quinta-feira, 28 de abril de 2016

Meu encontro com Celeste


Meu encontro com “Ela”.
E ficamos assim, por um longo tempo nos olhamos. Não conseguia tirar os olhos dela. Tinha um olhar insidioso. Penetrantemente verde.  Lindos. Tinha pose, uma certa superioridade.  Mostrava a língua de forma provocativa, o que as vezes me levava a evitar o seu olhar, mas eu não conseguia, não podia . O corpo jovem demostrava a sua força e vitalidade. Sentia na minha perna o seu toque. Me chamava. Pequenos toques. TAP TAP TAP. E de novo como mais intensidade TAP TAP TAP TAP TAP. As vezes me apertava com mais força para chamar a atenção do que estava acontecendo ali. Ela estava embaixo de mim.
Isso aconteceu quando resolvi ir ao Bonete, comunidade “quase” isolada em Ilhabela/SP em uma caminhada solitária de 12 kilômetros de trilha, com subidas íngremes e descidas, que era preciso colocar a mão no chão pra dar apoio, travessia de pontes e rios. Era um desafio pessoal. Na verdade várias situações a superar.
Quando se começa a caminhada numa trilha dessas, tem que se tomar alguns cuidados. Folhas secas no chão podem esconder aranhas, cobras ou bichos menores. Prestar atenção em ramos e galhos, pois pode se encostar em folhas urticantes, teias de aranha, vespeiros. Mas depois de um tempo de caminhada, vc só quer acertar o próximo passo, buscar o ar que está faltando e tentar não pensar na frase “o que é que eu tô fazendo aqui ?!”. Nessa hora vc pensa na sua casa, na cerveja gelada e no sofá confortável. E que voltar pode ser tão ruim ou pior do que o esforço de terminar. Até pq a sensação de ter “arregado” é horrível. Esse desespero, vem sempre a meio caminho do destino.
No começo vc se acha o máximo. Acreditando que é logo ali e que está inteiro, molezinha! Depois de um tempo ou respira ou pensa. As duas coisas não funcionam juntas.
Como foi que encontrei com Ela ?
Então,  já sem fôlego e quase cambaleante em meio a tanto esforço pra subir a pirambeira, lá está ela. Embaixo de mim, sob os meus pés. Quase me faz escorregar. Só a vi de canto de olho, depois que a passada já havia sido dada, e o pé tocou o chão.
Sem pensar ou instintivamente mantive o pé sobre ela. Ela me olhava com um olhar penetrante. Me provocava mostrando a língua, e quando fui me ajeitar para não perder o equilíbrio, apertei-a mais ainda e como reflexo, ela se agarra na minha perna com a cauda. Sim tinha um rabão daqueles, era uma cobra. Seu corpo frio e escamoso me aperta a panturrilha suada e a ponta da sua cauda me chamava num tipo de Ei , me solta !!!! Tap tap tap.  Quando apertei mais, de novo recebo os tapinhas tap tap tap tap tap, e imaginava o que ela queria me dizer “ Ei, qual é? Me solta!!!
Estávamos ali, os dois, em um momento intimo, ligados pelo olhar, presos um ao outro. Se eu soltasse ela me mordia.  Imaginei ela me dizendo : me solta cara, qual é tá machucando!!! Se eu soltar vc me morde, eu respondi. E ela retruca, mas é claro vc está com o pé no meu pescoço. Mas foi sem querer, retruquei. Sessou a conversa. Afrouxo um pouco o pé e de novo, ela faz um ruído rascante e tenta virar a cabeça para me picar. Não temos outra saída, vc vai mesmo me picar? perguntei, e ela me responde, claro essa é a minha natureza, qual e a sua?, ela pergunta. Bom, pensei com as alças da mochila que estavam me ardendo o ombro: Somos mega predadores, matamos e caçamos sem necessidade, esgotamos e poluímos a natureza, tá certo, vou ter que te matar, respondi. Se ela pudesse engoliria em seco, mas com o meu pé no pescoço não dava. Olhei em volta, não achei nem um pedaço de pau que pudesse me ajudar, pela frente uma subida enorme que já vinha me desgastando a uns bons minutos. Não tinha coragem de mata-la, se tivesse já teria acabado com essa história. Resolvi então tentar uma saída, fui apertando de leve até ela não se mover mais e soltar da minha perna, talvez assim conseguisse pega-la pela rabo e atirar longe ou empurrar para longe com os pés mesmo. E assim eu fiz, fui apertando, ela se debatendo. Que aflição!!! Até que seu rabo perdeu a força e se soltou da minha perna, peguei pelo rabo sem soltar a cabeça que estava debaixo do meu pé e atirei longe. Assustado com aquilo tudo, arranjei um último folego e sai correndo morro a cima. Quando consegui me achar em segurança, olhei pra ver se encontrava a minha amiga Celeste, sim dei nome pra ela ora essa, afinal no meio de tanta intimidade tinha que ter nome. Sim, as referências são da celeste do castelo Ra Tim Bum, sim, sim, eu assisti. Bom, continuando, tentei ver se encontrava a Celeste, demorei mas encontrei seu corpo esguio e colorido estendido no chão, eu a tinha matado :( Lamentei. Pensei em ir lá tirar os seus restos mortais do caminho, podia assustar alguém. Fui descendo devagar tudo o que já tinha subido com sacrifício, olhando para o seu corpo estendido no chão. Quando comecei a chegar mais perto, eis que ela se mexe!!!! #@&»:\§£@ TA VIVA !!!!!! (Sim é um palavrão!!!) Gente nunca senti um arrepio tão forte como aquele, gelado, por dentro, trinquei de medo, virei as costas e subi voando o morro, nem sei de onde tirei tanta energia. Segui meu rumo e Celeste o dela. Nunca mais nos encontramos, ainda bem. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário