quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Só um golinho dˋágua.

Viajando de ônibus. Viagem longa. Parti a tarde, só chego a noite. Duplas de estranhos dividem das gratas companhias, as vezes indesejáveis. Gordos demais, fedidos demais, roncam demais. E segue a viagem. Inicio da viagem, sobem mais alguns passageiros, gente que se ajeita, bagagem que se acomoda, até que tudo se acalma, Entre um cochilo e outro, observo a dupla a minha direta, logo a frente. Parceiros desconhecidos, seguiram nessa aventura em momentos diferentes. Dormiam. Roncavam. Eis que o passageiro sentado no corredor, acorda, se espreguiça, olha em volta, e lentamente....pare a cena e imagine tudo em câmera lenta .... segue a cena... estica o braço em direção a garrafa d'água do outro, pega devagar, abre com cuidado, da um gole, limpa a boca, fecha, coloca no lugar procurando não fazer barulho, e finge dormir.
Instantes depois o outro, o dono da água,  acorda com uma tosse catarrenta, daquelas que vem do fundo da garganta, aquela tosse escandalosa e produtiva, que provavelmente desculpem a nojeira, terminaria naquela cusparada catarrenta. O escândalo foi tanto que quase acorda o ônibus todo. O dono da agua, avança para a garrafa recém devolvida, toma toda água, e emite aquele aahh de satisfação. O que tomou da água alheia, imediatamente se levanta e vai correndo ao banheiro, de onde se ouviam muitos ruídos estranhos. E segue a viagem.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Pega ladrão ?!

Essa história poderia começar assim: Em uma pacata cidade do interior paulista.....
Estava esperando a carona que ia me levar pro aeroporto, e desci pra esperar na porta do prédio. Era uma rua calma, típica de cidade de interior. Um bar na esquina a minha direita, duas casas de moradia na sequência. Bem em frente onde estava um açougue. Em frente ao açougue duas senhoras conversavam calma e tranquilamente. Uma delas segurava um cachorrinho pela coleira e na outra mão uma sacolinha meio cheia, junto com a coleira segurava uma bolsinha preta. A outra senhora de costas pra rua conversava animadamente com a outra senhora que parecia ser sua amiga. Falavam, gesticulavam, riam, tocavam uma na outra pra contar algo mais sigiloso ou "fofoquento" rs. Eis que do nada surge um moleque vindo da esquina correndo alucinado. Passa entre as duas senhoras e quase derruba a que estava segurando o cachorro, que perde o equilíbrio, e pra não cair se escora no muro que estava atrás de si. Assustadas e nervosas gritam e esbravejam levantam os braços como se fosse bater em alguém que estava por ali. Atravessei a rua pra falar com elas, e ver se estava tudo bem. Ficaram contando e repetindo o acontecido várias vezes. E começam a reclamar da violência, da falta de segurança e a falar que isso é desespero das pessoas sem emprego.  Perguntei se tinham levado alguma coisas delas, e percebi que a sacolinha não estava mais na mão dela. Pois é meu filho, disse ela, levaram a sacolinha onde estava o coco do meu cachorro. Eu levo ele pra passear e fazer necessidades, mas não deixo cocô no chão. Mas estão roubando até o cocô do cachorro, terminou ele indignada.
Se está ruim, sempre pode piorar.

Lanchinho agitado

Escuta essa, digo, leiam essa história.
As coisas acontecem e a gente nunca acha que vai passar por certas situações ou estar perto de algumas delas.
Estava tomando um lanche em uma padaria de esquina em São Paulo. Demorei pra achar um lugar legal pra comer, e tinha esta lanchonete e pastelaria. A Barca. Não sei porque do nome. Recomendo o americano e o omelete com fritas.
Mas, o começo desta história, o fato ocorrido é típico de bar e ou lanchonete de esquina. Bêbados chatos e moleques sem noção, o que tem em todo lugar. Sentei de frente pro balcão nos fundos da lanchonete. O lugar é pequeno. Ao lado de onde estava sentado, a minha direita, uma mesa pequena encostada em um vidro que mostrava a rua.
Fiz meu pedido, e fiquei de conversa com o chapeiro e o copeiro. Na minha frente do outro lado do balcão, perto da entrada e do caixa estava o nosso primeiro personagem, um rapaz completamente embriagado. O chapeiro e o garçom me contavam que era um profissional muito competente e respeitado que trabalhava com acabamento de madeira em residência, ou coisa assim. Mas que aos sábados fazia uma via sacra entre os bares daquela região e terminava ali. Até aí, era só mais um bêbado de padaria. Passado alguns minutos, entram três caras no melhor perfil moleque bombadão de academia. Hipertrofia em baixo, atrofia em cima, acho que da pra imaginar. Até aí, normal. E eu ali esperando o meu lanche, assuntando com o garçom e o chapeiro. Eis então, que entram duas moças muito bonitas e arrumadas. Pelo vidro deu pra ver quando saíram de um barzinho na esquina oposta, atravessaram a rua entraram e sentaram na mesa que estava a minha direita, nos fundos da lanchonete. Pediram alguma coisa para comer e ficaram conversando. Aí os personagens desta história começam a interagir. Os três "pityboys" provocaram o rapaz que estava de fogo a ir mexer com as moças. E assim era a cena, ele ia, e elas despachavam o cara na moral e até com certo bom humor, isso por várias vezes.  Mas, os babacas que estavam provocando o bêbado começaram a apelar e a falar alto, baixando o nível da conversa, dizendo pro bebum chamar elas disso e daquilo. E falando alto um monte de coisas, que em certa altura, chegaram ao nível do intolerável. Que na minha opinião já tinha passado do tolerável fazia tempo. Foi quando eles disseram, "vai lá e passa a mão na gostosa". Antes que o nosso primeiro personagem pensasse em fazer alguma coisa, as duas se levantaram da cadeira ao mesmo tempo e tiraram da cintura, mas atrás das costas, uma pistola cada uma. E apontaram pros moleques. Agora , congela a cena.....duas moças aparentemente indefesas, sacam duas automáticas e estão em posição de tiro. Segue a cena, o bêbado cai de costas em cima de uma pilha de carvão que estava encostado no caixa, os babacas ridículos, não tem outra coisa pra chamar esses caras, se escondendo, tropeçando um no outro e se estabacando na geladeira atrás deles. E as meninas dizendo com uma autoridade que não parecia sair delas: VAZA!!! Na hora senti que algo escorreu pelas minhas pernas, sim nas duas. Não sabia se era o meridiano da bexiga tendo um ataque ou era coisa mais líquida, e o suor descendo. O garçom e o chapeiro se afundaram no balcão, o caixa idem, e os babacas gritando "PELAMORDEDEUSMINANUMFAIZISSO" (coloca um sotaque paulistano nisso que vc vai entender como era). E elas repetiram mais uma vez VAZA!!!! Quando eles iam saindo, um se arrastando de costas no chão e os outros dois um se escondendo atrás do outro, elas gritaram, VOLTA E PAGA A CONTA SEU BABACA. Eles jogaram uma nota pro rapaz do caixa, e foram embora. O bêbado sumiu, não sei por onde ele saiu. As moças enfiaram a pistola no coldre que estava nas costas, sentaram e continuaram a tomar o lanche. E eu estava em dúvida em como fazer pra levantar dali. É cada uma que me acontece.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Josephine - A descoberta da felicidade pode ser dolorosa.

Acordo de um sono mal dormido, no meio da madrugada. Frio, chuva fina, estava em um acampamento para ver um fenômeno natural. Nada feito, chuva, neblina, vento, frio e um bando de doidos acampando no alto de uma montanha. Ninguém dava o braço a torcer, ficaríamos ali. Ficamos. E nos lascamos.
Acordado pela dor que atormentava todas as partes do corpo e pelo chão duro, tentei achar uma posição naquela barraca, que já não balançava tanto com o vento forte. Acomodando os sentidos começo a perceber os ruídos do entorno. O vento fraco, garoa fina batendo na lona, pessoas rindo ao longe. Alguns passando perto da barraca. Nada chamava a atenção. Meio dormindo, quase acordado, a dor no corpo vai se acomodando e passando para outras partes menos doloridas, tento me acertar de novo, e me acalmo. Não sei quanto tempo depois, acordo com vozes, duas amigas conversando. Não conseguia avaliar há quanto tempo estavam ali conversando. Com certeza, na barraca ao lado. Não falavam alto, mas a direção do vento e o tom de suas vozes, traziam a conversa ate mim.
Parecia que a conversa já estava adiantada quando acordei com as vozes. Tentei não ligar, afinal queria dormir e que a noite acabasse logo. Pq deitado naquele chão duro, estava cada vez mais difícil. Tentando esvaziar a cabeça dos pensamentos e do desconforto, a conversa praticamente caia direto, no centro da minha atenção ou da minha barraca. Não tinha saída, me pus a ouvir. Tbem não ia mandar calarem a boca. Não me ocorreu, ou não tive coragem quando ouvi a frase de uma das moças que parecia desabafar. “preferia não ter descoberto a felicidade, assim sofreria menos”. Opa!! Isso me despertou, quase sentei.
A curiosidade bateu, afinal é uma frase de efeito, e na impossibilidade de dormir parecia que o tema era bem interessante.
Chegam mais duas amigas e perguntam o que está acontecendo, e é ai que tudo começa.
A protagonista desta história, que aqui chamo de Jose, começa a contar para sua amigas que tinha encontrado a felicidade, a reação das amigas veio de imediato – Que estória é essa!? Está de lua de mel com o marido? Descobriu algo novo nele depois destes anos de casamento? Alguém ataca de forma mais incisiva, tá de caso com alguém sua louca? Todas riem e falam ao mesmo tempo um confusão que não se distingue nada do que dizem, enfim se acalmam.
- Pois é, continua Jose, aconteceu. Era um estranho, se tornou amigo, mas sempre tinha um algo mais no ar, que não sabia o que era, não sabíamos o que aquele sentimento significava. A amizade se fortaleceu, o carinho ficou evidente no dia a dia, na convivência, na preocupação um com o outro. A ponto de ligar pra saber se a dor de cabeça tinha passado, se tinha dormido bem, se aquele projeto do trabalho tinha dado certo. Cuidado com as preocupações cotidianas. Percebi que é isso que mantem as pessoas juntas, que fortalece a relação, o interesse de um pelo outro. Mas vc não tinha isso com o Fulano ? perguntou uma delas. O dia a dia leva a gente pra uma vala comum, onde todas as coisas parecem iguais e sem importância, ou que parece que tudo esta sub entendido, dito sem dizer, e tudo acaba ficando sem ser percebido, falado. Aquela fase do “eu achei que vc tinha entendido”, “achei que vc tinha dito”, “achei que vc soubesse”, e assim as coisas deixam de ser vividas, sentidas compartilhadas.
Mas e ai sua louca, rolou aquela noite de sexo selvagem com o bofe?! Não, não Fulana, relações não são apenas sexo, são também sexo. A questão não é essa, a questão é carinho, cuidado, atenção com o outro e sexo também claro. Ah para com isso!!!! retrucou a mesma Fulana, que besteira romântica é essa, o que vale é o “rala e rola”, senão nem vale a pena. O que ela disse na verdade é impublicável neste espaço. Larga de ser tonta e cai de boca, todas riram inclusive Jose. Outra disse, isso nem é traição, vc nem fez nada, retruca a outra, não mesmo, como vc é babaca, trouxa. Mas e o bofe vale a pena, é gatão, sarado, tipão??? Vc é tão tonta que nem da pra perguntar se o cara manda bem, todas riram. Jose explica - gente é triste se sentir sozinha estando acompanhada, é solitário estar junto de quem não tem o interesse por vc, pelo seu dia, pela sua vida. A gente se sente secando. Independente do que vc faça, nada muda. Ai do nada, vc encontra uma pessoa atenciosa, e se sente cuidada, acolhida, querida e desejada. Todas reagiram - aeee uhul, ta escondendo o jogo “miga” ? Claro desejada tbem explicou Jose. Na minha cabeça não existe uma coisa separada da outra, as amigas riram, e todas falam ao mesmo tempo, eu ouvindo, ri por dentro. Só vc que vive um conto de fadas, atacou uma, outra dispara - brasa encoberta, dizia minha avó, mais risos e uma falação que não conseguia distinguir o que diziam, mas riam e faziam pouco caso da situação da amiga. Uma delas apaziguou os ânimos e retomou a conversa. Vai Jose, conta mais, parece que isso é muito sério pra vc. Gente, para de zuar. Fala Jose. E ela continua, com o mesmo tom de voz morno, sem alterar o tom. Imagino a cena: essas quatro moças sentadas em roda, uma delas deitada com a cabeça apoiada na perna de uma outra. Jose com as pernas cruzadas e com os cotovelos apoiados nos joelhos e com as mãos apoiando o rosto. Imagino que seja jovem pelo timbre da voz, cabelos compridos e não sei porque imagino que seja morena. Das outras não me vem nenhuma imagem. Pela claridade que podia ver através da lona fina da barraca, havia uma lanterna acesa dentro do barraca amarrada ao teto, apontando para baixo. Era essa a cena que me ocorria.  
O que mais me doi disso tudo, continua Jose, a outra interrompe e ataca, foi não ter dado pra ele, todas riem. Não é isso, se defende Jose, é descobrir a felicidade e não poder vive-la. Saber o que é, toca-la, senti-la e não poder desfrutar disso integralmente. Ai que chatisse isso, disse uma das mais escandalosas, mas foi a única a se manifestar, as outras se calaram e entenderam. - Preferia não saber, continuou Jose, preferia não ter vivido isso, assim não sofreria, não sofreria por ser feliz. Silencio absoluto. Ficaram assim não sei quanto tempo. Ouço o que deve ser um fungar de nariz e só.

sábado, 29 de outubro de 2016

Uma história de atropelamento e fuga

Uma história de atropelamento e fuga.
Filho pequeno, animal de estimação, objetos de uso constante e de valor, levamos sempre a mão, em rédea curta, sempre próximo dos olhos e das mãos. Os motivos são óbvios. Mas as vezes temos aqueles instantes de bobeira e eles se soltam, se vão. Aproveitam da nossa distração e partem pra experimentar o novo, a liberdade sonhada, espaço almejado, enfim, o que será que se passa dentro de cada um? E assim, lá estava eu, com amigos, chovia, lama, buracos, frio. Uma dessas aventuras que a gente se mete a convite dos amigos. Mas junto com os amigos a gente topa até passeio de índio, lá estávamos nós. 
Quando percebi, não estava mais ao alcance das mãos ou dos olhos. Olhei em volta, perguntei aos que estavam por perto. Voltei ao carro e nada, uma sensação angustiante e de vazio tomaram conta de mim. Comecei a correr pelos lugares que já tinha passado e nada. Pedi para os amigos que estavam próximos de mim, que ajudasse a procurar e a chamar por ele. Nada! A sensação era terrível. Tudo nessa hora passa na sua cabeça. Onde estará, o que será que aconteceu, está com alguém ? Momentos torturantes. Até que de longe eu avistei. Caído na lama. Entre os buracos da rua, cheio de lama. Corri ao seu encontro. Á distancia não acreditava no que estava vendo. Não podia ser verdade, mas era. Lá estava ele, estirado no chão. Só, abandonado, sujo e aparentemente sem vida. Com carinho eu o peguei, limpei o que era possível. E ví que definitivamente estava sem vida. Não respondia a nenhum dos meus estímulos. Era o fim. Ele estava morto. Uma tristeza profunda toma conta de mim. Não sabia o que fazer, nem como agir. Estava desnorteado.
O que me deixa estarrecido é a falta de solidariedade e compaixão da pessoas. Não foram capaz de impedir, nem de socorrer. 
Apesar da sua breve vida, vivemos muitas coisas juntos. Alegria, tristezas, momentos de prazer, trabalho. Enfim ele se foi. Meu celular foi atropelado. Estou arrasado. Neste momento, de luto.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Marcelino e Severina

MARCELINO E SEVERINA.

Chegou do norte como quem chega do nada, e na bagagem de mão e da vida, tudo, menos instrução.
Assim chegou Severina. Semblante severo. Olhar Sereno. Apesar da vida marcada pela vida, trazia o desejo da esperança, que não sabia de onde viria, mas que viria, sabia.
Conheceu Marcelino. Um menino. Que professava a arte da madeira. Marcelino, marceneiro era. Sempre seria. Seu pai foi. Nunca conceberia saber outro saber. Já sabia o que era. Sempre soube o que seria.
Marcelino conhecia Severina aos poucos. Como se deve conhecer quem vai se amar para sempre. Conhecia, amava e entendia, mas não compreendia o seu não saber. Não entendia como alguém não sabia ler ou escrever. Ensinar ele tentou e a ambos frustrou. Mas os seus amores cresciam, disso, eles sabiam.
Marcelino marceneiro, acostumado a vencer a resistência e a dureza da madeira, escolheu novo ideal. Venceria o não saber de quem sabia, que poderia vencer. O de saber ler e escrever.
Marcelino então foi aprender, saborear novo saber. Rompeu com seu destino, professor queria ser. E uma nova sina, logo teria.
Marcelino, bom menino aprendeu logo o novo ofício. Madeira mesmo, agora só via no lápis, torneado e apontado. Mas Severina, a nova matéria prima, que daqui pra frente tornearia, logo outra resistência ofereceria. Matéria prima que uma vez marcada, pra sempre ficava.
O que aprendeu não resolveu, o pulo do gato ninguém ensinou, ou não sabiam. Ensinar, achou, que fácil seria, na verdade difícil missão se tornaria, pois com Severina nada conseguia.
Apaixonou-se por professar a arte de professorar. Foi um mestre de seus pares. A criançada, a nenhum outro preferia. Mas ainda não entendia, como Severina nada aprendia. Ainda assim amava, aquela, que não lia ou escrevia.
Sem saber como e porque, Severina, entendeu sem querer com a amiga Maria, o que Marcelino tanto lidava e ela não aprendia. Era só alegria o que ela sentia. Finalmente daria esta alegria a ele que tanto bem lhe queria.
Marcelino quando soube, ficou cheio de emoção e alegria, porque finalmente Severina, alfabetizada seria. O que ele ainda não entendia, era porque com ele, ela não aprendia.
Olhando daqui, sem conhecer essa moça e esse moço, o que logo ouço do meu coração é que Severina não aprendia porque que era o homem que ela queria e não ao professor que de tudo sabia.
Hoje Severina mulher de Marcelino, é professora que gosta de alfabetizar, e sabe como ninguém que para aprender e para amar é preciso se entregar .

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Meu encontro com Celeste


Meu encontro com “Ela”.
E ficamos assim, por um longo tempo nos olhamos. Não conseguia tirar os olhos dela. Tinha um olhar insidioso. Penetrantemente verde.  Lindos. Tinha pose, uma certa superioridade.  Mostrava a língua de forma provocativa, o que as vezes me levava a evitar o seu olhar, mas eu não conseguia, não podia . O corpo jovem demostrava a sua força e vitalidade. Sentia na minha perna o seu toque. Me chamava. Pequenos toques. TAP TAP TAP. E de novo como mais intensidade TAP TAP TAP TAP TAP. As vezes me apertava com mais força para chamar a atenção do que estava acontecendo ali. Ela estava embaixo de mim.
Isso aconteceu quando resolvi ir ao Bonete, comunidade “quase” isolada em Ilhabela/SP em uma caminhada solitária de 12 kilômetros de trilha, com subidas íngremes e descidas, que era preciso colocar a mão no chão pra dar apoio, travessia de pontes e rios. Era um desafio pessoal. Na verdade várias situações a superar.
Quando se começa a caminhada numa trilha dessas, tem que se tomar alguns cuidados. Folhas secas no chão podem esconder aranhas, cobras ou bichos menores. Prestar atenção em ramos e galhos, pois pode se encostar em folhas urticantes, teias de aranha, vespeiros. Mas depois de um tempo de caminhada, vc só quer acertar o próximo passo, buscar o ar que está faltando e tentar não pensar na frase “o que é que eu tô fazendo aqui ?!”. Nessa hora vc pensa na sua casa, na cerveja gelada e no sofá confortável. E que voltar pode ser tão ruim ou pior do que o esforço de terminar. Até pq a sensação de ter “arregado” é horrível. Esse desespero, vem sempre a meio caminho do destino.
No começo vc se acha o máximo. Acreditando que é logo ali e que está inteiro, molezinha! Depois de um tempo ou respira ou pensa. As duas coisas não funcionam juntas.
Como foi que encontrei com Ela ?
Então,  já sem fôlego e quase cambaleante em meio a tanto esforço pra subir a pirambeira, lá está ela. Embaixo de mim, sob os meus pés. Quase me faz escorregar. Só a vi de canto de olho, depois que a passada já havia sido dada, e o pé tocou o chão.
Sem pensar ou instintivamente mantive o pé sobre ela. Ela me olhava com um olhar penetrante. Me provocava mostrando a língua, e quando fui me ajeitar para não perder o equilíbrio, apertei-a mais ainda e como reflexo, ela se agarra na minha perna com a cauda. Sim tinha um rabão daqueles, era uma cobra. Seu corpo frio e escamoso me aperta a panturrilha suada e a ponta da sua cauda me chamava num tipo de Ei , me solta !!!! Tap tap tap.  Quando apertei mais, de novo recebo os tapinhas tap tap tap tap tap, e imaginava o que ela queria me dizer “ Ei, qual é? Me solta!!!
Estávamos ali, os dois, em um momento intimo, ligados pelo olhar, presos um ao outro. Se eu soltasse ela me mordia.  Imaginei ela me dizendo : me solta cara, qual é tá machucando!!! Se eu soltar vc me morde, eu respondi. E ela retruca, mas é claro vc está com o pé no meu pescoço. Mas foi sem querer, retruquei. Sessou a conversa. Afrouxo um pouco o pé e de novo, ela faz um ruído rascante e tenta virar a cabeça para me picar. Não temos outra saída, vc vai mesmo me picar? perguntei, e ela me responde, claro essa é a minha natureza, qual e a sua?, ela pergunta. Bom, pensei com as alças da mochila que estavam me ardendo o ombro: Somos mega predadores, matamos e caçamos sem necessidade, esgotamos e poluímos a natureza, tá certo, vou ter que te matar, respondi. Se ela pudesse engoliria em seco, mas com o meu pé no pescoço não dava. Olhei em volta, não achei nem um pedaço de pau que pudesse me ajudar, pela frente uma subida enorme que já vinha me desgastando a uns bons minutos. Não tinha coragem de mata-la, se tivesse já teria acabado com essa história. Resolvi então tentar uma saída, fui apertando de leve até ela não se mover mais e soltar da minha perna, talvez assim conseguisse pega-la pela rabo e atirar longe ou empurrar para longe com os pés mesmo. E assim eu fiz, fui apertando, ela se debatendo. Que aflição!!! Até que seu rabo perdeu a força e se soltou da minha perna, peguei pelo rabo sem soltar a cabeça que estava debaixo do meu pé e atirei longe. Assustado com aquilo tudo, arranjei um último folego e sai correndo morro a cima. Quando consegui me achar em segurança, olhei pra ver se encontrava a minha amiga Celeste, sim dei nome pra ela ora essa, afinal no meio de tanta intimidade tinha que ter nome. Sim, as referências são da celeste do castelo Ra Tim Bum, sim, sim, eu assisti. Bom, continuando, tentei ver se encontrava a Celeste, demorei mas encontrei seu corpo esguio e colorido estendido no chão, eu a tinha matado :( Lamentei. Pensei em ir lá tirar os seus restos mortais do caminho, podia assustar alguém. Fui descendo devagar tudo o que já tinha subido com sacrifício, olhando para o seu corpo estendido no chão. Quando comecei a chegar mais perto, eis que ela se mexe!!!! #@&»:\§£@ TA VIVA !!!!!! (Sim é um palavrão!!!) Gente nunca senti um arrepio tão forte como aquele, gelado, por dentro, trinquei de medo, virei as costas e subi voando o morro, nem sei de onde tirei tanta energia. Segui meu rumo e Celeste o dela. Nunca mais nos encontramos, ainda bem.