sábado, 19 de agosto de 2017

Os desafios de uma vida. Os desafios de Caio.

Não é muito comum eu ir ao hospital visitar o berçário. Uma amiga enfermeira pediu voluntários para ficar com crianças recém nascidas que estavam muito tempo sozinhas ou abandonadas, ou que tinham algum tipo de deficiência ou problema, enfim. Eu fui. Meio sem jeito, mas alguma coisa me levou até lá. Até estranhei ter aceito o convite.
Quando cheguei, a enfermeira me entrega uma criaturinha pequena, parecia ter alguns dias de vida. A mãe tinha falecido no parto, o pai não tinha sido encontrado, sem familiares para contato. Ao que  parece, isso acontece muito.
Para quem vai ser voluntário, a única informação a respeito da criança é o nome e a idade. Nada mais importa.
Por sorte, o pequenino não chora, abre os olhos, se espreguiça, tenta olhar ao redor, mas a cabeça ainda pesa muito. Mesmo assim tenta manter a cabeça elevada apesar dos músculos não darem o apoio que necessita. Tomba novamente no meu peito. Vira a cabeça para um lado, vira para o outro e fica olhando para o vasio, para o além, um olhar perdido, sem foco. Mas de testa franzida, como a de quem se esforça para ver. Por fim adormece.
Então só me resta fazer companhia para aquela criaturinha e pensar na vida, na sua fragilidade. Pensar em ser, em ter, no que tenho e no que sou. Na insignificância dessa existência. E no futuro desse menino. Acabo por dar umas cochiladas. Sentado em uma cadeira com muito pouco conforto, chego a dar umas “cabeçadas”.
Desperto com alguém me chamando pelo nome que de inicio não reconheço, mas aos poucos, fica mais clara a imagem da pessoa. Mãe de um paciente que atendi poucas vezes, de apenas alguns meses, muito magrinho e era visível que tinha algum tipo de lesão neurológica. Desidratado e desnutrido, tudo ia tão mal naquele momento, que sua vida corria perigo. Mas as dificuldades da mãe não eram poucas. Tocar, sim, o toque, era um ato quase mecânico e de pouco significado afetivo, era só para trocar e alimentar. O resto do tempo, ficava só no berço ou no colo de outras pessoas da família. A mãe não entendia o que dera errado com o filho. Não era um sentimento de rejeição, mas de negação da condição da criança. A culpa por ter feito algo que levasse seu filho àquele estado a consumia. Além disso, a falta de informação e a demora para ter acesso ao serviço foram um agravante para a saúde do menino.  Na época fiz os encaminhamentos e foi internado. Volta algum tempo depois para tratamento. A lesão cerebral era grave. Nos primeiros dias em que a mãe percebeu alguma melhora, vem para o atendimento muito assustada. Tento entender o motivo da sua inquietação e ela me diz com espanto que ele estava sorrindo, se era normal. Segundo a mãe, agora ele sorria, quando estava sendo alimentado, no colo ou vinha para a estimulação. Mas por uma triste coincidência, estava internado novamente. Era muito frágil e suscetível a infecções respiratórias e intestinais. A mãe me coloca a par de uma longa cadeia de acontecimentos até aquela data, pois fazia algum tempo que não os via. Ela estava mais à vontade com o menino, tinha resgatado o afeto na verdade adormecido ou esquecido por detrás da tristeza que estava vivendo. Tudo tinha passado. Dizia-se e reconhecia-se amorosa, carinhosa, conseguia ter uma fala afetiva, gestos de carinho. Chegou a dizer que era outra pessoa. Agora, de fato, era mãe desse menino, que se chamava Caio.
Ela se dizia temerosa porque desta vez a internação de Caio ia longe demais, já estava internado há uma semana, com pneumonia e seu quadro era grave. Os antibióticos não estavam resolvendo muito, ele não estava respondendo mais aos estímulos que ela provocava, estava murchinho, palavras dela. Angustiada me perguntou: “Será que  agora que eu consegui amar e  entender meu filho, a vida vai levar ele de mim?” O que se diz para uma mãe numa hora dessas?
Dias depois sou convocado para mais uma vez emprestar meu colo para os bebês que estavam internados. A enfermeira me fala da diferença que isso faz no desenvolvimento deles, que o contato estimula de forma positiva inclusive na melhora da imunidade.
Fiquei sabendo que a mãe do Caio não aparecia para vê-lo há alguns dias e não se sabia o motivo. Neste dia fique com dois ao mesmo tempo, Caio e Ele, o menino que ainda não tinha nome. A sua identidade era uma pulseirinha onde se lia “Rn de Fulana de tal”.  Segundo a enfermeira eles só precisavam ganhar peso. Duas criaturinhas esquálidas, frágeis, lutando pela vida dia-a-dia.Naquele momento, de alguma forma dependiam de mim do meu calor, das batidas do meu coração. Desconhecido, mas que lhes dava algum conforto ou consolo.
O ambiente inóspito do hospital pareceu desaparecer. Parecia que só existíamos nós três. Ali, em plena comunhão de corpos. Peles enrugadas, movimentos incertos, futuros igualmente incertos. Só restava manter o esforço automático de respirar e o pulsar dos corações.
Era curioso ver aquelas duas cabecinhas carecas uma ao lado da outra. Eram praticamente só cabeças. Às vezes, olhos se abriram e fechavam, as cabeças mudavam de posição.
O que soube daquele outro ainda sem nome, pagão para a vida, é que de fato ainda não tinha ninguém por ele, nasceu só e pelo visto continuaria só. Seria o destino de uma vida. Tão inocente, indefeso, sem escolhas, vulnerável. Mas acima de tudo, tristemente só. Isso me doía. Sentia, compartilhava da sua solidão de alguma maneira. E ali estavam dois desconhecidos com sorte incerta, futuro duvidoso. Era curioso vê-los um de frente para o outro O que será que pensavam quando se viam?
Enfim acaba meu turno com os meninos. Foi difícil deixá-los e imaginar que ficariam ali, sem ninguém que os acarinhasse, desse colo, embalasse seu sono e socorresse seu pranto. Deixei muito de mim naqueles dois, não podia ficar, mas ao mesmo tempo não queria ir.
Na semana seguinte encontrei com a mãe do Caio, que me contava animada que o menino tinha saído do hospital, estava em casa e bem. Contou tambem que soube que eu tinha estado no hospital nos dias que ela não pode ir e que tinha achado interessante eu ter ficado com os dois meninos e quis experimentar. Na sua simplicidade, conta da emoção que sentiu quando teve os dois ao colo e que não conteve o choro quando o “outro menino”, lhe procura o peito para mamar. E ela que se dizia “seca” , jorrava em leite, em uma quantidade surpreendente, do leite que nunca teve nem para o filho. Emocionada, conta que aquele momento mexeu com ela de uma forma, que não conseguia explicar. Não podia se imaginar mais sem aquele menino, não era possível pensar em separar esses improváveis e já naturais irmãos. Dizia ela essas coisas todas com lagrimas escorrendo sobre a pele morena e lustrosa. Uma emoção que mostrava um choro alegre, realizado, parecia satisfeita, plena. Às vezes levava a mão à garganta, como se um nó precisasse de ajuda para se soltar. Tinha a voz embargada, tremula e isso tornava aquele momento ainda mais peculiar, mas não a impedia de falar. Por fim me conta que tinha a guarda provisória do pequeno e certeza de que ele continuaria sendo seu pra sempre. Já estava com ele em casa. O menino agora tinha um nome e sobrenome.

2 comentários:

  1. Suas palavras falam...

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  2. O coração humano é fantástico, que Deus fortaleça essa mãe em sua nova batalha, como será que estão hoje, 9 meses após essa linda história?

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