O fim da
luz de Luiz.
Era de
manhã, passei vi aquele homem sentado na calçada, Nada demais alguém se sentar
na calçada. Rua tranqüila, poucos carros parados. Cotovelos apoiados nos
joelhos segurando a cabeça grisalha e meio calva, magro, bem vestido. Parecia
esperar, não sei o que ou quem, mas esperava. Dava essa impressão.
Passei de
volta na hora do almoço e lá estava ele. Passando pelo outro lado da rua, podia
ver seu rosto cansado, o olhar perdido, distante. Voltei do almoço e vi ainda
estava no mesmo lugar e que tinha encostado no poste logo atrás de si,
cochilava.
No fim da
tarde, voltando pra casa, lá estava ele. Cabeça baixa, parecia esgotado,
murmurava algo, e balançava a cabeça de forma negativa, como se estivesse
lembrando de algo que reprovasse.
Parei
para falar com ele. Abaixei ao seu lado e perguntei se precisava de alguma
coisa, se estava tudo bem. Ele me olhou por um tempo, desviou o olhar para o
chão e disse, não sei. Olhou de novo na minha direção, mas parecia não olhar
pra mim e disse : Eu não estou lembrando de muita coisa, estou meio perdido, me
sentindo vazio, como se tivesse alguma coisa pra fazer e não lembro o que é, ou
algum lugar pra ir que não sei onde pode ser. Nem sei se estou esperando
alguém. Baixou os olhos novamente e ficou em silencio.
Perguntei
se tinha família, ele disse que sim, mas só lembrava do nome da filha, Elisa.
Disse se chamar Luiz, que era contador. Mas que não tinha certeza disso.
Perguntei se tinha algum documento ou algo nos bolsos que ajudassem a localizar
alguém da família ou o endereço. Tira do bolso da camisa um cartão do banco,
algum dinheiro, e um documento de identidade. Nada que ajudasse muito.
Perguntei se estava com fome ou com sede, disse que sim. Fomos ate a lanchonete
que estava logo atrás de onde passara o dia, sentamos e pedi algo para comer e
beber. Precisei conduzi-lo pela mão, estava sem iniciativa. Conversamos um
pouco, mas não disse nada que acrescentasse, que ajudasse a localizar sua
família ou saber da sua história. Lembrava da filha, descreveu ela com riqueza
de detalhes, da voz calma e afetiva, do cabelo cacheado castanho claro e
comprido. Dos olhos claros, da pele morena e de ser graciosamente baixinha. E
que cuidava dele com muito carinho. Enquanto falava seu rosto ia se alegrando,
se abrindo, trocando as rugas da tristeza pelas do sorriso e de ma felicidade
fugaz. Mas logo se apaga, volta a expressão de tristeza e de vazio. Pergunto se
não tinha mais nada nos outros bolsos, com dificuldade tira papéis amassados de
propaganda, desses que se entregam na rua, algumas balas, elásticos de
borracha, moedas e do outro bolso surge um celular....ufa que alegria a minha.
O celular não lhe dizia nada, não significava um elo de conexão com a família.
Tentei
ligar o aparelho, mas sem sucesso, estava sem bateria. Corri pro garçom que
trouxe um carregador, e assim, com o mínimo de carga na bateria, o celular ligou
e uma chuva de mensagens chegaram. Eram da filha do Sr Luiz. Ainda com o
celular ligado a tomada, liguei pra filha e indiquei onde estávamos. Ela muito
preocupada, dizia estar, desesperada, quis saber do estado do pai, informei
tudo o que tinha acontecido e ela se pôs a caminho.
Avisei ao
Sr. Luiz que tinha conseguido falar com Elisa e ele se mostrou mais alegre,
ficando mais atento a tudo que nos rodeava, ainda com olhar vago, mas estava
mais animado. Ofereci mais alguma coisa para comer e ele disse não saber se
queria. Pedi assim mesmo e ele comeu e bebeu com satisfação.
A filha
finalmente chega. Era de fato como ele descreveu com detalhes. Moça bonita,
jovem, postura de quem parecia ser firme, decidida. Chegando ao lado do pai,
colocou a mão em seu ombro delicadamente. Ele olhou pra ela e por uns instantes
ficou sem reação, mas em seguida sorriu, levantou e a abraçou. Se abraçaram, e
se embalaram um nos braços do outro. Até que ele começa a chorar aos soluços.
Ela o acalma, deita a cabeça do pai em seu ombro e o consola como a uma
criança. Ele se acalma e ela o põe sentado. Ela de frente para ele, com as mãos
dele entre as suas, pergunta com carinho se ele esta bem, se ele lembra dela e
do que aconteceu. E ele só abana a cabeça negativamente, e diz, só me lembro de
vc. Choramos os três. Ela se vira em minha direção e conta que há 8 meses o pai
vem tendo apagões de memória. E que ela tem feito de tudo para não tirar a
autonomia dele, enquanto fosse possível. Ele olha pra ela como se tivesse
recobrado a memória e pergunta: Essa é aquela hora que combinamos filha? É sim
pai, sinto muito. Ele baixa os olhos e as lagrimas que escorrem dos seus olhos
começam a molhar a mesa. Chora como se sentisse uma dor profunda, um uivo
baixinho sai da sua garganta. O choro enche de som o ar, fazendo que todo o
ruído do ambiente diminuísse, as poucas pessoas que estavam na lanchonete
parecem entender o momento e baixam a voz, se calam, os olhares se solidarizam.
Elisa conta, que combinaram, que quando ele se colocasse em risco ou se
perdesse ele teria que aceitar ter alguém sempre por perto, que não poderia
mais sair sozinho, e que a casa teria sempre que ter uma funcionária. Ele tinha
relutado com essa idéia por muito tempo e dizia que não ia admitir tal coisa.
Pois não estava ruim da cabeça e que não precisaria. Mas naquele instante a
consciência, a razão da sua condição se revela com uma dureza inevitável,
pungente. Como se a razão lhe atingisse em cheio e provocasse uma dor sem fim,
sem que o consolo chegasse. Choramos juntos eu e Elisa ao ver sua desolação. O
garçom que de inicio estava curioso, rondando a cena, agora enxuga as lagrimas
na manga do paletó branco do uniforme. Torce o pano de mão como se tentasse
transferir para o pano sua tristeza. Fica cabisbaixo e a distância com
olhos vermelhos e as vezes se sacudido por dentro para segurar o choro.
Elisa
consola e acalma o pai, ajuda a se levantar, se despede de mim com um abraço e
sai levando o pai pela mão. De novo o olhar vago toma conta do seu rosto, mas
segue sem questionar a filha que jamais saiu da sua lembrança.
Dias
depois o garçom me para na rua para devolver o celular que fora esquecido.
Disse não ter entregue antes pois não me viu passar e que não teve coragem de
ligar pra filha do Sr Luiz pra devolver o celular. Disse ter ficado tão
comovido com a história que tinha receio de começar a chora quando
ligasse.
Liguei no
dia seguinte para a filha do Sr Luiz, ela me conta que há dias ele não reage.
Só come com ajuda, não se cuida sozinho. Esta praticamente em estado
vegetativo. Olhos abertos, embaçados, vazios. Como se aquele corpo não fosse
mais o seu pai.
Era só um
corpo. Estava sem luz, nem era mais Luiz.
Que triste realidade que acomete nossos idosos com Alzeimer
ResponderExcluir