aumentado. Sobrava, ensopando a camiseta de campanha política que estava usando.
O bebe, um menino lindo e rosado, de mais de 3 kilos, chorava a plenos pulmões pedindo o que lhe era de direito. A mãe. O peito. O leite. O carinho e a alegria que vinham do coração de sua mãe. A alegria que transbordava como o leite, que se transformava, em algo mais que o alimento, no sentimento de ser desejado, amado. Alimento que nutria a alma. E o fazia se sentir querido.
Elisa era nova, tinha 17 anos, quando engravidou de não se sabe quem.  Tinha o perfil das estatísticas. Mulher jovem da periferia, pobre, primeira gravidez, não planejada. Quando se conta esta história logo se imagina uma jovem com um fogo de hormônios incendiando todos os orifícios de seu corpo. Sim, estava tudo lá como é próprio às jovens desta idade. É esperta, sabe ler, e entende bem das coisas, apesar de falar muito “errado”, segundo explicam suas vizinhas.
Enfim o “bocudo” , como as elas chamavam, abocanhava o peito da mãe, e saciava sua fome de leite e de carinho. Guloso e esfomeado, às vezes ia com muita sede ao pote, ou ao peito, e dava umas mordidas que faziam Elisa estremecer, e se assustar tanto, que quase a derrubavam da poltrona onde estava sentada. Mas o sorriso e a alegria voltavam ao seu rosto e ela continuava com a intensa expressão de prazer enquanto amamentava.
Dava um certo trabalho colocar para mamar o menino que se chamava Roberson, nome que a mãe mesmo escolheu, cheia de orgulho. Era um menino grande que nasceu com 47 centímetros, agora com 15 dias pesava 3,5 kilos, e essa era uma das dificuldades em colocar Roberson pra mamar.
Elisa tinha gerado Roberson deitada durante os nove meses sem grandes problemas, toda feliz com a gestação, e com a atenção que estava recebendo. Todos se mobilizaram em ajuda-la. O dia todo tinha gente em volta trazendo alguma coisa ou fazendo companhia. Ela também não ligava para os comentários das vizinhas enxeridas e maldosas. Nunca imaginou que teria tanto paparico.
Já fiz várias visitas a favelas e cortiços, conheço bem os lugares pobres e marginalizados de muitas cidades. Naquele, não havia nada de especial, era mais um barraco, pobre como muitos. Pessoas simples e lutadoras como se vê nestes lugares e em outros, que tinham em comum além da miséria, a esperança. Elisa e Roberson eram também os motivos de alegria para a aquela comunidade, apesar de toda dificuldade.
Quando entrei no barraco e me deparei com a cena de Elisa amamentando “Roberson o bocudo”. Fiquei atordoado. Uma sensação estranha me encheu por dentro, e me fez parar e encostar no batente da porta do barraco frágil, feito de um amontoado de tábuas e placas de outdoor.
Vi uma menina que tinha Paralisia cerebral, com a blusa levantada acima do peito, abanando freneticamente e cheia de alegria, os bracinhos que ficavam flexionados junto ao corpo, e falando com voz que saia do fundo da garganta e pouco inteligível – “meu nenê, meu nenê!!!!”.
As vizinhas que passaram a cuidar de Elisa, tinham que segurar o garoto, pois Ela “não tinha braços ou mãos”, por assim dizer, que ajudassem. Mas tinha o coração cheio de amor e o peito miúdo cheio de leite, que acolhia, saciava. Calava o choro do seu filho. Sua alegria era radiante. Sua felicidade desconcertante. Eu imaginava que seria impossível ver naquela cena qualquer possibilidade de felicidade. Pois ali havia muita felicidade, alegria, realização, e o desejo. Desejo de uns pelos outros.
Elisa mal ficava sentada devido a tanto tempo deitada e mal posicionada. Não conseguia controlar o tronco. Nunca tivera tratamento adequado para sua síndrome, vivera a vida toda na cama.
Se fosse atendida sua história seria outra. Agora talvez estivesse segurando seu filho.
Mas este não foi e nem seria seu único problema. Se bem que até o momento, de certa forma, as coisas se resolveram a seu favor.
Tudo começou, quando sua mãe a colocou para fora de casa. Pegou uma cadeira destas de fios de plástico colorido, uma espreguiçadeira, e a colocou na calçada de frente para a rua, próximo ao barraco. Quando as vizinhas viram, não entenderam, mas como a mãe de Elisa bebia muito, imaginaram que fosse mais uma das suas. Conforme anoitecia e as vizinhas ainda viam Elisa na rua ficaram preocupadas, pois naquela favela o toque de recolher era pra valer. E foram saber o que tinha acontecido. Elisa estava grávida e quando os sinais da gravidez apareceram foi colocada pra fora do Barraco. Foi um rebuliço na comunidade. E não houve meios de fazer a mãe de Elisa voltar a traz.
Foi uma das muitas Marias, mulher daquela comunidade, que acolheu Elisa junto aos seus cinco filhos, em um dos muitos barracos de madeira e zinco a beira córrego do Jacaré.
Elisa vivia na verdade, nesta espécie de prisão. O seu corpo. Não tinha movimentos para ser independente, mas tinha a lucidez e a inteligência preservadas. Era alfabetizada, sabia ler. Como aprendeu, ninguém sabe, pois ninguém ensinou. Alguns diziam que era de tanto ver televisão, outros que foi a amiga, a filha da vizinha que sempre brincou de escolinha com ela e foi ensinando aos poucos. Fiquei sabendo que de todas as vizinhas, inclusive a dona da casa, quem lia melhor era Elisa. As pessoas da igreja vinham rezar o terço semanalmente e traziam a Bíblia que era lida por Elisa. Aos trancos e sem entender os nomes difíceis que lia, mas que todos entendiam e consertavam a mediada que ela prosseguia com a leitura.
E essa era a cena. Uma poltrona aos pedaços, que tinha no lugar de uma das pernas um bloco de cimento dando apoio. Muito pouco estofado e coberto com uma colcha já bem puída pelo uso, mas limpa, muito limpa. Atrás dela uma folhinha do Sagrado Coração de Jesus. Ao lado, a cama que também servia de berço. Uma estante com a televisão e o aparelho de som. Tudo no primeiro cômodo do barraco, o que seria a sala. Dali mesmo podia se ver a cozinha, que tinha uma janela de madeira de frente a pia. O que dava luz para dentro dos dois cômodos. Panelas, lata, leiteiras, todas penduradas na prateleira acima da pia e preciosamente areadas, como novas.
Elisa estava sentada com pernas e braços flexionados, travesseiros arrumados ao lado do corpo para que se mantivesse sentada. E Roberson o “bocudo”, sugando com vigor, segurado por Dona Maria, que dividia com orgulho a maternidade de Elisa. Ela e todas as outras Marias da sala que estavam ali “assistindo” Elisa e Roberson.
O menino ganhava peso como previsto. Reações e reflexos próprios para idade, vacinas em dia. A mãe sem problemas para amamentar. Ambos dormiam bem a noite, intestino funcionando bem. Sem novidades, exceto tudo. Tudo ali era novo. Junto com Roberson nascera um ânimo novo entre eles. Uma esperança nova. Não se sabia do que, pois as dificuldades eram as mesmas. Mas se aspirava algo novo. E isso podia ser visto no rosto de todos. Só eu não entendia o que era.
Quando iniciei a conversa com Elisa, no início foi difícil, pois não estava acostumado com o seu jeito de falar. O que me fez pedir que ela repetisse várias vezes algumas de suas falas. Mas, com calma ela entendia minha dificuldade e repetia com mais calma.
Elisa falava da felicidade que sentia por seu filho. Como se fosse planejado e desejado. Falava do que esperava para o futuro. Apostava nele como uma projeção de si. Da capacidade de realizar que ele teria, por não ser deficiente como ela. De estudar, para ser alguém, ser feliz e ter um futuro na vida. Não se incluía nos planos, não falava de si, no futuro. Só em Roberson. E isso chamava a atenção. Não queria o filho como uma chave para sua saída daquele lugar, ou o conforto da velhice. Até porque tinha bem a noção de tempo e sabia que isso demoraria muito. E comumente as pessoas que vivem nesta realidade vivem o hoje, “do amanhã ninguém sabe”, diziam as Donas Marias. Impressionava, a certeza de que educaria seu filho com a firmeza necessária para que ele a obedecesse. Mesmo ela sendo uma deficiente física, como se auto-intitulava.
Perguntei se não tinha medo de que o conselho tutelar tomasse alguma medida com relação aos cuidados do seu filho. Sorrindo, estampou no rosto a mesma felicidade de quando estiva amamentando. Olhou para as Marias que estavam a sua volta e disse – “As minhas mães cuidam de mim”.
Dona Maria, a dona da casa, disse que tinha pedido a guarda provisória da Elisa e do menino, e que o conselheiro do bairro já tinha ido conversar com ela sobre o caso. Isso já estava resolvido.
Depois de muito tempo, entenderam que eu não era uma ameaça e pude ficar a sós com Elisa. Roberson já saciado e trocado, dormia profunda e calmamente na cama ao lado da poltrona. Pude então perguntar sobre o pai do garoto. Se ele não iria ajudar a cuidar do menino. Surpresa com a pergunta, que segundo ela ninguém tinha tido a coragem de fazer, resolveu contar o que acontecera. Contou que a mãe sempre trazia homens para casa para ganhar algum dinheiro. Mas estava sempre tão bêbada que quase nunca ganhava nada. Algumas vezes esses homens abusavam dela com o consentimento da mãe. Alguns ficavam chocados com a presença de Elisa e iam embora. O que deixava a mãe furiosa, aos gritos de inútil, imprestável, atrasa vida. Mas tinha um rapaz, um freguês habitual, que depois que resolvia seus particulares, ficava na conversa com Elisa horas e horas. O que só era possível porque a mãe estava desmaiada de tão bêbada. Às vezes ele aparecia quando ela estava sozinha e assim ficavam um tempão só conversando. “Era com se a gente tava namorando”, disse. Contou também que perguntou porque ele vinha tantas vezes com a mãe dela, se ele gostava, se ele tinha tanto dinheiro. E ele muito sem jeito, respondeu que não gostava muito, no começo sim, afinal era homem, e homem tem essas necessidades.  Mas na verdade, era para que outros não viessem mexer com ela. Pois ele sabia que isso acontecia. Ela já tinha sido oferecida para ele também, mas havia recusado. E que não tinha muito dinheiro, trabalhava muito e pesado, mas quando não tinha dinheiro, era só dar umas pingas que resolvia, ela dormia e eles podiam conversar. “Ai, eu que não sou boba, vi que ele gostava de mim”, esforçou-se a dizer com um sorriso de menina no rosto.
Parecia impossível estar ouvindo aquilo tudo, era difícil acreditar. Ela quis me dizer em segredo o nome dele. Chamava-se Roberto, e tinha quase a mesma idade que ela. Se bem que, segredo no tom de sua voz, não tinha como. Mas não importava para ninguém que estava ali. Todos sabiam o que acontecia na casa de Elisa, e cada um cuidava de si como podia, se respeitavam a medida do possível, não interferiam na vida do outro. Só vivendo junto para entender esta forma de convívio. Só passando pelas dificuldades que estas pessoas vivem, pode se entender esta história toda. Então Elisa me conta que eles namoraram. Como assim, perguntei. E tive com resposta. “Seu bobo, você não sabe, até parece!” Fiquei com a cara no chão. Passei pelo meu vexame em silêncio. Até que quebra o silêncio e esclarece orgulhosa. “E foi eu quem quis, ele estava com vergonha de mim”. Perguntei como ela sabia que o filho era dele, e ela me responde com toda sabedoria do seus bem vividos 18 anos. “A gente sabe destas coisas”. E fazendo uma expressão grave disse que ninguém podia saber de quem era o filho, senão matavam. E me garantiu que eles iam se casar um dia, quando ele tivesse um barraco pra poderem morar juntos. Mas teriam que esperar até que ele tivesse um emprego melhor. Roberto era chapa, ajudava a carregar e descarregar caminhões. Tudo era tão absurdo, que não dava pra duvidar de nada. A convicção, a certeza de Elisa, a naturalidade daquela situação era assustadora. A naturalidade das pessoas a volta da mãe e filho davam conforto, credibilidade e esperança aquela situação.
Com Roberson e Elisa, estava claro para aquelas pessoas da comunidade, de que tudo é possível. Eles não podiam imaginar que Elisa naquelas condições geraria um filho normal, amamentaria e teria lucidez para pensar o que todos sabiam. As mães de Elisa não viam como um problema ou sacrifício todo o seu trabalho e esforço, que era na verdade o que garantia sustentação para aquelas duas vidas. Acreditavam em algo mais, e me disseram isso. “Só pode ser um sinal de Deus, uma mensagem de vida pra gente, pra não esquecer que tudo é possível”. Com tantas Marias, não podia ser diferente. Elas acreditavam, e isso bastava. Que assim fosse.
Quando a lucidez voltou, me perguntei o que é que eu estava fazendo ali. O que é era mesmo o que eu tinha que fazer? Mas isso já não importava mais.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Amor Paralisado

Amor paralisado

O quarto era decorado com algumas gravuras que combinavam com o ambiente. Discretas, serviam mesmo para compor o todo. Mostravam uma paisagem campestre de um país que não era este, com árvores que formavam uma alameda iluminada pelo sol, com folhas secas amareladas em todo o caminho. Via-se também uma ponte de madeira coberta com um telhado, como uma casa sobre o rio. Um bom lugar para passear em um fim de tarde, de mãos dadas com ele, a quem não via já há alguns meses. Desde que se despediram no hospital.
O sol que entrava pela janela iluminava os pés dela sob o lençol estampado, que emprestavam um pouco de vida ao ambiente e que cobriam toda a cama. Ela ficava olhando o sol subir lentamente pelo seu corpo, imaginando sentir o carinho quente que ele provocava, e de que sentia tanta saudade. Observava o sol e o tempo que passava. Ansiava a chegada dele até seu rosto onde finalmente poderia senti-lo de verdade com toda sua força e calor. Quando ele estava todo sobre ela, fechava os olhos e imaginava os momentos em que se sentiu inundada do seu calor, de sua paixão, de seu amor. Mas não podia ficar assim por muito tempo, o sol, era inclemente para quem abusava dos seus prazeres, do seu calor. Mas se administrado com carinho, e depois que ele se deliciasse com nuvens e campos, horas depois voltava para ela e poderia ser saboreado novamente. Já o outro de quem se lembrava com carinho e reclamava silenciosamente o calor do seu corpo e do seu coração, não passearia sob o seu corpo como o sol acabara de fazer.
Hélio. Sorria agora, quando pensava no nome dele, acabara de ser possuída por um outro de mesmo nome e achou isso divertido.
Com os acontecimentos ainda tão recentes, sentia-se confusa com tudo que aconteceu. As lembranças mais antigas às vezes faziam parte de algo muito próximo, algo do ontem à tarde, quando saíram para as compras, ou quando ficavam juntos lendo, sem nada dizer um ao outro, durante muito tempo. Mas a lembrança da cena de um adeus triste e consentido vem a sua memória. Confirma o fim de tudo, flashes do momento em que tudo aconteceu surgem a sua frente. Escuridão total e repentina, falta de ar, frio, dor aguda, desespero, desamparo, medo. Uma luz forte vem como uma salvação no fim de um túnel, que atravessou muito rápido e por onde não se lembrava de ter entrado.  Que agonia sem fim. Que falta de ar. Quero respirar. Algo me aperta a garganta, minha mão não a alcança, não me obedece. Tento balançar a cabeça para ver se algo acontece, mas esta tudo escuro, não consigo gritar. Água, estou na água, boiando de bruços,não devo respirar, não posso respirar, não devo respirar, mas eu quero, eu preciso, meu Deus eu vou sufocar, ninguém me vê, ninguém me acode. Posso ver o fundo do mar, meus olhos ardem, ouço as crianças brincando e gritando, “ela ta afogando, ela ta afogando”, não agüento mais, estou chorando, vou morrer esquecida, com plena consciência, morrer por não poder me mexer, vou explodir, onde estão todos, socorro. De olhos fechados inspiro assustada ar, ar, ar, finalmente abro os olhos, estou em um quarto de hospital, lugar que não conheço, parece que só tenho cabeça e que é enorme, dói muito.
Meu pai abre a porta do meu quarto e me pergunta se estou bem, e se agora que acordei, quero alguma coisa. Pergunto quem ligou, e ele me disse a lista de amigos e clientes que tinham ligado hoje. Já fazia seis meses desde que uma onda forte na praia de Ubatuba, com um tranco inesperado me jogou contra um banco de areia e me deixou paralisada do ombro para baixo. Estou aqui, cama hospitalar, sonda entrando, sonda saindo, fraldão por garantia, mas nada de movimento, nada de sentir, só uns movimentos que os médicos dizem ser involuntários. Grande coisa, não presto mais para nada.
A primeira pessoa que vi assim que acordei no hospital estava, constrangedoramente entre as minhas pernas, como dizem, “passando a sonda”, e eu sem saber do que se tratava. Assim que me olhou disse: fique tranqüila você não vai sentir mais nada mesmo, e saiu. Chorei, descobri que isso eu ainda podia fazer por mim mesma.
Sai do hospital sabendo tudo o que queria e o que não queria saber da minha nova condição de paralisada medular.
Quando encontrei Hélio sabia que seria o fim de tudo, não tinha cabimento um homem jovem e cheio de vida ficar preso a uma inválida sem futuro, e assim nos despedimos. Ele, calado, pálido, suando frio, não sabia muito o que dizer ou fazer, só lamentava e se desculpava, via-se que estava perdido, angustiado, amargurado, sofrendo. Como eu detestava vê-lo naquela condição. Não o culpava ou censurava por ir embora, não podia ser diferente. Eu mesma havia mandado que saísse da minha vida. Enfim acabamos, acabei, acabou. Chorei novamente e isso eu já sabia que podia fazer por mim. Agora só precisava superar a vida.
Tinha que aprender a lidar com os outros e comigo, não precisava aprender a fazer, só precisava aprender a passar pela vida, entender desejos e sentimentos de uma outra forma, se é que existia uma.
Quando me davam banho, e geralmente minha mãe tinha esta tarefa, não deixava que a enfermeira o fizesse, não entendia porque. Às vezes era colocada em uma banheira de hidro com um assento moldado no fundo para não escorregar e ficava ali por um tempo. Todos achavam que seria uma maravilha, eu morria de medo, pois seria um novo afogamento sem defesa. Mas fazia a vontade de todos e tentava controlar meu pescoço, para que não morresse afogada por tombar a cabeça. Quando minha mãe vinha finalmente me lavar e me massagear dentro da água, não falava nada, só acariciava meu corpo em silêncio, passava alguma coisa na mão e me tocava, não me olhava nos olhos, tinha um olhar vago, perdido, fazia tempo que não a via de tão perto, estava envelhecendo. Era engraçado ver estes sinais que ela sempre se recusava a aceitar. Ri sem querer dos meus pensamentos e ela se assustou, pois estava envolta com seus pensamentos sabe-se lá onde. Perguntou se sentia alguma coisa, cócegas, dor, ficou assustada, perguntou o que era. E quando lhe disse que estava ficando velhinha, ela me olhou nos olhos e riu, sentou no chão do banheiro e riu muito, rimos muito. Até que começou a chorar convulsivamente, pediu desculpas e falou que a enfermeira terminasse meu banho. Fiquei ali olhando meu corpo por sobre a espuma que já raleava na água, meus seios balançavam flutuando nas ondas dos movimentos da água, era estranho vê-los assim, eram ainda jovens, firmes. Olhei para o resto de mim, estava mais magra, e já perdera a cor do verão das praias do litoral de São Paulo e das sessões de bronzeamento. Mas ainda formavam um bonito conjunto de mulher. Afinal não era modelo a toa. Lembrei novamente de Hélio, de como tocava meu corpo, de como nos amávamos, dos prazeres que dividíamos, da cumplicidade dos nossos desejos. Chorei, era só o que eu podia fazer por mim naquela hora.
Voltei para cama, a enfermeira terminava de me enxugar, fazia bem o serviço, mas era impessoal, ela passava a toalha em uma coisa que não era eu, não era meu corpo, que fora desejado, amado, fotografado. Estava nua, e ela passava um creme qualquer. Perguntei o que ela achava do meu corpo, se ela ainda achava que era bonito. Que burra, que resposta eu esperava ouvir, falou o obvio.
Já haviam se passado seis meses. Sentia falta de mim, do meu corpo das minhas sensações, de me sentir viva e pulsante, sentia falta do Hélio, do seu calor do seu hálito, da textura da sua pele, do peso do seu corpo contra o meu, da sua companhia, do seu silencio, da sua cara. E ele apareceu. Depois de tanto tempo sem ter notícias. Tinha acabado de sair do banho, minha mãe nunca mais me dera banho e nunca perguntei porque, não achei que valesse a pena. Meu pai veio me avisar de sua chegada, e surpreendeu a enfermeira nos últimos cuidados para me secar, ainda ficava constrangido em me ver nua, justo eu que já dispensava tanto pudor, nada mais valia a pena. Pedi a enfermeira que só me cobrisse, como fazia às vezes, e pedi que Helio entrasse. Achava que estava mais magro, os cabelos estavam mais compridos. Será que como o sol, tinha se divertido por outras paragens neste tempo que ficamos separados? Mas que bobagem. Pergunta que já sei a resposta, óbvio de novo, estava ficando expert em obviedades. Estava como da última vez, sem jeito, não sabia o que dizer e o que fazer, disse algo sem sentido, bobagens que se diz quando não se sabe o que falar. Me enchi daquilo tudo e pedi que chegasse mais perto, ainda estava de pé, torcendo as mãos. Pude vê-lo melhor, parecia ter murchado, secado, precisava de sol. Disse mais algumas bobagens que não quis entender. Na verdade tinha receio de que visse pena nos seus olhos e na sua fala, pois eu queria mais. Meu coração disparou quando sem pensar pedi que ele levantasse o lençol. Ele acreditando que era algum cuidado de que eu precisasse,  fez sem pensar. Quando me viu nua, ficou paralisado com as mãos suspensas no ar segurando o lençol. Uma luz parece ter passado rapidamente por seu rosto, um leve espasmo fez com que seus lábios se contraíssem. Meu rosto parecia incendiar, meu coração se transformou no meu corpo todo, e pulsava violentamente. Ele de repente ganhara cor no rosto, e por fim me descobriu inteiramente colocando o lençol abaixo dos meus pés.
Enlouquecida pedi que ele se deitasse comigo mais uma vez, que precisava tentar senti-lo junto ao meu corpo ou pelo menos ter esta lembrança dos nossos corpos juntos. Ele desviou seus olhos dos meus, baixou a cabeça, olhou para a porta que estava a sua esquerda, e se dirigiu até ela estendendo a mão em direção a maçaneta. Pousou a mão sobre ela e voltou a olhar meu corpo nu sobre a cama. Queria morrer cem vezes naquela mesma hora, era a minha coroação de rainha das obviedades. Explodi por dentro de tanta raiva e de uma loucura cega, por ter sido tão estúpida a ponto de pedir que aquele homem, e não precisava mais de adjetivos, se deitasse com uma inválida que não conseguia sequer controlar a urina que saia pelo menor de seus orifícios. Com a mão esquerda apoiada na maçaneta puxou a porta e fechou a novamente, com a mesma mão alcançou a chave, trancou a porta e voltou-se na minha direção. Instantaneamente sentia novamente o pudor que havia perdido e uma felicidade tão grande que não podia acreditar. Um desespero tomou conta de mim como se fosse a primeira vez e tinha medo de não corresponder às expectativas dele, mas que besteira, o que poderia fazer senão continuar ali inerte. Foram tantas sensações em tão curto espaço de tempo de quase perdi os sentidos, me segurei para não desmaiar. Mas que estúpida, era só o que me faltava. Ele estava ali, e aceitara a minha loucura. Quando parou frente à cama hospitalar, parecia outro, eu também já era outra, estava mudada com as sensações de trinta segundos, pois não vivia há seis meses. Olhou meu corpo novamente e suavemente o tocou, estava emocionada, já não importava mais nada, estava feliz. Gritava por dentro de alegria,  chorava de felicidade. A loucura agora era outra, era vê-lo, e me ver. Beijou meu ventre com carinho, eu não sentia, mas não importava, eu via, entendia o toque por outro sentido, de uma outra maneira. Encostou o rosto na minha barriga e me apertou contra si. Estava calmo respirava tranquilamente. Afastou-se do meu corpo e da cama, olhei para ele com os olhos cheios de lágrimas e com uma cara boba de extrema felicidade e prazer. Foi quando finalmente ele disse algo que consegui ouvir. Você esta bem?  Você me parece feliz, apesar das lágrimas, mas tenho medo de lhe machucar ou de quebrar algo ou de tirar algo do lugar. Eu quero me deitar ai com você, mas tenho medo. Foi a primeira sensação de prazer que sentia em seis meses de vida paralítica. Só tive forças para disser que lamentava não poder estender meus braços e dizer, “vem meu amor”. Como se algo ainda pudesse me surpreender, deu um passo para trás e começou a desabotoar a camisa, despiu as calças a cueca, sapatos e meias. Estava nu à minha frente. Deitou-se do meu lado e me abraçando aninhou sua cabeça no meu peito. Pude sentir as lágrimas que caiam do seu rosto e escorriam pelo meu ombro. Eu estava viva, podia sentir, agora podia viver.

Verônica e Janice

Lembrei outro dia de duas amigas muito queridas do tempo da faculdade, pessoas completamente diferentes, mas que tinham objetivos de vida, ou não tinham, bem curiosos e peculiares. Nunca imaginei que a história delas fosse ter o desfecho que teve.

A história de cada uma delas vai por caminhos opostos e tem finais curiosos e inusitados.

Verônica uma moça cheia dos predicados físicos, tinha pele clara cabelos negros, resumindo e pra facilitar, um mulherão, com todo respeito. Acontece que ela gostava de uma boa esbórnia e só queria se dar bem na vida. Vivia me dizendo que queria se dar bem, casar com um cara de grana e curtir a vida. Mas era determinante que se desse bem. Ou seja, vida com muita grana, mordomia e sexo. Ela resumia uma boa vida dentro deste tripé, se bem que pra ela essa palavra tinha outra conotação. Enfim arranjou um cara que tinha disso tudo, e de sobra. Muito dinheiro, mas muito dinheiro, gastava sem precisar se preocupar e era um amante da boa cama. Gostava da coisa. Caíram um nas graças do outro. Pasmem, pasmei, casaram. Fizeram um contrato pre-nupcial, claro pq ninguém confiava em ninguém, e casaram. Encontrei com ela alguns anos depois e achei uma mulher mais radiante ainda, peruissima. Almoçava em Paris, para jantar em qqer outro lugar do mundo onde se pudesse chegar com o jato particular do marido. Ganhava uma pensão mensal que é quase tão imoral como essa história. Prefiro não revelar. Me dizia com um sotaque adquirido sabe-se lá onde “querido, isso que é vida, maraviwonderfull”.
Janice uma moça tbem muito bonita, e isso neste caso não vem ao caso, não precisava de dinheiro. Filha única de família rica, tinha muito, sempre teve, mas dizia que tinha um problema: Vivia uma vida bem besta, palavras dela. Tinha uma história não menos curiosa. Dizia que queria casar. Mas que podia ser com qqer um pq já tinha tido tantos relacionamentos mal sucedidos, que não acreditava em mais nada e em ninguém. Mas queria ter um lugar para voltar, uma casa pra cuidar, alguém de quem reclamar. Pq como estava vivendo, não tinha graça nenhuma. Achou “um cara”, como ela dizia. Descrevia como bonzinho, e só. Pareciam compativelmente sonsos pela descrição. Ambos tinham dinheiro, não precisaram de nenhum arranjo jurídico. Na verdade separação total. Ela achava mais seguro, no caso de se separarem (aqui eu preciso dar uma risada kkkk).

O desfecho das duas histórias conto agora:

Neste último encontro com Verônica encontrei uma mulher acabada, sem brilho, sem maquiagem, sem joias, olheiras fundas e escuras. Quase não reconheci. Precisei olhar bem para ter certeza de que era aquela mulher exuberante que eu conhecia na faculdade. E ela me conta o que estava se passando com ela. Tudo vai bem, continua ganhando aquela mesada imoral, viajando para onde quer, não há limites para o que quer fazer. Mas...o marido só quer entrar pela porta dos fundos, todo santo dia, se é que me entendem. Não que não gostasse, mas nesta frequencia estava acabando com ela. Quando ia chegando a noite ela ia ficando desesperada, se sentindo deprimida, agoniada. Assim foi perdendo o gosto pelas coisas, pelo sexo, pelas coisas boas da vida, segundo ela. E perguntei se já tinha falado com ele a esse respeito. Lembro bem quando ela tirou os óculos escuros, mostrando as enormes olheiras, baixou a cabeça e com as lágrimas escorrendo no rosto, disse que tinha medo. Dele? perguntei. E ela me responde com vergonha, “de perder os direitos do contrato nupcial”. Nunca mais vi Verônica.
Janice me conta que em dois anos vajaram o mundo, sem trabalhar. Se deram tão bem, que em mais um ano juntos, unificaram os negócios e empreendimentos que tinham, se desfizeram de alguns outros, capitalizaram e estavam levando uma vida apaixonada, uma lua de mel sem fim. Algo surpreendente para quem só queria “um cara”. No quarto ano desta ilha da fantasia ele teve um câncer fulminante e morre em 6 meses. Janice descobriu naqueles dias que estava com uma gravidez adiantada e de risco. Nunca mais vi Janice.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Viajando com fortes emoções.

Outra viagem pra contar.

Em tempos de ser politicamente correto, escrever um texto ou descrever uma situação pode deixar as coisas um pouco difíceis. Acho que o respeito tem que estar sempre acima de tudo, independente de quem ou o que seja. E vocês que me conhecem bem, por isso estão lendo este texto, sabem que não tenho nenhum tipo de restrição ou prevenção ou preconceito contra nada e ninguém. Porque na verdade somos o que somos e só. Mas acontece que pra ilustrar uma situação as vezes precisamos carregar a mão nas cores, mas sem faltar com o devido respeito.
Em mais uma longa viagem de ônibus.
Quando viajo, sempre escolho a poltrona do lado direito e mais ou menos no meio do ônibus.  Detalhes que depois, um dia eu conto porque. Muito bem, vamos ao ocorrido. O ônibus em que eu estava, faz uma parada em um município vizinho pega mais alguns passageiros e segue viagem em definitivo.
O panorama era o seguinte: eu sentado na janela e eis que chega a pessoa que iria dividir comigo as próximas hora de viagem. Um senhor muito gordo que quando sentou invadiu o meu banco e meia bunda veio parar no meu colo. Ele de tão obeso não conseguia fechar o cinto de segurança. Lá fui eu ajudar e tive a desagradável percepção de que a obesidade o impedia de fazer uma higiene adequada, braços curtos, diâmetro corporal aumentado, resultado, não lavava a bunda direto, não alcançava a bunda, pra dizer sem rodeios. Sério , apesar de sentir uma certa pena dele, que não parecia perceber o fato, tinha mais pena de mim que sentia o cheiro ruim e iria passar 6 horas ao lado dele. Do outro lado da fileira, na mesma direção da que eu estava, sentavam 3 amigas, jovens de no máximo recém completos 18 anos. Não,  não estavam no mesmo banco, mas era como se estivessem, mas uma delas estava sentada à frente, e o tempo todo elas se debruçavam umas em cima da outra pra comentar ou mostrar algo no celular.  Sorte que a que estava no banco da frente não tinha ninguém ao seu lado. Sorte de quem ? Mas  não seria por muito tempo. Já conto o resto. Na minha frente uma religiosa que tinha o hábito,  sim de hábito,  mas que arrumava o véu constantemente como um tique nervoso. Sem tirar o véu puxava pra frente e com a mesma mão que puxava arrumava os cabelos na testa e jogava o véu pra trás junto com os cabelos curtos que lhe restavam. Parecia que fazia do véu uma extensão dos cabelos. Ao lado dela um rapaz que não dizia nada de si pelo que se via. Mais de 25, cabelo cortado curto, roupas de acordo com  a hora e ocasião. Ônibus aparentemente lotado. #partiu. Como já disse nesta viagem o ônibus faz uma única parada antes de seguir viagem, pega mais alguns passageiros e segue. Nem sempre entra alguém, para alegria daqueles que querem trocar de lugar, como eu. Era uma viagem como muitas, nada demais. Só as três meninas que não paravam de falar, dar uns gritinhos estéricos e se empoleirarem no banco pra contar ou mostrar como já tinha contado. Então parou o ônibus no tal lugar e subiram duas pessoas, uma ficou lá pela frente mesmo, não cheguei a ver. Ai entra ...a personalidade em questão. O termo personalidade é de propósito e vocês já vão entender. Vestindo uma blusa branca semi transparente com um top de mesma cor por baixo, usava um lenço vermelho estampado no pescoço e uma calça branca justissima, coladissima. Levava no braço segurando com o cotovelo dobrado uma bolsa de marca sei lá qual, me contaram depois era original e das caras. Sandalhas altas brancas e vermelhas de muito bom gosto, um luxo só, mas, era uma bicha feia de matar. Sim meus  amigos, nada combinava. Fui peguntar pra minha amiga Denise estevaleto como eu deveria me referir a personalidade em questão pra não causar nenhum mal estar neste caso, e ela me disse que o correto era travesti. Homem, homoxesual ou hetero que se veste de mulher, simples assim. Este conjunto fazia um quadro estranho. Ora meus amigos, podemos todos sermos, feio, bonitos, gordos, magros, altos baixos de preferências e hábitos diferentes, portanto era um travesti feio, mas muito bem vestido. O único cuidado que merecia um pouco mais de atenção era a maquiagem, tinha uma barba muito cerrada por baixo querendo surgir. Bom, vamos lá. O silencio das molecas foi instantâneo. A da frente que estava sozinha, pos a mão na boca pra segurar o riso e saiu foi algo como um peido abafado e as três cairam na gargalhada. Se contiveram. A personalidade desfilando como uma verdadeira coquete (vá procurar no dicionário se vc nasceu depois dos anos 70), sentou ao lado da menina que estava sozinha, ah tinha esquecido, óculos RayBan, tipo aviador, que ajeitou na cabeça junto com o penteado do tipo Donuts ou coque como me explicaram depois. No geral, um luxo só, muito bom gosto, mas nenhuma beleza. Como depois que se sentou, não se mexia muito, não deu pra notar nada demais. E aos poucos as meninas foram se acalmando e ficando a vontade ao lado da nossa personalidade, to chamando assim pra não comprometer o gênero, porque a palavra serve para ambos, apesar de ser uma palavra feminina. Bem, e assim foi a viagem, as meninas de ti ti ti a freira e seu balançar de véu frenético e o nosso personagem, lá. Uma coisa incomum aconteceu desta vez, paramos em um posto policial, as vezes sobe um pra pegar uma carona, quando há lugar vago, mas desta vez, subiu um policial federal e um rodoviário e passearam pelo ônibus olhando para os bancos, e sem mais, nos mandaram seguir. Só uma curiosidade para contar, nada mais além disso. Assim que o ônibus seguiu o nosso personagem abriu a bolsa e tirou um estojo desses de maquiagem, que causou o maior frison nas meninas, entre gritinhos e aplausos deliraram quando viram que acendia uma luz e iluminava o rosto de quem se maquiava. Ah minha gente, aquilo ficou um inferno. E até um “ai amiiiiigaaaa que de mais”. Posso ver? Uma chamou a outra, as tres se debruçaram sobre o traveco, ops travesti, e encheram de perguntas. De que marca era a base, a sombra onde tinha comprado, como era coisa da luzinha, ai ai ai, ui ui ui. Quando o nosso personagem em questão abriu a boca, espanto geral, novo silencio no ônibus, era a voz mais grave e anasalada que eu já tinha ouvido. Um baixo natural, diriam os coralistas. Ai as meninas entre a curiosidade com o objeto e a voz do cara ops, personagem, seguraram o riso e continuaram com as perguntas, que ele pelo visto não sabia nada a respeito. Choveu pergunta, fiquei com pena. Pra se livrar das pentelhas ele, eita, ela, ops a personalidade em questão deu, sim senhoras e senhores, deu o estojo de maquiagem. Agora me digam vcs que estão lendo, meninas, vcs dariam um estojo desses??? As garotas piraram. Foi uma algazarra infernal, o que tirou a atenção do personagem em questão, pois a disputa era saber quem iria ficar com o presente. Pareciam ter 12 anos, quase fui interferir. A religiosa quase quebrou o pescoço pra olhar o estojo e se levantou para ir ao banheiro só pra dar uma espiada no ”mimo”. Foi ai que descobri que agora tem banheiro masculino e feminino nos ônibus. Achei legal, as meninas sofrem com a falta de pontaria dos meninos. Mas também, haja mira com o ônibus em movimento...bom, enfim. Tudo correu bem dali em diante.
Mas aquelas meninas não paravam, e o que alimentava a conversa era o celular, claro, e começaram a pesquisar nos blogs e etc onde comprar aquela MA-RA-VI-LHA  de estojo de make, é aprendi essa palavra tbem. Vcs sabem que tem vários trechos na estrada que não tem sinal de celular, mas agora a novidade é que os ônibus tem wifi, pois é, e internet via satélite, aha... me disse o motorista num bate papo rápido antes da partida que esses ônibus novos tem telemetria como carros de corrida, que em tempo real a empresa sabe até se ele fez uma curva em que o ônibus adernou demais. Ok adernou é pra barco, enfim...Mas e dai, as garotas não paravam e dava pra ver que inclusive eu metade do ônibus estava tentando passar o tempo com alguma coisa na net.  Até o rapaz do lado da freira dava alguma instrução pra alguém que parecia não entender nada do que ele falava. Ele ria e tentava explicar, não fiquei prestando atenção, mas ele se divertia com o fato do outro não entender ou não acreditar noque ele falava. Ele ria muito e de lembrar da cena estou rindo agora também rs. Enfim depois de umas 4 horas o ônibus parou pro lanche. Era fim de tarde já escuro, estamos no inverno, certo? Todos se ajeitam, e saem do ônibus. Fui direto comer alguma coisa. Passado uns minutos ouve-se uma grande agitação, gritaria, sirenes brecadas de carro, correria e mais gritos. Como de costume, ao invés das pessoas se afastarem, foram ver o que estava acontecendo. Tumulto geral, policiais por todos os lados, cerco de carros aos ônibus, passageiros correndo assustados pra fora do restaurante, mulheres gritando com crianças no colo chorando, e o nosso personagem saindo algemado imobilizado por 4, sim meus amigos, QUATRO POLICIAIS, mais seis fortemente armados fazendo a cobertura. Era um dos bandidos mais procurados e perigosos do pais. Estava sendo seguido a dias, e tinham perdido contato com ele há algum tempo. Até que agentes da "inteligencia", o rapaz do banco da frente e a freira, pois é pasmem, o identificaram e começaram a seguir. Bandido muito perigoso, com extensa ficha criminal de roubo de carga, roubo a bancos, assalto a carro forte, sequestro e assassinatos, ali, se fazendo passar por um travesti. Já imaginaram o risco que todos no ônibus corremos? E as meninas, na hora que os policiais subiram no ônibus? O que fiquei sabendo depois do motorista, que tbem não sabia de nada é que os policiais que subiram, tbem não sabia de nada. Eles não costumam para e vistoriar o ônibus. Imaginem a cena:
Vc esta do lado de dentro do restaurante, atras da divisória de vidro e vê passar em câmera lenta a pessoa que estava viajando do seu lado, que parecia um traveco, feio por sinal, mas muito bem vestido, algemado e com varias armas apontadas para ele. Cabeça baixa sem a peruca, maquiagem borrada, óculos e bolsa perdido em algum lugar. Ele passa lentamente, olha em sua direção, não, ele não olhou pra mim, olhou pra meninas que estavam do meu lado e deu uma piscadinha. As meninas quase desmaiam se abraçam e começam a chorar.....
O resto da viagem foi uma tranquilidade, as vezes se ouvia o choro baixinho das três meninas. Com a sobra de espaço dos dois passageiros que estavam a minha frente consegui me livrar do companheiro de viagem.
Haja coração

Cenas de um sequestro.

Fui sequestrado, vítima de um sequestro relâmpago.
Que sufoco. Uma sensação horrível, de morte. Medo intenso, suor frio.

Foi assim: já era noite, estava parado, esperando uma carona, próximo ao metrô Brigadeiro, Avenida Paulista, em São Paulo. Para um carro pra pedir uma informação. Eu me aproximei, o rapaz abre a porta pra falar comigo, estende a mão pra me cumprimentar, ao que eu instintivamente respondo, estendendo a mão, e sou puxado pra dentro do carro. Cheguei a pensar que era a minha carona e que alguém havia descido do carro pra me chamar ou abrir a porta, não sei bem no que foi que pensei. A porta de trás foi aberta, não vi como ou quando. Só percebi que fui puxado para dentro do carro. E tinha alguém me segurando, com alguma coisa me espetando do lado esquerdo. Levei um tempo pra entender o que estava acontecendo. Era um sequestro. Gelei. Dois caras na frente e um atrás me segurando e me ameaçando com alguma coisa que me doía demais ao lado da costela.
Nessa hora não dá pra pensar em muitas coisas, tudo acontece muito rápido, mas vem uma avalanche de pensamentos e sensações, todos de uma vez. Pensei na família, em cada um dos filhos, na mãe idosa. Tudo isso entre uma ameaça, um soco ou um tapão. Não foi nada fácil.
E assim começou a tortura. O que estava do meu lado, fala:
- Passa tudo.
Lá foi o celular, carteira, aliança, mais ameaça, mais socos.
-  Colabora que vai ser melhor pra você. Manda a senha dos cartões.
Anotada a senha, começaram a procurar um caixa eletrônico.
- Ele desce junto pra ir ao banco ou vamos nós mesmos? A primeira dúvida.
- Se a senha estiver errada você vai tomar uma surra.
E por aí vai. O mal estar era absurdo, apesar do frio o suor era intenso. O aperto no peito era esmagador. O tremor por dentro e fora do corpo era associado com uma sensação de pânico, medo e morte. O estômago estava apertado, como um nó. Parecia que alguém me segurava pelo pescoço, fazendo a respiração ficar cada vez mais difícil, sofrida.
Chegamos ao caixa. Aumenta o desespero. Pensando no que poderia acontecer depois disso. E se desse alguma coisa errada no caixa eletrônico?
Tinham várias pessoas no caixa eletrônico e resolveram não esperar, saindo para procurar outro mais vazio.
O cara que estava na frente, olhando para trás, resolveu ler o nome no cartão. Leu e me olhou. Virou-se pra frente e leu de novo. Ficou calado. Só o motorista e o que estava ao meu lado continuavam a me aterrorizar, ameaçando disso e daquilo, nem gosto de contar, nem de lembrar.  Ele abaixou a cabeça e olhando de novo para o cartão, perguntou de onde eu era e o que eu fazia. Falei o nome da cidade e disse que era professor.
Ah!!! Essa história, verídica, não aconteceu comigo. Encontrei um amigo do tempo da faculdade no Terminal do Tietê e embarcamos juntos no metrô. No caminho, ele me contou esta história. Contava e chorava, pois fazia pouco tempo que havia acontecido e ele ainda não tinha se recuperado do trauma. Estava fazendo terapia, tomando remédios. Diagnóstico: síndrome do pânico.
Era a primeira vez que estava voltando a São Paulo, sozinho. Teve uma outra vez, mas viera acompanhado da filha, mesmo assim se sentiu mal, ficou envergonhado da situação, um turbilhão de emoções ainda o torturaram.
Naquele momento tinha ficado muito contente de ter encontrado alguém conhecido. Pois já estava entrando em pânico quando desceu do ônibus no Terminal. Quando me viu passar por ele no desembarque, deu um grito e me chamou. Assustei na hora e levei um tempo pra reconhecer. Ele me deu um abraço apertado que estranhei, mas depois entendi, era uma tábua de salvação. E fomos estação por estação como num calvário da via sacra desenrolando esta história triste e trágica.
Voltando à história, o rapaz que estava na frente reconheceu a vítima. Tinha sido aluno dele. Entre o espanto e o terror, o professor também reconheceu o aluno. Não deu tempo pra qualquer demonstração de alegria e sim mais medo.
Entre xingamentos os dois comparsas disseram:
– Agora vamos ter que apagar esse fdp.
E uma saraivada de xingamentos e socos fizeram parte dos momentos que se seguiram.
E o aluno sequestrador, começou a lembrar do professor. Dizendo pros comparsas:
-Ele era o único professor que valia a pena. Ele conseguia dar conta daquele bando de fdp que era a turma. Ele tirava sarro da gente como uma forma de quebrar o gelo e ficar amigo da galera. Era professor de história. Ele dava aula contando história. Pra sacanear, ele começava com “era uma vez”.
Contando isso, com um riso nervoso e emenda: - O cara é boa gente. Vamos soltar ele.
Aí virou confusão, o rapaz que estava segurando o professor deu um murro no que estava na frente e deixou o professor livre por uns momentos. Foi quando ele pensou em pular do carro. O que estava na frente, defendendo o professor, revidou o soco que levou e os dois se engalfinharam, atravessados no carro, deixando o professor mais uma vez livre. Mais uma chance de pular, e ele coloca  a mão na trava para abrir a porta. O motorista, o tempo todo xingando e tentando, ao mesmo tempo, que dirigia, apartar os dois. O carro balança na pista, o que faz que alguns motoristas buzinem e xinguem, afinal estamos no trânsito de São Paulo. A angústia e o medo de morrer aumentaram, quando o cara que estava no banco de trás finalmente mostra o que estava segurando pra ameaçar o professor: uma arma. E aponta pro aluno que defendia o professor. Os dois congelam. O motorista continua gritando e o professor me conta que teve um espasmo no peito e tinha a certeza que estava enfartando.
- Deixa o cara ir, disse o aluno do banco da frente, falando entre dentes, ameaçado pela arma. O outro responde: -De jeito nenhum (na verdade o que ele disse foi, nem F...).
-Esse cara vai denunciar a gente, temos que apagar, e já.
E disse pro que estava dirigindo: -Toca pro bosque, vamos nos livrar logo deste M...
O outro reage: -Não vamos, para que ele vai descer, ele não vai falar nada, não é professor? Ele sempre foi de boa, ele entende, para o carro bem longe, vamos dar um perdido nele e boa, ficamos com os cartões, fazemos o saque e deixamos ele ir.
O que estava com a arma, engatilha o revólver,  junta as duas mãos e firma a mira no colega do banco da frente.
- Você vai morrer junto com ele.
O que estava na frente avança contra o que estava com a arma, ouve-se o disparo, o rapaz que defendia o professor, com o impacto é atirado de costas contra o para-brisa, os olhos arregalados, a boca aberta, os braços estendidos para frente, e desaba, caindo de cara no encosto do banco da frente. A proximidade com o disparo, o cheiro da pólvora e a visão do rapaz caído sem vida no banco da frente se somou a todos os outros medos que já o torturavam. O motorista berrava, o rapaz que estava armado, foi sacudir o amigo baleado, gritavam palavrões, gritavam a culpa de um e do outro, discutiam o que fazer. Apagar o professor, ir pro hospital, largar o carro que era roubado e queimar com tudo dentro pra não deixar pistas. Estavam desnorteados.
- Pulei do carro no meio da gritaria. Com o trânsito intenso, quase fui atropelado. Fiquei paralisado no meio do asfalto, sem ação. Eu ouvia os gritos dos pneus e das pessoas, mas não entendia o que queriam dizer. Vieram me socorrer. Não conseguia ouvir nada, meus músculos estavam duros, tensos. Mal conseguia respirar. Colocaram-me sentado na calçada e ali fiquei, imóvel. Só respirava, não ouvia, não sentia. Olhos vidrados. Angústia e tristeza profunda, era tudo o que consegui sentir. Na confusão, eles bateram o carro logo a frente. O motorista ficou preso pelas pernas. O que estava armado, no desespero de sair do carro apontou a arma para pessoas que estavam tentando ajudar, e saiu correndo. Uma viatura parou para saber o que tinha acontecido e foi atrás do fugitivo deixando todo o resto para trás.
- Minhas memórias daquele aluno eram boas.
Sim, o tempo todo ele se referia ao rapaz como  “meu aluno”. Era como se fosse o mesmo menino desde que o deixara no último dia de aula. Ainda tinha a posse sobre ele, o mesmo carinho quando falava de um outro menino qualquer. Não havia raiva ou mágoa quando se lembrava dele. Disse que era tranquilo e calmo. Contaminado pelos outros acabava descambando.
- Era uma turma difícil de um bairro de periferia, violento. Alguns envolvidos com o tráfico, outros usuários.  Mas ele por muitas vezes peitou a turma. Queria que calassem a boca, por que ele queria ouvir a aula. E era muito zoado por todos. Mas ele ficava firme e eu até que consegui dar aula e a adesão de mais alguns. 
E dar aula de história, não era nada fácil.
- Serve pra que essa P... ? eles me perguntavam. Eu tinha que trazer pra um contexto atual, fazer paralelos, isso leva tempo e precisa da atenção dos alunos. Então o jeito era ver o que estava acontecendo nos dias de hoje e dizer que isso também era história e fazer uma leitura dessa realidade e quais as consequências disso para um futuro imediato que era o que interessava pra eles. Para só então, mostrar porque estamos assim hoje em dia. Devido ao que aconteceu lá atrás a muito tempo. Era esse o exercício que eu fazia com eles, a história de frente para trás.
- E ele morreu me defendendo, porque a minha aula era boa!?! Porque eu fui bom pra eles?? Será que eu devia ter sido como os outros, e só deixar passar? Isso me corrói a alma, dizia ele com a voz embargada e muitas lágrimas no rosto, enquanto as pessoas começavam a prestar atenção na nossa conversa de forma mais declarada. Vcs se lembram, nós estamos no metrô.
E ele continuou: - Os outros colegas professores, tem medo da classe, não se importam se eles não souberem ou não aprenderem algo que podem mudar a sua vida. E eu só dei aula de história. Eles nãos sabem ler, interpretar, vão ser roubados no troco ou no salário e eu ensinei história, pra quê? E ele morreu, porquê?
Não resisti chorei junto.
Nestas horas vem um monte de coisas pra dizer, mas nada iria consolá-lo. Chegamos ao nosso destino. Eu o acompanhei até o ônibus que iria tomar, nos demos uma grande e demorado abraço e nos despedimos.
Depois que nos separamos, um vazio no peito me incomodava. Achei que devia dizer alguma coisa e mandei uma mensagem pelo celular com o seguinte texto:
“ Meu amigo, é tanta coisa pra dizer neste momento difícil que por agora só posso dizer que ele estava lá pra te salvar. Se vc não tivesse feito nada de bom pra esse rapaz, e sabe mais quantos você encantou com a sua aula, talvez você, esposa e filhos, estivessem agora em outra situação. Ele assumiu os riscos e fez as escolhas que tinha que fazer. Vc era tão importante pra ele, que ele se arriscou por você. Faça o resto da sua caminhada como professor valer a pena pra mais gente.  Abraços, fique bem. “

Cenas de um sequestro.

Não sei como vim parar aqui.

Não sei como vim parar aqui....

Vida e morte, dia e noite, são fatos que se alternam, queiramos ou não. O dia amanhece esteja você querendo ou não, vamos morrer essa é uma certeza. Todo santo dia nasce alguém. É assim.
Não estamos preparados para as perdas, os motivos são tantos e pessoais que não adianta escrever aqui um monte de impressões que tenho a respeito do que deve vir a ser isso. Pois se a gente não suporta ver o time do coração perder, quem dirá uma pessoa querida. Foi quando estava para partir um ente muito querido da família, durante aqueles intermináveis dias de internação e UTI, que me veio em meio aos preparos para a dor que inevitavelmente iríamos sentir, o pensamento de como seria o momento do outro. Sim, pode ser bizarro, mas estava preocupado em saber o que ele deveria estar sentindo ou pensando. O que deveria significar para ele cada interferência, cada contato. Foi isso que delirei no texto que segue.

Não sei como vim parar aqui. Parece que estou dentro de uma cápsula fechada, onde a claridade e o som passam, mas de forma diferente. E o que escuto, é como se estivessem longe de mim. Ouço as vozes, os risos, mas não presto atenção em nada. Parece que nada interessa. Não sinto dor, frio, calor, só uma tranqüilidade que não consigo explicar. Também quase não penso em nada. Mas as vezes me vem algumas lembranças, e só. Me sinto estranho, sem coordenação, as idéias confusas, sonolento, mas aos poucos com muito esforço vou conseguindo me conectar ao que está a minha volta. A única coisa que me estimula é quando você chega. Parece que começo a emergir de dentro de mim para a superfície, de volta ao meu corpo. Ouço sua voz afetiva, o calor da sua mão me acariciando o rosto, a cabeça, já sem cabelos. Quando você me dá a mão e reza comigo, me deixa novamente em uma paz profunda e tranquilizadora. Quando consigo abrir os olhos, olho mas não vejo, pouca coisa faz sentido. Tem algo no meu braço, tento tirar, não porque dói, mas porque parece que não deveria estar ali.  Pelo meu nariz entra alguma coisa, um tubo? O que é isso? Não tenho medo, só estranheza de tudo.
As vezes me vem a consciência de tudo, os ruídos são intensos, os cheiros vivos, as vozes confusas. Como se uma porta de um salão de festas se abrisse e de dentro todos estivesse falando ao mesmo tempo, como se todas as luzes se acendessem ao mesmo tempo, como se voltasse a consciência vindo de um estado de sono, de uma só vez.
De novo te percebo perto de mim, sinto o seu perfume, esse que vc usa sempre, há muito tempo, há tantos anos. Me vem vagas lembranças de nós dois, uma confusão de memórias, emoções e sentimentos.  Não são bons, não são ruins, só lembranças que não consigo juntar. As vezes uma solidão toma conta de tudo e junto vem a escuridão, mas não me assusta, até me conforta. É como se deixasse de sofrer algo que não sinto. Depois destes momentos, te percebo triste, com um sentimento estranho, de ausência, saudade. Como se despedisse de mim. Acho que começo a entender o que esta acontecendo.
Está na hora de ir. Adeus meu amor.

Canoas na praia.

Em uma praia do litoral de São Sebastião SP, nos anos 70, eu tinha uns 12 anos, estava de férias. Íamos todo ano passar as férias na costa Sul de São Sebastião. Nem a chuva estragava nossos dias, muito menos, os borrachudos que na época não tinham o devido tratamento de hoje. Passávamos óleo de cozinha pra enfrentar os danados e ficar coçando sem alternativa as picadas nos lugares chatos onde essas pragas acabavam picando. A diversão era passar os dias inteiros brincando na praia, quebrando barrancos feito pela água do rio que descia para o mar. Éramos pequenos e os barrancos ficavam altos, uma delicia para se escorregar. Outra brincadeira muito legal era represar o riozinho, fazendo uma piscina enorme, para ficar nadando em água doce quando o mar estava bravo. Em um destes dias, no fim da tarde, chega uma canoa de pescadores, carregada de peixes. Paramos a brincadeira e fomos ajudar a tirar a canoa da água, virou outra brincadeira. Carregar os roletes, calçar a canoa, fazer força para tirar a canoa de mais de 6 metros da água. Trocar a posição dos roletes de trás para frente, até chegar próximo ao jundú. Um monte de gente puxando, parecia uma festa, um acontecimento, e de fato era, mas eu nem sabia. Canoa em terra, começa uma curiosa distribuição de peixes. Um dos pescadores, distribuía os peixes para as pessoas que formaram um roda em torno da canoa. E dizia: Leva isso pra sua mãe, Manda isso pro seu pai está doente. Para um dos meninos que brincava comigo o pescador entregou alguns. Esse é o seu, dizia para outro que também tinha ajudado. E assim foi, até que para minha surpresa, me deram alguns peixes também. Sem entender nada, fiquei até o fim para ver no que ia dar. Não sobrou nada, ninguém pagou nada, não vi um único centavo na mão daquelas pessoas, não tinha excedente, simplesmente acabou. Ainda sem entender, peguei os peixes e fui embora. Chegando em casa meu pai, me pergunta de onde eram aqueles peixes. Achei que ia tomar uma bronca, fiquei pensando como ia explicar o que eu não tinha entendido direito, pois pra mim além daquilo ser estranho, era na verdade uma novidade. Expliquei o que tinha acontecido e ele me pergunta se tinha entendido porque tinha ganho. Disse que tinha ajudado e achava que era por esse motivo. E ele me explica que era mais do que isso. Fiquei sem entender. Pegando uma peixeira e os peixes que eu tinha trazido, me chamou para e num canto do terreiro onde havia uma bica d’água, se acocorou para “consertar” os peixes. Começou a explicar, que as pessoas que estavam na praia: um era o dono da rede, outro da canoa, outro era pescador, mas estava doente e não podia pescar, mas precisava daquele peixe, outro era pescador muito velho, e consertava as redes e também recebeu o seu quinhão. Assim ele me explicou que esse era o verdadeiro sentido de comunidade e de partilha. Sendo vivido de verdade naqueles dias. Achei aquilo formidável e incrível, saber que era possível viver assim. Coisa que só tinha lido e ouvido, nunca imaginava que fosse viver parte disso.
Alguns anos atrás, por uma incrível coincidência, ao sair de um restaurante em Boissucanga com amigos de trabalho, vi uma foto daquele momento, o exato momento de tirar a canoa da água.  Quanta lembrança boa me veio na hora, dentre elas minha primeira experiência de comunidade. Tenho certeza que sou eu nesta foto. Bons tempos.

Dona Jana

Mais uma história pra contar.

Alguns de vcs, meus amigos, sabem que sou acupunturista, se não sabiam...disponham. rs
Em toda atividade profissional, sempre tem surpresas e histórias no meio do caminho. E como dizia o poeta, as vezes, uma pedra tbem.
Antes de mais nada, história que vou contar foi estimulada pela personagem principal, uma senhora de 78 anos. O fato ocorreu em um atendimento, e depois do fato ocorrido e de rirmos muito juntos, ela me disse que aquilo era uma boa história pra ser contada, uma piada. Perguntei se ela se incomodava que eu escrevesse e ela adorou a ideia. Então, aqui vai a história ou o fato ocorrido com a Dona Janaina, ou Dona Janna, com dois enes como ela prefere.
Marca horário para atendimento uma senhora com dor no quadril, manca muito e vem fazendo uso de uma bengala feita de cabo de vassoura, que apesar disso estava lixado e pintado, enfeitado com tirinhas de algum Santo católico, tipo aquelas do Senhor do Bom Fim. Era caiçara, dessas que a família toda conhece. Quem é caiçara sabe bem como é. Conhece "mamae', sabe quem é papai e fala com aquele sotaque que pouco se escuta aqui no centro da cidade.
Muito bem, segue o atendimento, tudo bem explicado. Repito, minuciosamente explicando, passo a passo o que iria acontecer. Tudo o que seria utilizado naquela sessão e como seria usado.
Ajudo a subir na maca, pois a dor intensa no quadril dificultava a subida, quase carrego no colo. Enfim na maca. Rolo de espuma sob os joelhos, ajeito travesseiro. A calça precisa ser baixada pra ter acesso a região de dor, e começo a inserir as agulhas. Pronto, mais uma etapa.
Etapa seguinte, resolvi usar moxa, que é um bastão em forma de charuto de uma erva medicinal chamada Artemisia Vulgaris, muito utilizada por aqui em forma de chá, em casos de cólicas, coisas da cultura popular. Funciona também.
Ai começa a aventura. Acender esse bastão ou charuto de artemisia, é um pouco difícil, com fósforos demora muito, com isqueiro, quase sempre aquece demais e fica difícil segurar. A solução mais prática que encontrei até hj foi usar uma vela. Simples acendo a vela e phá, rapidinho está acesa a moxa.
A hora que a Dona Janna viu a vela acesa meus amigos!!!!
Foi um escândalo.
O que é isso, gritava ela. Não sabia que vc era dessas coisas!! Nunca imaginei.
Minha surpresa na hora foi tanta, que não sabia pra onde olhar, o que fazer ou do que se tratava. Antes que eu pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, ela se levanta da maca com uma agilidade espantosa. Nem o rolo que estava sob os joelho a impediram de se levantar. Com um único movimento, ela se pôs de pé e foi andando com as calças no joelho e cheio de agulhas, em direção a porta.
De queixo caído só tive tempo de dizer, calma Donna Janna, volta aqui, o que aconteceu?
E ela repetia, nunca pensei que vc fosse dessas coisas, olhando em direção a vela que eu tinha acabado de acender.
Ai entendi qual era o problema dela.
Dona Janna volta aqui, a senhora esta com as calças abaixada, vai sair daqui assim desse jeito? volte aqui.
Ela olho pra baixo e viu que estava com as calças arriadas até os joelhos, e começou a subir a calça por cima das agulhas mesmo.
Tinha que interromper esse surto, porque não era outra coisa além de um surto. Ainda que duvidasse ou tinha pouca certeza de que era esse mesmo o motivo. Dona Janna, eu chamei. E ela disse, não quero saber de conversa com vc que lida com essas coisas. Logo você!!!
Emendei, a senhora esta subido a calça por cima das agulhas, calma Dona Janna.
E imediatamente abaixa novamente as calças e passa a arrancar as agulhas aos puxões,  como se fosse um maço de algo que estivesse colhendo. Jogava as agulhas no chão com raiva.
Meus amigos, imaginem a cena: Uma senhora de muita idade, saindo do meu consultório com as calças nos joelhos toda espetada e esbravejando. Eu logo atrás dela pedindo pra  ela ter calma e voltar.
Eu ainda estava impressionado com a rapidez dela ao descer da maca, e já não suspeitava mais que ela estivesse impressionada com a vela que acendi. Será que ela achava que eu iria fazer algum trabalho ou coisa do gênero? Parece que sim.
Novamente meu veio a imagem dela saindo pra rua com as calças arriadas, eu logo atrás e ela gritando, "eu não esperava isso de você, isso não se faz". Acordei rápido desse devaneio apaguei a vela da discórdia e fui em direção a D. Janna ajudar a retirar as várias agulhas que estavam por baixo da calça.
Depois de alguns instantes de silêncio, retirar as agulhas e ajuda-la com as calças, com calma perguntei o que é que ela estava pensando? Ela não respondeu. E tentei explicar, com calma, que a vela era só pra acender o bastão. E lembrei pra ela o que já tinha explicado.
Ela riu e disse "ah é!? Tinha esquecido, porque você não falou logo. Me ajude a subir de novo nessa cama ".
Ah essa Dona Janna !!!!