Acordo de um sono mal dormido, no meio da madrugada. Frio, chuva fina, estava em um acampamento para ver um fenômeno natural. Nada feito, chuva, neblina, vento, frio e um bando de doidos acampando no alto de uma montanha. Ninguém dava o braço a torcer, ficaríamos ali. Ficamos. E nos lascamos.
Acordado pela dor que atormentava todas as partes do corpo e pelo chão duro, tentei achar uma posição naquela barraca, que já não balançava tanto com o vento forte. Acomodando os sentidos começo a perceber os ruídos do entorno. O vento fraco, garoa fina batendo na lona, pessoas rindo ao longe. Alguns passando perto da barraca. Nada chamava a atenção. Meio dormindo, quase acordado, a dor no corpo vai se acomodando e passando para outras partes menos doloridas, tento me acertar de novo, e me acalmo. Não sei quanto tempo depois, acordo com vozes, duas amigas conversando. Não conseguia avaliar há quanto tempo estavam ali conversando. Com certeza, na barraca ao lado. Não falavam alto, mas a direção do vento e o tom de suas vozes, traziam a conversa ate mim.
Parecia que a conversa já estava adiantada quando acordei com as vozes. Tentei não ligar, afinal queria dormir e que a noite acabasse logo. Pq deitado naquele chão duro, estava cada vez mais difícil. Tentando esvaziar a cabeça dos pensamentos e do desconforto, a conversa praticamente caia direto, no centro da minha atenção ou da minha barraca. Não tinha saída, me pus a ouvir. Tbem não ia mandar calarem a boca. Não me ocorreu, ou não tive coragem quando ouvi a frase de uma das moças que parecia desabafar. “preferia não ter descoberto a felicidade, assim sofreria menos”. Opa!! Isso me despertou, quase sentei.
A curiosidade bateu, afinal é uma frase de efeito, e na impossibilidade de dormir parecia que o tema era bem interessante.
Chegam mais duas amigas e perguntam o que está acontecendo, e é ai que tudo começa.
A protagonista desta história, que aqui chamo de Jose, começa a contar para sua amigas que tinha encontrado a felicidade, a reação das amigas veio de imediato – Que estória é essa!? Está de lua de mel com o marido? Descobriu algo novo nele depois destes anos de casamento? Alguém ataca de forma mais incisiva, tá de caso com alguém sua louca? Todas riem e falam ao mesmo tempo um confusão que não se distingue nada do que dizem, enfim se acalmam.
- Pois é, continua Jose, aconteceu. Era um estranho, se tornou amigo, mas sempre tinha um algo mais no ar, que não sabia o que era, não sabíamos o que aquele sentimento significava. A amizade se fortaleceu, o carinho ficou evidente no dia a dia, na convivência, na preocupação um com o outro. A ponto de ligar pra saber se a dor de cabeça tinha passado, se tinha dormido bem, se aquele projeto do trabalho tinha dado certo. Cuidado com as preocupações cotidianas. Percebi que é isso que mantem as pessoas juntas, que fortalece a relação, o interesse de um pelo outro. Mas vc não tinha isso com o Fulano ? perguntou uma delas. O dia a dia leva a gente pra uma vala comum, onde todas as coisas parecem iguais e sem importância, ou que parece que tudo esta sub entendido, dito sem dizer, e tudo acaba ficando sem ser percebido, falado. Aquela fase do “eu achei que vc tinha entendido”, “achei que vc tinha dito”, “achei que vc soubesse”, e assim as coisas deixam de ser vividas, sentidas compartilhadas.
Mas e ai sua louca, rolou aquela noite de sexo selvagem com o bofe?! Não, não Fulana, relações não são apenas sexo, são também sexo. A questão não é essa, a questão é carinho, cuidado, atenção com o outro e sexo também claro. Ah para com isso!!!! retrucou a mesma Fulana, que besteira romântica é essa, o que vale é o “rala e rola”, senão nem vale a pena. O que ela disse na verdade é impublicável neste espaço. Larga de ser tonta e cai de boca, todas riram inclusive Jose. Outra disse, isso nem é traição, vc nem fez nada, retruca a outra, não mesmo, como vc é babaca, trouxa. Mas e o bofe vale a pena, é gatão, sarado, tipão??? Vc é tão tonta que nem da pra perguntar se o cara manda bem, todas riram. Jose explica - gente é triste se sentir sozinha estando acompanhada, é solitário estar junto de quem não tem o interesse por vc, pelo seu dia, pela sua vida. A gente se sente secando. Independente do que vc faça, nada muda. Ai do nada, vc encontra uma pessoa atenciosa, e se sente cuidada, acolhida, querida e desejada. Todas reagiram - aeee uhul, ta escondendo o jogo “miga” ? Claro desejada tbem explicou Jose. Na minha cabeça não existe uma coisa separada da outra, as amigas riram, e todas falam ao mesmo tempo, eu ouvindo, ri por dentro. Só vc que vive um conto de fadas, atacou uma, outra dispara - brasa encoberta, dizia minha avó, mais risos e uma falação que não conseguia distinguir o que diziam, mas riam e faziam pouco caso da situação da amiga. Uma delas apaziguou os ânimos e retomou a conversa. Vai Jose, conta mais, parece que isso é muito sério pra vc. Gente, para de zuar. Fala Jose. E ela continua, com o mesmo tom de voz morno, sem alterar o tom. Imagino a cena: essas quatro moças sentadas em roda, uma delas deitada com a cabeça apoiada na perna de uma outra. Jose com as pernas cruzadas e com os cotovelos apoiados nos joelhos e com as mãos apoiando o rosto. Imagino que seja jovem pelo timbre da voz, cabelos compridos e não sei porque imagino que seja morena. Das outras não me vem nenhuma imagem. Pela claridade que podia ver através da lona fina da barraca, havia uma lanterna acesa dentro do barraca amarrada ao teto, apontando para baixo. Era essa a cena que me ocorria.
O que mais me doi disso tudo, continua Jose, a outra interrompe e ataca, foi não ter dado pra ele, todas riem. Não é isso, se defende Jose, é descobrir a felicidade e não poder vive-la. Saber o que é, toca-la, senti-la e não poder desfrutar disso integralmente. Ai que chatisse isso, disse uma das mais escandalosas, mas foi a única a se manifestar, as outras se calaram e entenderam. - Preferia não saber, continuou Jose, preferia não ter vivido isso, assim não sofreria, não sofreria por ser feliz. Silencio absoluto. Ficaram assim não sei quanto tempo. Ouço o que deve ser um fungar de nariz e só.
Contos, causos, textos, sobre a vida de quem vive esta vida. A vida e seus conflitos, dramas, sofrimentos, alegrias e surpresas. A vida como ela é, bonita de ser vivida e partilhada. Este é o objetivo deste Blog. Sejam bem vindos.
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
Josephine - A descoberta da felicidade pode ser dolorosa.
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Acredito que se Jose tentasse reinventar sua história, seu casamento, poderia redescobrir a felicidade
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