terça-feira, 19 de abril de 2016

UM MODO DE VER.

Mais uma história pra contar. Está é uma bem antiga, e de tão antiga, bem comprida. Com essas histórias eu descobri que sou um acumulador, eu acumulo histórias, memórias, e as pessoas que fazem parte delas.
A história narrada na primeira pessoa foi um esforço pra manter a naturalidade com que me foi contada. História antiga que estava esquecida entre papeis e que ainda não tinha compartilhado com vcs. Por favor abracem a minha amiga, a personagem de mais esta história.

Um modo de ver

-Quando fiquei sabendo não pude acreditar, estava muito feliz. Incrivelmente satisfeita em poder ter esta experiência. Acreditem, nunca me passou pela cabeça que isso seria possível. Ainda mais na minha condição, como costumavam dizer. Seria um erro, um risco sem necessidade. Triste, eu concordava. Já era difícil como era. Quem dirá grávida. Gravidez. Essa palavra me assustava. Minhas idéias a este respeito eram incrivelmente assustadoras. Quando menina. As expressões que as pessoas mais velhas usavam para falar a respeito, sempre eram em tom grave Ás vezes não falavam na frente dos homens ou das mais jovens, a quem elas ameaçavam dizendo - Calma que sua hora chega e você vai ver como é - E traziam um tom sarcástico na voz, o  que me  assustava o suficiente para não pensar como seria. Falavam sempre que engordavam de mais ou de menos, que doía em qualquer situação e posição, que algumas até morriam. Cheguei a conclusão que só podia se chamar mesmo. GRAVIDEZ. Portanto, era sério.
Bem como todo mundo, aprendi a andar sozinha, me vestir, despir, cuidar da casa, ler, escrever, o que todo mundo sabe. Grande coisa. É mais difícil pra uns, mais fácil pra outros. Freqüentei escola, até um namoradinho arrumei. Mas ninguém em casa podia sequer sonhar com isso, senão estava frita. Imagine, na minha situação.
Ele era doido que só vendo. Queria fazer faculdade, ser psicólogo. Imagine. Era aplicado, mas vivia me pedindo ajuda. Às vezes acho que era só pra chegar perto. Mas gostava dele. Enfim como todo mundo também aprendi a namorar. Nossa e com é bom. E como é que podiam proibir a gente disso! Voltava toda mole pra casa, ficava longe. Era uma delícia. Claro que a gente só ficava de mãos dadas um tempão e dava nuns beijinhos bem rápidos, afinal sou moça de respeito. A sensação só se compara ainda muito que de longe a um pilequinho bem leve, daqueles que a gente toma no dia de Natal ou no Ano Novo, quando a mãe ou o pai deixam a gente bebericar a tal da champanhe. E não precisa muito, dois copinhos são mais que suficientes. A cabeça roda gostoso, as sensações tomam o corpo todo, ai meu deus, com é bom.
Eu parei logo a escola, meus irmãos achavam que não precisava ir mais, que não tinha necessidade. O que eu podia fazer, aceitar. Bem, Fernando continuou e acabou a escola, fez vestibular, passou e veio me visitar. Em casa ninguém entendeu nada. Ninguém sabia, mas desconfiaram na hora. Só não trataram ele muito mal porque ele era danado pra enrolar os outros na conversa. Sem dúvida seria um ótimo psicólogo. Ele vinha me visitar toda semana. Minha mãe já estava caindo na lábia dele. Meus irmãos ainda queriam atropelar ele assim que saísse de casa. Eu achava tudo muito divertido. Estava aproveitando tudo e esperando pra ver no que ia dar. E assim foi. Até que meus irmãos também caíram na lábia do danado. Incrível, quando Fernando chegava em casa, todos davam mais atenção pra ele do que pra mim. Quem diria. Várias vezes meus irmãos convidavam o Fernando pra sair e me deixavam pra trás. Se bem que sair com Fernando sozinha nem pensar, meus irmãos não deixavam. Até o dia em que todos saíram e voltaram só no dia seguinte, completamente bêbados. A brincadeira que faziam a respeito daquela noite, é que estavam tão bêbados, que foi Fernando, que não sabia o que era carro, quem trouxe todos de volta. Era demais. Então deste dia em diante começamos a sair juntos, e sozinhos. Mas, sempre tem um mas. Meus irmãos nos deixavam em algum shopping, parque e depois vinham nos buscar. Se é que não ficavam nos vigiando. Eventualmente nos encontrávamos com os amigos do colégio. Era uma tristeza, ninguém acreditava que estávamos namorando.Nem eu.
O tempo passou Fernando se formou, prestou concurso público na cidade dele e conseguiu emprego. Foi uma vitória ninguém imaginava que ele conseguiria. Logo pensei, perdi o namorado. Até que durou, pois nunca acreditei que acontecesse. Mas ai veio a minha grande surpresa. Um belo dia, ele chegou em casa perfumado como um gambá. Recendia um perfume doce que fazia as flores de plástico murcharem, e abelhas caírem de costa em pleno vôo. Meus irmãos tiraram o maior sarro dele. Aquele jeito tímido e solene de falar na frente de todos. Ninguém sabia o que ele queria ao certo. Até que disse que queria casar comigo. Foi terrível o que meus irmãos disseram pra ele. Xingaram de tudo o quanto era nome.  Disseram que ele só queria se aproveitar de mim. Da minha mãe só se ouvia o choro. Meu pai falecera a muitos anos atrás e mesmo vivo não fazia diferença, era um banana, segundo todos diziam. Enfim Fernando perdeu a pose de educado e perguntou qual era o problema, ele tinha emprego fixo, ganhava bem, tinha casa e morava numa cidade tranqüila junto com sua família. Disse que gostava de mim e que não entendia o que seria tão complicado. O barulho das cadeiras caindo foi horrível, meus irmãos o empurraram para o chão e disseram - Você é um grande cara, amigo pras farras e tudo mais. Mas definitivamente você não enxerga um palmo a frente do nariz. Você não vê que dois cegos juntos não são nada, não formam nada, não constroem nada. Quem é que vai olhar por vocês. Ter que cuidar da nossa irmã, que é uma obrigação, já é um fardo bastante pesado. Agora, de dois. Não precisamos disso. Fernando ao que pude perceber se atirou contra eles e começou a esmurra-los descontroladamente. Haviam gritos, urros de dor. Xingamentos. Raiva.O som das carnes e ossos se chocando. O som surdo dos corpos caindo no chão. Minha mãe que até então não havia dito nada e só chorava, para minha surpresa, agora gritava. _ Vai Fernando com a direita, com a direita. Senta na barriga dele. Segura o braço dele com o joelho. Bate agora. Cuidado a mão esquerda dele esta solta. Bom, de preocupada passei a assustada e depois danei a rir. O que eu podia fazer! Afinal como nos livros de princesa que lera em Braile, brigavam pela princesa. Que divertido. Meu coração pulava. De repente, grite assustada. Algo me deixou terrivelmente perturbada. Comecei a dizer todos os nomes feios que sabia, e que na hora lamentei serem poucos. Xinguei todos sem exceção. Até minha mãe se calou, e a última coisa que disse foi - Minha filha! Fez se um silêncio imediato, só se ouviam os gemidos dos três marmanjos que se atracaram. Desandei a chorar estava angustiada, sai correndo tropeçando nos móveis que foram afastados do lugar pela briga. Cai, me levantei e me tranquei no quarto. Indiferente as batidas na porta, uma grande dúvida me ardia no peito, uma dúvida sufocante me consumia. E eu quero me casar? Será que sou capaz desta tarefa? Das coisas da casa, eu sei, fui treinada para isso. Mas não fui treinada para ser eu mesma, independente, capaz de gerenciar meus pensamentos, sentimentos, desejos. Sempre me disseram o que eu devia sentir. As pessoas viveram por mim grande parte da minha vida. Não saiba o que eram muitas coisas exceto pelo relato dos outros. Nunca puder experimentar o que descreviam. Mas e o resto? Que medo eu sentia enquanto pensava aquelas coisas. Dormir junto, relações sexuais, gravidez. Será que eu queria aquilo? Ainda mais as relações sexuais de que se falava com tanta reserva. Alguns pais não deixavam que nos fosse falado ou ensinado a respeito.  Ainda mais sendo mulher. Abri a porta que estava quase por vir a abaixo. Quando entraram e iam começar a falar, me despi na frente dos meus irmãos e de minha mãe. Meus irmãos ficaram chocados e tentaram me cobrir com o que eu acabara de despir, mas em sucesso. Foi uma briga de braços, mãos, empurrões. Minha mãe só falava: minha filha o que é isso. Meu deus você enlouqueceu? Empurrei meus irmãos e gritei para que me ouvissem. Mandei que me olhassem bem. Perguntei o que estavam vendo. Queriam me recriminar mas gritei com eles. Então pararam. Perguntei se era diferente das outras mulheres que eles conheciam. Perguntei se era feia, se meu corpo não era de uma mulher normal. Se pelo fato de ser cega era diferente em algo? Chorando gritei para que me respondessem. Estavam ali na minha frente, podia sentir o constrangimento deles. Fernando estava em algum lugar que ainda não conseguira localizar, mas não estava preocupado com ele. Aos gritos perguntei se achavam que os meus sentimentos eram diferentes dos outros. Se achavam, que meus outros sentidos eram tão inúteis como a minha visão. Se sabiam, que quem cuidava sozinha da casa há quatro anos, desde que nossa mãe tinha ficado doente era eu, e que o egoísmo deles não os deixou perceber que precisávamos de uma ajudante a tempos. Gritei para que respondessem se tinham medo de perder a empregada cega ou estavam de fato preocupados em proteger a irmã que eles acreditavam inválida. Gritei para que olhassem pra mim, e que nunca mais me olhassem como um fardo. A partir de agora deveriam saber quem eu era. Na verdade, quem eu me tornara a partir daquele instante, alguém que eu mesma não reconhecia. Gritei para que saíssem e chamei por Fernando. Alguém quis dizer alguma coisa, mas gritei de volta e calei o na hora.  Enfurecida, novamente chamei Fernando, temi que não estivesse por ali, mas ele me tocou. Estremeci com seu toque. Feliz e com raiva ao mesmo tempo, esmurrei ele e comecei a chorar. Ele me abraçou e disse que tudo ficaria bem. Pude perceber alguém na porta, e gritei um “OQUEÉQUEFOI” histérico, e só ouvi a voz do meu irmão dizer que eu ainda estava nua com Fernando no quarto, se eu não ia me  vestir. Caminhei furiosa até a porta, e a fechei com toda força, e para desespero de quem estava para fora, girei a chave. Uma das vantagens de se estar entre cegos, é que nestas horas nada conta, não tem onde olhar. Mas o meu pudor falava mais alto, e ainda de pé ao lodo de Fernando puxei a colcha da cama sobre o peito. Quando finalmente consegui falar, perguntei a Fernando, que estava mudo e assustado, se ele não tinha esquecido de nada. Ele gaguejou alguma coisa e disse - seriam as alianças?  Gritei com ele – De perguntar pra mim primeiro seu idiota. Eu não estava me reconhecendo naqueles momentos. Nunca tinha levantado a voz nem pra gemer de dor nos dias de cólicas infernais. Parece que um mundo estava saindo de dentro de mim de uma só vez. Sem pensar no que ia dizendo, esmaguei-o com os meus medos e angústias. O que eu sou? Uma mercadoria? Você foi pedir pro dono pra ver se ele vende! Você não perguntou se eu queria. Você achou que seria um convite irrecusável, casar com você, doutor Psicólogo o primeiro psicólogo cego a ser contratado neste pais. Pois só podia ser, eu uma mulherzinha burra e sem saída neste mundo. Claro que ficaria com você, e com quem mais, quem iria me querer? E você não achou ninguém que enxergasse mais do que eu. Só restou a mim?
Por dentro eu implorava, para que gritando meus medos me deixassem. Imaginei que sentindo toda raiva e medo acumulado durante anos, e libertando tudo de uma vez, pudesse entender melhor o que fazer, o que estava realmente sentindo. Ou até que Fernando resolvesse por mim, indo embora, tornando minha vida mais fácil. Assim não teria que decidir. Gritando disse as piores coisas que se podia dizer, para quem eu nunca deveria ter dito. Disse talvez as coisas que só deveria ter pensado, dito nunca. Trinta anos sem dizer nada que prestasse e quando falo, faço um estrago que julgava irreparável. Depois de um silencio de morte entre nós. Ele me agarrou pelos meus ombros ainda nus e disse. Eu escolhi você para amar pra sempre, e sei de tudo o que você é capaz. Eu só consegui chegar até aqui porque meu objetivo de vida é estar com você. Se não fosse assim estaria em casa deprimido, sentindo pena de mim mesmo. Não, não encontrei alguém que enxergasse mais que eu, eu queria alguém que me visse como você me vê. Desculpa por não ter falado com você, não tive coragem, tive medo, ainda estou com medo de ficar sem você. Por favor, fica comigo.
Só pra encurtar algum tempo depois nos casamos, Depois nasceu Roberto um menino lindo que enxerga perfeitamente e que me dá muita alegria. Ainda moramos na casa da minha mãe. São muitas mudanças de uma vez só. Quando Roberto fizer 4 anos vamos para uma casa só nossa. E minha mãe melhorou muito depois que resolveu me ajudar. Meus irmãos mudaram, moram na mesma rua, nem parecem os mesmos. Dois tios babões como nunca imaginei. Estou estudando para o vestibular de pedagogia, vou fazer especialização em deficiência visual. Cuidar do meu filho? Bem esta é outra história.
Mas não contei tudo, depois daquilo tudo, mandei que fosse embora, e disse que teria que pensar. Ficamos sem nos ver mais de um mês, até que ele ligou, coisa que nunca havia feito antes.  Nos falamos e ele me disse que ia bem no trabalho e que estava se saindo bem. Ele parecia estar contente consigo mesmo. Perguntou da minha mãe, e ficamos sem assunto. Também eu só me limitara a responder o que ele perguntava. Então ele se despediu. Desligamos. Bateu um vazio. O fato dele ter ligado acendeu algo dentro de mim, que eu vinha tentando sufocar. Minha vida. Agora não eram os outros, agora era eu mesma quem estava me sabotando. Liguei de volta, ninguém atendeu. O vazio dentro de mim se tornou um abismo, um nó no peito começava a me atormentar. Fiquei inquieta o resto da semana. Quando o telefone tocava o coração disparava. E me perguntava - E daí se ele ligar sua burra, o que você vai fazer? Ai piorou de vez. Tinha outra angustia não resolvida. Quantas pendências, que droga. Controlar a vida sozinha era muito difícil. Tomei coragem. Nem sei porque era tão difícil. Que idiota que eu sou. Liguei pra ele depois de sofrer a toa. Burra, era tão fácil ter resolvido. Ele não estava, que desânimo. Engraçado, a pouco tempo não sabia de nada, não queria nada, estava resistente me impondo cheia de querer saber das coisas. E agora estava abalada porque ele não atendera ao telefone. O que será isso? Sua bobona não se enxerga. Ai, essa minha voz interior esta começando a me irritar, vive me chamando de burra, tonta. É tão forte que às vezes me pego falando sozinha e minha mãe vem ver o que esta acontecendo. Mas é isso! Eu estou sentindo falta dele. Eu gosto dele quero ficar com ele. Liguei de novo. Deixei recado. Parece que despertei da minha pasmaceira mental. Pra meu tormento só ligou dois dias depois, imaginem como fiquei. De cara disse. Vamos sair! Quero passear com você. Sábado, dois dias depois. Saímos sozinhos. Ele veio de táxi. Como era metido esse cara. Minha mãe tinha uma certa reserva na voz. Cheia de pedir cuidado com isso cuidado com aquilo. Afinal íamos sair sozinhos.
Enfim conversamos bastante ponderamos nossa situação e resolvemos que voltaríamos a namorar.
Como vim a entender com o passar do tempo, o namoro não fica só naquilo que era no começo. Vai esquentando, ficando mais gostoso, mais perigoso. E os lugares pra essas coisas, pensando em dois cegos sem privacidade, são bastante complicadas. Carro não tem, no táxi é que não ia ser. As salas de cinema já não são as melhores opções pra essas coisas. A gente nunca sabe quem esta olhando. Estava ficando um aperto dar uma namoradinha. Até que um dia ele disse que queria transar comigo. Gente! Quando ele disse isso, deu tudo ao mesmo tempo. Medo, vontade, nervoso, dor de barriga, ansiedade, alegria, tristeza.  É tristeza.  De não saber o que fazer. Medo de saber se eu queira, se eu podia. Se doía. No mundo de quem não enxerga estas coisas são mais complicadas do que parecem. Quando se tem um bom atendimento na escola e por profissionais, enquanto você está se desenvolvendo, pode aprender as partes do corpo e a lidar com ele e com a sexualidade a medida que cresce. O que não foi meu caso. Além de não passar pela idéia da minha mãe de como explicar essas coisas. Afinal eu era cega e não precisava de nada disso. Se não for assim, tudo é pura escuridão. Sem brincadeira! Uma das coisas mais difíceis é saber como é o corpo do outro. Digo, da pessoa do sexo oposto. Entenderam a dificuldade? E pra explicar como acontece a relação sexual, o ato em si. Chega a ser assustador. Pensar que alguém colocar alguma coisa dentro de você é impensável. Imaginar com é, é um desespero.
Enquanto a gente está namorando já assusta o que a gente sente quando dá umas passadinhas de mãos aqui e ali. Imagine essa coisa de aumentar de tamanho! Vocês sabem do que estou falando.
Cheia de vergonha falei do meu medo pro Fernando e por sorte ele foi me explicando. Não sei se foi pior ou melhor, pois a medida que a gente fica sabendo como as coisas acontecem, o medo aumenta junto. Mesmo ele dizendo que seria bom que sabia como se fazia. Bom, ai ele quase apanhou. Quis saber de tudo. Quem era, e que história era essa. Ele tentando me acalmar explicou que essas coisas se aprende na escola para cegos e não cegos também, pelo menos deveria. Foi difícil ele se explicar, fiquei de bico um bom tempo. Até que eu entendi que era verdade.
Dividida entre o sim e o não, e o impressionante é que a queda para o sim é fantasticamente maior, principalmente nestes casos.
Mas tínhamos um outro problema, onde seria? Pensamos mil possibilidades que ficavam entre o risco e a vergonha da situação. Como por exemplo, ir pro motel de táxi? Fora de questão.
Até que aquelas coincidências que acontecem com todo mundo, acontecem com a gente também. Ninguém em casa. Esta, segundo fiquei sabendo depois, é a mais comum das oportunidades.
O resto, já contei.