segunda-feira, 20 de junho de 2022

 

O poder da semente (1)

Já pensaram na capacidade de uma coisa tão pequena que pode se transformar em algo tão grande, colorido e frutuoso? Quando se olha não se imagina a que tamanho chegará, o aspecto, nem os frutos que proporcionará. Quando vemos o seu tributo final, esquecemos de onde partiu. Só lembramos quando vemos que maravilhosa obra se cumpriu e queremos que de novo se repita, então voltamos a semente, pequenina e poderosa.

Está tudo ali, armazenado, quieto, dormente, só esperando uma chance de explodir, e se transformar em vida. A capacidade da semente em gerar mais vida, está além do fruto, está em gerar novas sementes. A partir de uma única, tantas outras podem surgir, se dividir e continuar a sua missão de mudar, de transformar. Mas para isso é preciso começar, passar da intenção para ação.

Umas das lições mais incríveis que a semente nos dá, é que para se transformar em algo, tem que se abandonar, entregar-se, morrer para germinar. Assim muda de forma e se transforma em algo maior, útil, que serve a todos, enfim se torna imprescindível.

E vc semente, está pronta para mudar?

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O fim da luz de Luiz



O fim da luz de Luiz.

Era de manhã, passei vi aquele homem sentado na calçada, Nada demais alguém se sentar na calçada. Rua tranqüila, poucos carros parados. Cotovelos apoiados nos joelhos segurando a cabeça grisalha e meio calva, magro, bem vestido. Parecia esperar, não sei o que ou quem, mas esperava. Dava essa impressão.
Passei de volta na hora do almoço e lá estava ele. Passando pelo outro lado da rua, podia ver seu rosto cansado, o olhar perdido, distante. Voltei do almoço e vi ainda estava no mesmo lugar e que tinha encostado no poste logo atrás de si, cochilava. 
No fim da tarde, voltando pra casa, lá estava ele. Cabeça baixa, parecia esgotado, murmurava algo, e balançava a cabeça de forma negativa, como se estivesse lembrando de algo que reprovasse.
Parei para falar com ele. Abaixei ao seu lado e perguntei se precisava de alguma coisa, se estava tudo bem. Ele me olhou por um tempo, desviou o olhar para o chão e disse, não sei. Olhou de novo na minha direção, mas parecia não olhar pra mim e disse : Eu não estou lembrando de muita coisa, estou meio perdido, me sentindo vazio, como se tivesse alguma coisa pra fazer e não lembro o que é, ou algum lugar pra ir que não sei onde pode ser. Nem sei se estou esperando alguém. Baixou os olhos novamente e ficou em silencio.
Perguntei se tinha família, ele disse que sim, mas só lembrava do nome da filha, Elisa. Disse se chamar Luiz, que era contador.  Mas que não tinha certeza disso. Perguntei se tinha algum documento ou algo nos bolsos que ajudassem a localizar alguém da família ou o endereço. Tira do bolso da camisa um cartão do banco, algum dinheiro, e um documento de identidade. Nada que ajudasse muito. Perguntei se estava com fome ou com sede, disse que sim. Fomos ate a lanchonete que estava logo atrás de onde passara o dia, sentamos e pedi algo para comer e beber. Precisei conduzi-lo pela mão, estava sem iniciativa. Conversamos um pouco, mas não disse nada que acrescentasse, que ajudasse a localizar sua família ou saber da sua história. Lembrava da filha, descreveu ela com riqueza de detalhes, da voz calma e afetiva, do cabelo cacheado castanho claro e comprido. Dos olhos claros, da pele morena e de ser graciosamente baixinha. E que cuidava dele com muito carinho. Enquanto falava seu rosto ia se alegrando, se abrindo, trocando as rugas da tristeza pelas do sorriso e de ma felicidade fugaz. Mas logo se apaga, volta a expressão de tristeza e de vazio. Pergunto se não tinha mais nada nos outros bolsos, com dificuldade tira papéis amassados de propaganda, desses que se entregam na rua, algumas balas, elásticos de borracha, moedas e do outro bolso surge um celular....ufa que alegria a minha. O celular não lhe dizia nada, não significava um elo de conexão com a família.
Tentei ligar o aparelho, mas sem sucesso, estava sem bateria. Corri pro garçom que trouxe um carregador, e assim, com o mínimo de carga na bateria, o celular ligou e uma chuva de mensagens chegaram. Eram da filha do Sr Luiz. Ainda com o celular ligado a tomada, liguei pra filha e indiquei onde estávamos. Ela muito preocupada, dizia estar, desesperada, quis saber do estado do pai, informei tudo o que tinha acontecido e ela se pôs a caminho.
Avisei ao Sr. Luiz que tinha conseguido falar com Elisa e ele se mostrou mais alegre, ficando mais atento a tudo que nos rodeava, ainda com olhar vago, mas estava mais animado. Ofereci mais alguma coisa para comer e ele disse não saber se queria. Pedi assim mesmo e ele comeu e bebeu com satisfação.
A filha finalmente chega. Era de fato como ele descreveu com detalhes. Moça bonita, jovem, postura de quem parecia ser firme, decidida. Chegando ao lado do pai, colocou a mão em seu ombro delicadamente. Ele olhou pra ela e por uns instantes ficou sem reação, mas em seguida sorriu, levantou e a abraçou. Se abraçaram, e se embalaram um nos braços do outro. Até que ele começa a chorar aos soluços. Ela o acalma, deita a cabeça do pai em seu ombro e o consola como a uma criança. Ele se acalma e ela o põe sentado. Ela de frente para ele, com as mãos dele entre as suas, pergunta com carinho se ele esta bem, se ele lembra dela e do que aconteceu. E ele só abana a cabeça negativamente, e diz, só me lembro de vc. Choramos os três. Ela se vira em minha direção e conta que há 8 meses o pai vem tendo apagões de memória. E que ela tem feito de tudo para não tirar a autonomia dele, enquanto fosse possível. Ele olha pra ela como se tivesse recobrado a memória e pergunta: Essa é aquela hora que combinamos filha? É sim pai, sinto muito. Ele baixa os olhos e as lagrimas que escorrem dos seus olhos começam a molhar a mesa. Chora como se sentisse uma dor profunda, um uivo baixinho sai da sua garganta. O choro enche de som o ar, fazendo que todo o ruído do ambiente diminuísse, as poucas pessoas que estavam na lanchonete parecem entender o momento e baixam a voz, se calam, os olhares se solidarizam. Elisa conta, que combinaram, que quando ele se colocasse em risco ou se perdesse ele teria que aceitar ter alguém sempre por perto, que não poderia mais sair sozinho, e que a casa teria sempre que ter uma funcionária. Ele tinha relutado com essa idéia por muito tempo e dizia que não ia admitir tal coisa. Pois não estava ruim da cabeça e que não precisaria. Mas naquele instante a consciência, a razão da sua condição se revela com uma dureza inevitável, pungente. Como se a razão lhe atingisse em cheio e provocasse uma dor sem fim, sem que o consolo chegasse. Choramos juntos eu e Elisa ao ver sua desolação. O garçom que de inicio estava curioso, rondando a cena, agora enxuga as lagrimas na manga do paletó branco do uniforme. Torce o pano de mão como se tentasse  transferir para o pano sua tristeza. Fica cabisbaixo e a distância com olhos vermelhos e as vezes se sacudido por dentro para segurar o choro. 
Elisa consola e acalma o pai, ajuda a se levantar, se despede de mim com um abraço e sai levando o pai pela mão. De novo o olhar vago toma conta do seu rosto, mas segue sem questionar a filha que jamais saiu da sua lembrança.
Dias depois o garçom me para na rua para devolver o celular que fora esquecido. Disse não ter entregue antes pois não me viu passar e que não teve coragem de ligar pra filha do Sr Luiz pra devolver o celular. Disse ter ficado tão comovido com a história que tinha receio de começar a chora quando ligasse. 
Liguei no dia seguinte para a filha do Sr Luiz, ela me conta que há dias ele não reage. Só come com ajuda, não se cuida sozinho. Esta praticamente em estado vegetativo. Olhos abertos, embaçados, vazios. Como se aquele corpo não fosse mais o seu pai.
Era só um corpo. Estava sem luz, nem era mais Luiz.

sábado, 19 de agosto de 2017

Os desafios de uma vida. Os desafios de Caio.

Não é muito comum eu ir ao hospital visitar o berçário. Uma amiga enfermeira pediu voluntários para ficar com crianças recém nascidas que estavam muito tempo sozinhas ou abandonadas, ou que tinham algum tipo de deficiência ou problema, enfim. Eu fui. Meio sem jeito, mas alguma coisa me levou até lá. Até estranhei ter aceito o convite.
Quando cheguei, a enfermeira me entrega uma criaturinha pequena, parecia ter alguns dias de vida. A mãe tinha falecido no parto, o pai não tinha sido encontrado, sem familiares para contato. Ao que  parece, isso acontece muito.
Para quem vai ser voluntário, a única informação a respeito da criança é o nome e a idade. Nada mais importa.
Por sorte, o pequenino não chora, abre os olhos, se espreguiça, tenta olhar ao redor, mas a cabeça ainda pesa muito. Mesmo assim tenta manter a cabeça elevada apesar dos músculos não darem o apoio que necessita. Tomba novamente no meu peito. Vira a cabeça para um lado, vira para o outro e fica olhando para o vasio, para o além, um olhar perdido, sem foco. Mas de testa franzida, como a de quem se esforça para ver. Por fim adormece.
Então só me resta fazer companhia para aquela criaturinha e pensar na vida, na sua fragilidade. Pensar em ser, em ter, no que tenho e no que sou. Na insignificância dessa existência. E no futuro desse menino. Acabo por dar umas cochiladas. Sentado em uma cadeira com muito pouco conforto, chego a dar umas “cabeçadas”.
Desperto com alguém me chamando pelo nome que de inicio não reconheço, mas aos poucos, fica mais clara a imagem da pessoa. Mãe de um paciente que atendi poucas vezes, de apenas alguns meses, muito magrinho e era visível que tinha algum tipo de lesão neurológica. Desidratado e desnutrido, tudo ia tão mal naquele momento, que sua vida corria perigo. Mas as dificuldades da mãe não eram poucas. Tocar, sim, o toque, era um ato quase mecânico e de pouco significado afetivo, era só para trocar e alimentar. O resto do tempo, ficava só no berço ou no colo de outras pessoas da família. A mãe não entendia o que dera errado com o filho. Não era um sentimento de rejeição, mas de negação da condição da criança. A culpa por ter feito algo que levasse seu filho àquele estado a consumia. Além disso, a falta de informação e a demora para ter acesso ao serviço foram um agravante para a saúde do menino.  Na época fiz os encaminhamentos e foi internado. Volta algum tempo depois para tratamento. A lesão cerebral era grave. Nos primeiros dias em que a mãe percebeu alguma melhora, vem para o atendimento muito assustada. Tento entender o motivo da sua inquietação e ela me diz com espanto que ele estava sorrindo, se era normal. Segundo a mãe, agora ele sorria, quando estava sendo alimentado, no colo ou vinha para a estimulação. Mas por uma triste coincidência, estava internado novamente. Era muito frágil e suscetível a infecções respiratórias e intestinais. A mãe me coloca a par de uma longa cadeia de acontecimentos até aquela data, pois fazia algum tempo que não os via. Ela estava mais à vontade com o menino, tinha resgatado o afeto na verdade adormecido ou esquecido por detrás da tristeza que estava vivendo. Tudo tinha passado. Dizia-se e reconhecia-se amorosa, carinhosa, conseguia ter uma fala afetiva, gestos de carinho. Chegou a dizer que era outra pessoa. Agora, de fato, era mãe desse menino, que se chamava Caio.
Ela se dizia temerosa porque desta vez a internação de Caio ia longe demais, já estava internado há uma semana, com pneumonia e seu quadro era grave. Os antibióticos não estavam resolvendo muito, ele não estava respondendo mais aos estímulos que ela provocava, estava murchinho, palavras dela. Angustiada me perguntou: “Será que  agora que eu consegui amar e  entender meu filho, a vida vai levar ele de mim?” O que se diz para uma mãe numa hora dessas?
Dias depois sou convocado para mais uma vez emprestar meu colo para os bebês que estavam internados. A enfermeira me fala da diferença que isso faz no desenvolvimento deles, que o contato estimula de forma positiva inclusive na melhora da imunidade.
Fiquei sabendo que a mãe do Caio não aparecia para vê-lo há alguns dias e não se sabia o motivo. Neste dia fique com dois ao mesmo tempo, Caio e Ele, o menino que ainda não tinha nome. A sua identidade era uma pulseirinha onde se lia “Rn de Fulana de tal”.  Segundo a enfermeira eles só precisavam ganhar peso. Duas criaturinhas esquálidas, frágeis, lutando pela vida dia-a-dia.Naquele momento, de alguma forma dependiam de mim do meu calor, das batidas do meu coração. Desconhecido, mas que lhes dava algum conforto ou consolo.
O ambiente inóspito do hospital pareceu desaparecer. Parecia que só existíamos nós três. Ali, em plena comunhão de corpos. Peles enrugadas, movimentos incertos, futuros igualmente incertos. Só restava manter o esforço automático de respirar e o pulsar dos corações.
Era curioso ver aquelas duas cabecinhas carecas uma ao lado da outra. Eram praticamente só cabeças. Às vezes, olhos se abriram e fechavam, as cabeças mudavam de posição.
O que soube daquele outro ainda sem nome, pagão para a vida, é que de fato ainda não tinha ninguém por ele, nasceu só e pelo visto continuaria só. Seria o destino de uma vida. Tão inocente, indefeso, sem escolhas, vulnerável. Mas acima de tudo, tristemente só. Isso me doía. Sentia, compartilhava da sua solidão de alguma maneira. E ali estavam dois desconhecidos com sorte incerta, futuro duvidoso. Era curioso vê-los um de frente para o outro O que será que pensavam quando se viam?
Enfim acaba meu turno com os meninos. Foi difícil deixá-los e imaginar que ficariam ali, sem ninguém que os acarinhasse, desse colo, embalasse seu sono e socorresse seu pranto. Deixei muito de mim naqueles dois, não podia ficar, mas ao mesmo tempo não queria ir.
Na semana seguinte encontrei com a mãe do Caio, que me contava animada que o menino tinha saído do hospital, estava em casa e bem. Contou tambem que soube que eu tinha estado no hospital nos dias que ela não pode ir e que tinha achado interessante eu ter ficado com os dois meninos e quis experimentar. Na sua simplicidade, conta da emoção que sentiu quando teve os dois ao colo e que não conteve o choro quando o “outro menino”, lhe procura o peito para mamar. E ela que se dizia “seca” , jorrava em leite, em uma quantidade surpreendente, do leite que nunca teve nem para o filho. Emocionada, conta que aquele momento mexeu com ela de uma forma, que não conseguia explicar. Não podia se imaginar mais sem aquele menino, não era possível pensar em separar esses improváveis e já naturais irmãos. Dizia ela essas coisas todas com lagrimas escorrendo sobre a pele morena e lustrosa. Uma emoção que mostrava um choro alegre, realizado, parecia satisfeita, plena. Às vezes levava a mão à garganta, como se um nó precisasse de ajuda para se soltar. Tinha a voz embargada, tremula e isso tornava aquele momento ainda mais peculiar, mas não a impedia de falar. Por fim me conta que tinha a guarda provisória do pequeno e certeza de que ele continuaria sendo seu pra sempre. Já estava com ele em casa. O menino agora tinha um nome e sobrenome.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Ele podia se chamar Pedro ou João, mas se chamava Conceição

Ele podia se chamar Pedro ou João, mas se chamava Conceição


Ele podia se chamar Pedro ou João, mas se chamava Conceição, sim isso mesmo, seu nome era Conceição José. Tinha uns 8 ou 9 anos, imagino, ainda não tinha certeza. Pequeno e franzino tinha uma energia e uma facilidade para abordar as pessoas que me desconcertou.
Moro em uma cidade pequena, dessas onde a gente ainda para na rua para conversar com as pessoas. Estava parado, tinha acabado de me despedir de uma amiga. Quando me virei para continuar minha caminhada, ele chegou, saindo não sei de onde, com uma caixa de engraxate sentou na minha frente segurou na barra da minha calça e disse: Pode por o pé que hoje tem desconto. Foi tão de repente, que quase cai por cima dele. Olhei para os meus pés, e vi que estava de sapatos, quase não uso, prefiro tênis, chinelo, afinal moro na praia. Preso, não tive escolha. Só me restou perguntar quanto. Três reais. Tenho troco. Ele disse. Agora só faltava um lugar para sentar.
Ele falava sem parar. Falava de tudo. Da concorrência. De pouca gente que usava sapato de couro. Falava com orgulho de sua clientela. Ele me dizia que todo dia tinha trabalho e que seus fregueses, donos de algumas das lojas do centro da cidade separavam os sapatos da família, toda semana para ele engraxar. Alguns nem precisavam fazer nada, ele contava: “É só dar brilho”. As vezes passava o dia engraxando. Disse também que ganhava em “média”, palavra dele, mais ou menos R$ 30,00 reais por semana, e dava tudo para a mãe, que estava desempregada.
De vez em quando acenava para um passante da rua, que eram conhecidos meus também, mas que só tinham olhos para ele, aquele molequinho! Chamava todos pelo nome ou pelo apelido.
Hora recebia o convite para mais serviço, outra um cumprimento do tipo: “fala Conceição”. Como ele era conhecido! E eu que havia nascido na cidade, não conhecia tanta gente.
Ele falava tanto, que não deixava tempo para que eu perguntasse nada. Ele sufocava, com o seu palavrório de “menininho grande”. Quando estava diminuindo o falatório, que não era desagradável, muito pelo contrário, era até muito interessante, jogou a escova pra cima com a mão direta, aparou com a esquerda, fez uma batucada com a latinha de cera e disse: “Feito. Dinheiro na caixinha tio”. Enfiou tudo na sua caixa de madeira, soltou a barra da minha calça que havia prendido para que não manchasse de graxa, e pediu para que eu olhasse como tinha ficado bom. Tinha orgulho do que havia feito. Gostei, disse pra ele. E perguntei que se quando ele não estivesse muito ocupado, não queria passar na minha casa para engraxar outros sapatos. O lugar ele encontraria sem problemas.
Paguei, dei uma nota de R$ 10,00 Reais, ele olhou pra mim, olhou para a nota, coçou a cabeça, enfiou a mão na caixa e tirou uma sacolinha, dessas de supermercado. Contou, contou as moedas e notas que tinha ali, olhou para mim novamente e disse desconsolado: Faltam dois e cinqüenta. Essa engraxada é a primeira de hoje, disse meio sem jeito. Vou ali trocar, disse, quase sem pensar. Disse que iria com ele, não por desconfiança, mas por curiosidade.
Era engraçado o contraste entre nós dois, não sei porque isso me chamou a atenção.  Ele era miúdo por fora, mas parecia grande por dentro. Um projeto de homem. Andava seguro de si, olhava pra frente enquanto andava. Postura ereta, orgulhoso de sua caixa de madeira encardida.
Chegamos ao bar do outro lado da rua. Entregando a nota para o dono do bar pediu para trocar. O Dono do bar sem pensar muito, disse que não tinha troco, não sei se por má vontade ou porque de fato não tinha mesmo. O menino não teve dúvida e disparou com descaso para o homem. Cobra um salgado e da sete de troco por tio, que era eu, que o dinheiro é dele. O homem do bar olhando para o garoto com ares de pouco caso, olha pra mim, eu concordo com a cabeça.
Salgado servido, eu também pedi um café sem vontade de toma-lo, só pra ficar um pouco mais na companhia dele. Finalmente ele para de falar. Só percebi isto porque se fez um vazio muito grande entre nós. Percebi que está era a grande chance de saber mais sobre este garoto. E não perdi a chance. Só foi preciso fazer a primeira pergunta. Ele não se fez de rogado, desatou novamente a falar, só que com fome, entre uma mordida e outra, se calava e eu podia perguntar algo que ele ainda não havia me contado.
Fiquei sabendo que era migrante do sul de minas, tinha dois irmãos e uma irmã. A mãe estava desempregada a vários meses, o pai também. Na verdade ele não era filho deste pai e sim de um outro que abandonara sua mãe quando ele ainda era bebê. Falou ainda que “ele” bebia muito e que batia em todos, principalmente na mãe. Disse que morava em um barraco de um cômodo só, em um bairro reconhecidamente pobre e violento da cidade. Perguntei se ele não queria tomar nada, ele respondeu que se fosse tomar uma coca iam faltar 40 centavos. Ou seja, estava pedindo para que eu inteirasse. Concordei, e ele chamou um outro rapaz que servia o balcão e foi atendido.
Até ai sua fala foi sem emoção ou qualquer tipo de sentimento, era como se estivesse fazendo um inventário de sua vida, “contando suas coisas”.
Então veio a pergunta que fez toda a diferença: E a escola, a que horas você vai, em que ano você esta? Ele estava com a cabeça levemente inclinada para baixo, levantou a lentamente como se eu tivesse muitos metros a mais que ele. Quando parou, me olhava de baixo, com a boca meio aberta e ainda cheia e do que estava comendo. Perdeu a pose. A pergunta lhe fez mal. Tentando se recompor, levantou as costas que estavam arqueadas, tomou um gole do refrigerante que pediu para ajudar a descer o salgado e a pergunta, e me disse como se não se importasse. Não vou mais, é muito chato. Você sabe ler?, perguntei. Incrível, parece que dei o tiro no garoto, foi o fim. Me senti mal, sem querer desmascarava aquele falante cheio de pose, de empreendedor bem sucedido aos 9 anos. O curioso é que ele de fato era bem sucedido, mas tinha seus segredos, todos tem. Então fiquei sabendo o que ele escondia, porque falava tanto. Se falasse muito não permitiria que eu perguntasse nada. Mas foi vencido, quando estava de boca cheia.
E o que aconteceu em seguida se passou assim: Como se calou com a pergunta que fiz, se sabia ler ou não, fiquei quieto respeitando, seu desconcerto. Então ele respondeu: Estava no segundo ano e não sabia ler nem escrever. E que não tinha nada legal para fazer na escola. Quando perguntei se a merenda era boa, ele disse que sim, mas que era tão chato, que nem pela merenda valia a pena ir na escola. Fez se um silêncio doloroso entre nós, além dele eu também estava constrangido. E a professora era legal? tentei consertar. Que nada, respondeu. Era bravona. A do “prezinho” era legal, a gente cantava, tinha hora que podia brincar, tinha hora que podia falar as coisas que aconteciam, eu até lembro das brincadeiras que ela fazia, tinha uma do “saquinho” que ela escondia as coisas pra gente descobrir o que era só apertando, que era da hora. Eu não vou mais lá. Minha mãe briga pra eu ir, mas não vou não. Quando eu levo o dinheiro de engraxar, ela não fala nada, ela até fica boa comigo, me leva junto pra comprar as coisas e pra ajudar a carregar a sacola. Eu gosto de ir junto. A conversa ia bem, ele parecia estar à vontade para falar, mas o que eu não esperava veio a seguir. Então ele disse: Mas eu não tenho jeito mesmo, eu sou burro. Senti um soco no estômago. E não pude evitar a pergunta que saiu quase sem pensar: Porque você acha que você é burro? Ao que ele respondeu. É que eu não aprendo, já te falei, eu sei disso, reforçou. A professora também já disse, que eu sou burro. Você tem certeza? Perguntei sem acreditar. É, falou sim!!! ele garantiu. Minha mãe também já disse isso, e as duas falaram do mesmo jeito.Como assim, perguntei. Ele respondeu, gritando oras. E ele imitou: VOCÊ É BURRO MESMO MENINO, NÃO APRENDE NADA, NÃO PRESTA PRA NADA.
Pronto, ele acreditava que era burro, também pudera, as duas pessoas mais importantes para ele tinham determinado isso. Ele era. Não tinha mais jeito, era isso que ele sentia. E eu, estava ferrado, não tenho outra palavra. Como eu ia embora deixando esse menino nessa situação. Um garoto tão inteligente, acreditando para o resto da vida que era burro, talvez a sorte lhe reservasse um alguém ao longo da sua vida que lhe ajudasse, mas não podia deixar de fazer alguma coisa naquela hora, por menor que fosse. E eu tentei.
Perguntei pra ele o que é ser burro. Ao que ele me respondeu que era alguém que não aprende nada. Que mais, insisti. Ele pensou um pouco e acrescentou que é alguém que ia mal na escola, que não sabia fazer nada do que a professora “mandasse”. “Tem gente grande que é burro?”, perguntei procurando uma saída, e ele me respondeu sem pensar, não, gente grande não é burra. Gente grande sabe fazer as coisas, trabalha, tem as coisas. Sua mãe sabe ler e escrever? Ele disse que não, só o nome, e escreve mordendo a língua é engraçado. E o marido dela, esse que mora com vocês, ele sabe escrever. Nem sei, nunca vi ele ler ou escrever nada, não tem nada pra ler lá em casa, e ele é tão burro que não faz nada o dia todo, só sabe beber pinga e bater na gente. De repente algo se acendeu em seu rosto, ele me olhou com os olhos arregalados e pareceu que havia entendido algo que não sabia ainda bem o que era, mas não disse nada.
Perguntei se o cara que atendia no balcão tinha dado o troco certo. Estava sim, respondeu. Então ele sabe fazer o troco direitinho. Então ele não é burro, reforcei, ele concordou.  Era interessante em ver como ele prestava atenção no que eu dizia. Parecia que algo se enchia dentro dele, algo estava mudando enquanto eu falava estas coisas.
Se eu entendi o que você falou, então quem trabalha não é burro, quem é grande também não. Quem sabe fazer troco como o rapaz do balcão também não. Então como você me explica se você sabe fazer troco, você calculou quanto ia me dar de troco. Lá no bar você sabia quanto dinheiro faltava para inteirar o refrigerante que você queria. Você trabalha para sustentar a mãe e os irmãos com 120,00 reais por semana, o que era um salário de quem trabalha “fichado”, e na sua casa sua mãe e o marido dela não trabalham nem sabem ler, como é isso? Fiquei com receio de que ele fosse embora, de que o tivesse apertado muito, exigido demais dos seus nove anos, ele não precisava ouvir nada daquilo, afinal, ele era muito livre para se prender a um estranho.
Algumas vezes ele me olhava diretamente nos olhos, bem rapidamente e logo desviava. Nestas horas tinha a impressão de que ele me pedia algo, seus olhos desejavam alguma coisa, nada material, mas algo que eu fizesse por ele. Era como se dissesse “Fala aquilo, fala aquilo. Isso. É, é quase isso.
Senti que ele não sabia o que dizer, não tinha uma frase feita como os adultos, que sempre arrumam uma para se sair das perguntas ou situações difíceis. Temi que ele não conseguisse elaborar tudo o que falei, achei que tinha sido muito adulto com ele. E ele se saiu com essa: É que eu só sou burro na escola, eu só não sei ler e escrever. E agora, o que é que a gente fala nestas horas, tive um suadouro danado pra pensar no que falar. Não queria apelar para “conversa de gente grande”. Só me restava desafia-lo. E então sugeri a ele que desse uma chance a professora.  E ele, como era de se esperar, não entendeu nada. Como assim, perguntou sem acreditar. Eu é que tenho que dar uma chance pra ela?!?!?! De que jeito? Perguntei a ele quantos alunos tinham na classe e ele me disse que mais de trinta. Então tentei explicar pra ele que talvez a professora não o conhecesse direito, que no meio de tanta gente talvez estivesse nervosa e sem paciência, e que ele poderia provar pra ela, que era muito mais “capaz”e eu troquei  a palavra de propósito, do que ela imaginava.  Ele pensou um pouco, olhou pra mim meio sem jeito, parecia que iria fugir da proposta com um, “tudo bem”, e iria embora, sem se importar de verdade com aquilo que lhe falei. Mas esperava que funcionasse. Forçando um pouquinho a barra: arrisquei, - Até quando você vai ficar engraxando sapatos na rua? Você quer fazer isso sempre? Ou quando crescer quer fazer outra coisa para ganhar mais dinheiro, e as coisas que você quiser comprar?. Se for assim vai precisar saber alguma das coisas que a professora vai te ensinar na escola. E eu acredito que se você voltar lá e der uma chance pra ela te conhecer melhor, fizer menos bagunça, ajudar ela com os outros amigos, você aprende e pronto. Ele sorriu, e disse: é ela precisa de outra chance, né?!. E foi embora com a caixa pendurada nas costas, sem dizer mais nada. Da calçada, como se lembrasse de algo, virou pra mim e com um sinal de positivo disse. Valeu tio. E continuou.
Encontrei o jovem Conceição, indo para escola algumas vezes, mas nunca falei com ele. De banho tomado e cabelo penteado cheio de gel que até destoava do seu jeito. Me fazia um tchauzinho de longe meio sem graça, sem me olhar muito. Parece que voltar a escola lhe devolveu a meninice que lhe era própria para a idade. Parecia ter voltado ser criança. Por onde andará o Conceição.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Só um golinho dˋágua.

Viajando de ônibus. Viagem longa. Parti a tarde, só chego a noite. Duplas de estranhos dividem das gratas companhias, as vezes indesejáveis. Gordos demais, fedidos demais, roncam demais. E segue a viagem. Inicio da viagem, sobem mais alguns passageiros, gente que se ajeita, bagagem que se acomoda, até que tudo se acalma, Entre um cochilo e outro, observo a dupla a minha direta, logo a frente. Parceiros desconhecidos, seguiram nessa aventura em momentos diferentes. Dormiam. Roncavam. Eis que o passageiro sentado no corredor, acorda, se espreguiça, olha em volta, e lentamente....pare a cena e imagine tudo em câmera lenta .... segue a cena... estica o braço em direção a garrafa d'água do outro, pega devagar, abre com cuidado, da um gole, limpa a boca, fecha, coloca no lugar procurando não fazer barulho, e finge dormir.
Instantes depois o outro, o dono da água,  acorda com uma tosse catarrenta, daquelas que vem do fundo da garganta, aquela tosse escandalosa e produtiva, que provavelmente desculpem a nojeira, terminaria naquela cusparada catarrenta. O escândalo foi tanto que quase acorda o ônibus todo. O dono da agua, avança para a garrafa recém devolvida, toma toda água, e emite aquele aahh de satisfação. O que tomou da água alheia, imediatamente se levanta e vai correndo ao banheiro, de onde se ouviam muitos ruídos estranhos. E segue a viagem.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Pega ladrão ?!

Essa história poderia começar assim: Em uma pacata cidade do interior paulista.....
Estava esperando a carona que ia me levar pro aeroporto, e desci pra esperar na porta do prédio. Era uma rua calma, típica de cidade de interior. Um bar na esquina a minha direita, duas casas de moradia na sequência. Bem em frente onde estava um açougue. Em frente ao açougue duas senhoras conversavam calma e tranquilamente. Uma delas segurava um cachorrinho pela coleira e na outra mão uma sacolinha meio cheia, junto com a coleira segurava uma bolsinha preta. A outra senhora de costas pra rua conversava animadamente com a outra senhora que parecia ser sua amiga. Falavam, gesticulavam, riam, tocavam uma na outra pra contar algo mais sigiloso ou "fofoquento" rs. Eis que do nada surge um moleque vindo da esquina correndo alucinado. Passa entre as duas senhoras e quase derruba a que estava segurando o cachorro, que perde o equilíbrio, e pra não cair se escora no muro que estava atrás de si. Assustadas e nervosas gritam e esbravejam levantam os braços como se fosse bater em alguém que estava por ali. Atravessei a rua pra falar com elas, e ver se estava tudo bem. Ficaram contando e repetindo o acontecido várias vezes. E começam a reclamar da violência, da falta de segurança e a falar que isso é desespero das pessoas sem emprego.  Perguntei se tinham levado alguma coisas delas, e percebi que a sacolinha não estava mais na mão dela. Pois é meu filho, disse ela, levaram a sacolinha onde estava o coco do meu cachorro. Eu levo ele pra passear e fazer necessidades, mas não deixo cocô no chão. Mas estão roubando até o cocô do cachorro, terminou ele indignada.
Se está ruim, sempre pode piorar.

Lanchinho agitado

Escuta essa, digo, leiam essa história.
As coisas acontecem e a gente nunca acha que vai passar por certas situações ou estar perto de algumas delas.
Estava tomando um lanche em uma padaria de esquina em São Paulo. Demorei pra achar um lugar legal pra comer, e tinha esta lanchonete e pastelaria. A Barca. Não sei porque do nome. Recomendo o americano e o omelete com fritas.
Mas, o começo desta história, o fato ocorrido é típico de bar e ou lanchonete de esquina. Bêbados chatos e moleques sem noção, o que tem em todo lugar. Sentei de frente pro balcão nos fundos da lanchonete. O lugar é pequeno. Ao lado de onde estava sentado, a minha direita, uma mesa pequena encostada em um vidro que mostrava a rua.
Fiz meu pedido, e fiquei de conversa com o chapeiro e o copeiro. Na minha frente do outro lado do balcão, perto da entrada e do caixa estava o nosso primeiro personagem, um rapaz completamente embriagado. O chapeiro e o garçom me contavam que era um profissional muito competente e respeitado que trabalhava com acabamento de madeira em residência, ou coisa assim. Mas que aos sábados fazia uma via sacra entre os bares daquela região e terminava ali. Até aí, era só mais um bêbado de padaria. Passado alguns minutos, entram três caras no melhor perfil moleque bombadão de academia. Hipertrofia em baixo, atrofia em cima, acho que da pra imaginar. Até aí, normal. E eu ali esperando o meu lanche, assuntando com o garçom e o chapeiro. Eis então, que entram duas moças muito bonitas e arrumadas. Pelo vidro deu pra ver quando saíram de um barzinho na esquina oposta, atravessaram a rua entraram e sentaram na mesa que estava a minha direita, nos fundos da lanchonete. Pediram alguma coisa para comer e ficaram conversando. Aí os personagens desta história começam a interagir. Os três "pityboys" provocaram o rapaz que estava de fogo a ir mexer com as moças. E assim era a cena, ele ia, e elas despachavam o cara na moral e até com certo bom humor, isso por várias vezes.  Mas, os babacas que estavam provocando o bêbado começaram a apelar e a falar alto, baixando o nível da conversa, dizendo pro bebum chamar elas disso e daquilo. E falando alto um monte de coisas, que em certa altura, chegaram ao nível do intolerável. Que na minha opinião já tinha passado do tolerável fazia tempo. Foi quando eles disseram, "vai lá e passa a mão na gostosa". Antes que o nosso primeiro personagem pensasse em fazer alguma coisa, as duas se levantaram da cadeira ao mesmo tempo e tiraram da cintura, mas atrás das costas, uma pistola cada uma. E apontaram pros moleques. Agora , congela a cena.....duas moças aparentemente indefesas, sacam duas automáticas e estão em posição de tiro. Segue a cena, o bêbado cai de costas em cima de uma pilha de carvão que estava encostado no caixa, os babacas ridículos, não tem outra coisa pra chamar esses caras, se escondendo, tropeçando um no outro e se estabacando na geladeira atrás deles. E as meninas dizendo com uma autoridade que não parecia sair delas: VAZA!!! Na hora senti que algo escorreu pelas minhas pernas, sim nas duas. Não sabia se era o meridiano da bexiga tendo um ataque ou era coisa mais líquida, e o suor descendo. O garçom e o chapeiro se afundaram no balcão, o caixa idem, e os babacas gritando "PELAMORDEDEUSMINANUMFAIZISSO" (coloca um sotaque paulistano nisso que vc vai entender como era). E elas repetiram mais uma vez VAZA!!!! Quando eles iam saindo, um se arrastando de costas no chão e os outros dois um se escondendo atrás do outro, elas gritaram, VOLTA E PAGA A CONTA SEU BABACA. Eles jogaram uma nota pro rapaz do caixa, e foram embora. O bêbado sumiu, não sei por onde ele saiu. As moças enfiaram a pistola no coldre que estava nas costas, sentaram e continuaram a tomar o lanche. E eu estava em dúvida em como fazer pra levantar dali. É cada uma que me acontece.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Josephine - A descoberta da felicidade pode ser dolorosa.

Acordo de um sono mal dormido, no meio da madrugada. Frio, chuva fina, estava em um acampamento para ver um fenômeno natural. Nada feito, chuva, neblina, vento, frio e um bando de doidos acampando no alto de uma montanha. Ninguém dava o braço a torcer, ficaríamos ali. Ficamos. E nos lascamos.
Acordado pela dor que atormentava todas as partes do corpo e pelo chão duro, tentei achar uma posição naquela barraca, que já não balançava tanto com o vento forte. Acomodando os sentidos começo a perceber os ruídos do entorno. O vento fraco, garoa fina batendo na lona, pessoas rindo ao longe. Alguns passando perto da barraca. Nada chamava a atenção. Meio dormindo, quase acordado, a dor no corpo vai se acomodando e passando para outras partes menos doloridas, tento me acertar de novo, e me acalmo. Não sei quanto tempo depois, acordo com vozes, duas amigas conversando. Não conseguia avaliar há quanto tempo estavam ali conversando. Com certeza, na barraca ao lado. Não falavam alto, mas a direção do vento e o tom de suas vozes, traziam a conversa ate mim.
Parecia que a conversa já estava adiantada quando acordei com as vozes. Tentei não ligar, afinal queria dormir e que a noite acabasse logo. Pq deitado naquele chão duro, estava cada vez mais difícil. Tentando esvaziar a cabeça dos pensamentos e do desconforto, a conversa praticamente caia direto, no centro da minha atenção ou da minha barraca. Não tinha saída, me pus a ouvir. Tbem não ia mandar calarem a boca. Não me ocorreu, ou não tive coragem quando ouvi a frase de uma das moças que parecia desabafar. “preferia não ter descoberto a felicidade, assim sofreria menos”. Opa!! Isso me despertou, quase sentei.
A curiosidade bateu, afinal é uma frase de efeito, e na impossibilidade de dormir parecia que o tema era bem interessante.
Chegam mais duas amigas e perguntam o que está acontecendo, e é ai que tudo começa.
A protagonista desta história, que aqui chamo de Jose, começa a contar para sua amigas que tinha encontrado a felicidade, a reação das amigas veio de imediato – Que estória é essa!? Está de lua de mel com o marido? Descobriu algo novo nele depois destes anos de casamento? Alguém ataca de forma mais incisiva, tá de caso com alguém sua louca? Todas riem e falam ao mesmo tempo um confusão que não se distingue nada do que dizem, enfim se acalmam.
- Pois é, continua Jose, aconteceu. Era um estranho, se tornou amigo, mas sempre tinha um algo mais no ar, que não sabia o que era, não sabíamos o que aquele sentimento significava. A amizade se fortaleceu, o carinho ficou evidente no dia a dia, na convivência, na preocupação um com o outro. A ponto de ligar pra saber se a dor de cabeça tinha passado, se tinha dormido bem, se aquele projeto do trabalho tinha dado certo. Cuidado com as preocupações cotidianas. Percebi que é isso que mantem as pessoas juntas, que fortalece a relação, o interesse de um pelo outro. Mas vc não tinha isso com o Fulano ? perguntou uma delas. O dia a dia leva a gente pra uma vala comum, onde todas as coisas parecem iguais e sem importância, ou que parece que tudo esta sub entendido, dito sem dizer, e tudo acaba ficando sem ser percebido, falado. Aquela fase do “eu achei que vc tinha entendido”, “achei que vc tinha dito”, “achei que vc soubesse”, e assim as coisas deixam de ser vividas, sentidas compartilhadas.
Mas e ai sua louca, rolou aquela noite de sexo selvagem com o bofe?! Não, não Fulana, relações não são apenas sexo, são também sexo. A questão não é essa, a questão é carinho, cuidado, atenção com o outro e sexo também claro. Ah para com isso!!!! retrucou a mesma Fulana, que besteira romântica é essa, o que vale é o “rala e rola”, senão nem vale a pena. O que ela disse na verdade é impublicável neste espaço. Larga de ser tonta e cai de boca, todas riram inclusive Jose. Outra disse, isso nem é traição, vc nem fez nada, retruca a outra, não mesmo, como vc é babaca, trouxa. Mas e o bofe vale a pena, é gatão, sarado, tipão??? Vc é tão tonta que nem da pra perguntar se o cara manda bem, todas riram. Jose explica - gente é triste se sentir sozinha estando acompanhada, é solitário estar junto de quem não tem o interesse por vc, pelo seu dia, pela sua vida. A gente se sente secando. Independente do que vc faça, nada muda. Ai do nada, vc encontra uma pessoa atenciosa, e se sente cuidada, acolhida, querida e desejada. Todas reagiram - aeee uhul, ta escondendo o jogo “miga” ? Claro desejada tbem explicou Jose. Na minha cabeça não existe uma coisa separada da outra, as amigas riram, e todas falam ao mesmo tempo, eu ouvindo, ri por dentro. Só vc que vive um conto de fadas, atacou uma, outra dispara - brasa encoberta, dizia minha avó, mais risos e uma falação que não conseguia distinguir o que diziam, mas riam e faziam pouco caso da situação da amiga. Uma delas apaziguou os ânimos e retomou a conversa. Vai Jose, conta mais, parece que isso é muito sério pra vc. Gente, para de zuar. Fala Jose. E ela continua, com o mesmo tom de voz morno, sem alterar o tom. Imagino a cena: essas quatro moças sentadas em roda, uma delas deitada com a cabeça apoiada na perna de uma outra. Jose com as pernas cruzadas e com os cotovelos apoiados nos joelhos e com as mãos apoiando o rosto. Imagino que seja jovem pelo timbre da voz, cabelos compridos e não sei porque imagino que seja morena. Das outras não me vem nenhuma imagem. Pela claridade que podia ver através da lona fina da barraca, havia uma lanterna acesa dentro do barraca amarrada ao teto, apontando para baixo. Era essa a cena que me ocorria.  
O que mais me doi disso tudo, continua Jose, a outra interrompe e ataca, foi não ter dado pra ele, todas riem. Não é isso, se defende Jose, é descobrir a felicidade e não poder vive-la. Saber o que é, toca-la, senti-la e não poder desfrutar disso integralmente. Ai que chatisse isso, disse uma das mais escandalosas, mas foi a única a se manifestar, as outras se calaram e entenderam. - Preferia não saber, continuou Jose, preferia não ter vivido isso, assim não sofreria, não sofreria por ser feliz. Silencio absoluto. Ficaram assim não sei quanto tempo. Ouço o que deve ser um fungar de nariz e só.

sábado, 29 de outubro de 2016

Uma história de atropelamento e fuga

Uma história de atropelamento e fuga.
Filho pequeno, animal de estimação, objetos de uso constante e de valor, levamos sempre a mão, em rédea curta, sempre próximo dos olhos e das mãos. Os motivos são óbvios. Mas as vezes temos aqueles instantes de bobeira e eles se soltam, se vão. Aproveitam da nossa distração e partem pra experimentar o novo, a liberdade sonhada, espaço almejado, enfim, o que será que se passa dentro de cada um? E assim, lá estava eu, com amigos, chovia, lama, buracos, frio. Uma dessas aventuras que a gente se mete a convite dos amigos. Mas junto com os amigos a gente topa até passeio de índio, lá estávamos nós. 
Quando percebi, não estava mais ao alcance das mãos ou dos olhos. Olhei em volta, perguntei aos que estavam por perto. Voltei ao carro e nada, uma sensação angustiante e de vazio tomaram conta de mim. Comecei a correr pelos lugares que já tinha passado e nada. Pedi para os amigos que estavam próximos de mim, que ajudasse a procurar e a chamar por ele. Nada! A sensação era terrível. Tudo nessa hora passa na sua cabeça. Onde estará, o que será que aconteceu, está com alguém ? Momentos torturantes. Até que de longe eu avistei. Caído na lama. Entre os buracos da rua, cheio de lama. Corri ao seu encontro. Á distancia não acreditava no que estava vendo. Não podia ser verdade, mas era. Lá estava ele, estirado no chão. Só, abandonado, sujo e aparentemente sem vida. Com carinho eu o peguei, limpei o que era possível. E ví que definitivamente estava sem vida. Não respondia a nenhum dos meus estímulos. Era o fim. Ele estava morto. Uma tristeza profunda toma conta de mim. Não sabia o que fazer, nem como agir. Estava desnorteado.
O que me deixa estarrecido é a falta de solidariedade e compaixão da pessoas. Não foram capaz de impedir, nem de socorrer. 
Apesar da sua breve vida, vivemos muitas coisas juntos. Alegria, tristezas, momentos de prazer, trabalho. Enfim ele se foi. Meu celular foi atropelado. Estou arrasado. Neste momento, de luto.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Marcelino e Severina

MARCELINO E SEVERINA.

Chegou do norte como quem chega do nada, e na bagagem de mão e da vida, tudo, menos instrução.
Assim chegou Severina. Semblante severo. Olhar Sereno. Apesar da vida marcada pela vida, trazia o desejo da esperança, que não sabia de onde viria, mas que viria, sabia.
Conheceu Marcelino. Um menino. Que professava a arte da madeira. Marcelino, marceneiro era. Sempre seria. Seu pai foi. Nunca conceberia saber outro saber. Já sabia o que era. Sempre soube o que seria.
Marcelino conhecia Severina aos poucos. Como se deve conhecer quem vai se amar para sempre. Conhecia, amava e entendia, mas não compreendia o seu não saber. Não entendia como alguém não sabia ler ou escrever. Ensinar ele tentou e a ambos frustrou. Mas os seus amores cresciam, disso, eles sabiam.
Marcelino marceneiro, acostumado a vencer a resistência e a dureza da madeira, escolheu novo ideal. Venceria o não saber de quem sabia, que poderia vencer. O de saber ler e escrever.
Marcelino então foi aprender, saborear novo saber. Rompeu com seu destino, professor queria ser. E uma nova sina, logo teria.
Marcelino, bom menino aprendeu logo o novo ofício. Madeira mesmo, agora só via no lápis, torneado e apontado. Mas Severina, a nova matéria prima, que daqui pra frente tornearia, logo outra resistência ofereceria. Matéria prima que uma vez marcada, pra sempre ficava.
O que aprendeu não resolveu, o pulo do gato ninguém ensinou, ou não sabiam. Ensinar, achou, que fácil seria, na verdade difícil missão se tornaria, pois com Severina nada conseguia.
Apaixonou-se por professar a arte de professorar. Foi um mestre de seus pares. A criançada, a nenhum outro preferia. Mas ainda não entendia, como Severina nada aprendia. Ainda assim amava, aquela, que não lia ou escrevia.
Sem saber como e porque, Severina, entendeu sem querer com a amiga Maria, o que Marcelino tanto lidava e ela não aprendia. Era só alegria o que ela sentia. Finalmente daria esta alegria a ele que tanto bem lhe queria.
Marcelino quando soube, ficou cheio de emoção e alegria, porque finalmente Severina, alfabetizada seria. O que ele ainda não entendia, era porque com ele, ela não aprendia.
Olhando daqui, sem conhecer essa moça e esse moço, o que logo ouço do meu coração é que Severina não aprendia porque que era o homem que ela queria e não ao professor que de tudo sabia.
Hoje Severina mulher de Marcelino, é professora que gosta de alfabetizar, e sabe como ninguém que para aprender e para amar é preciso se entregar .

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Meu encontro com Celeste


Meu encontro com “Ela”.
E ficamos assim, por um longo tempo nos olhamos. Não conseguia tirar os olhos dela. Tinha um olhar insidioso. Penetrantemente verde.  Lindos. Tinha pose, uma certa superioridade.  Mostrava a língua de forma provocativa, o que as vezes me levava a evitar o seu olhar, mas eu não conseguia, não podia . O corpo jovem demostrava a sua força e vitalidade. Sentia na minha perna o seu toque. Me chamava. Pequenos toques. TAP TAP TAP. E de novo como mais intensidade TAP TAP TAP TAP TAP. As vezes me apertava com mais força para chamar a atenção do que estava acontecendo ali. Ela estava embaixo de mim.
Isso aconteceu quando resolvi ir ao Bonete, comunidade “quase” isolada em Ilhabela/SP em uma caminhada solitária de 12 kilômetros de trilha, com subidas íngremes e descidas, que era preciso colocar a mão no chão pra dar apoio, travessia de pontes e rios. Era um desafio pessoal. Na verdade várias situações a superar.
Quando se começa a caminhada numa trilha dessas, tem que se tomar alguns cuidados. Folhas secas no chão podem esconder aranhas, cobras ou bichos menores. Prestar atenção em ramos e galhos, pois pode se encostar em folhas urticantes, teias de aranha, vespeiros. Mas depois de um tempo de caminhada, vc só quer acertar o próximo passo, buscar o ar que está faltando e tentar não pensar na frase “o que é que eu tô fazendo aqui ?!”. Nessa hora vc pensa na sua casa, na cerveja gelada e no sofá confortável. E que voltar pode ser tão ruim ou pior do que o esforço de terminar. Até pq a sensação de ter “arregado” é horrível. Esse desespero, vem sempre a meio caminho do destino.
No começo vc se acha o máximo. Acreditando que é logo ali e que está inteiro, molezinha! Depois de um tempo ou respira ou pensa. As duas coisas não funcionam juntas.
Como foi que encontrei com Ela ?
Então,  já sem fôlego e quase cambaleante em meio a tanto esforço pra subir a pirambeira, lá está ela. Embaixo de mim, sob os meus pés. Quase me faz escorregar. Só a vi de canto de olho, depois que a passada já havia sido dada, e o pé tocou o chão.
Sem pensar ou instintivamente mantive o pé sobre ela. Ela me olhava com um olhar penetrante. Me provocava mostrando a língua, e quando fui me ajeitar para não perder o equilíbrio, apertei-a mais ainda e como reflexo, ela se agarra na minha perna com a cauda. Sim tinha um rabão daqueles, era uma cobra. Seu corpo frio e escamoso me aperta a panturrilha suada e a ponta da sua cauda me chamava num tipo de Ei , me solta !!!! Tap tap tap.  Quando apertei mais, de novo recebo os tapinhas tap tap tap tap tap, e imaginava o que ela queria me dizer “ Ei, qual é? Me solta!!!
Estávamos ali, os dois, em um momento intimo, ligados pelo olhar, presos um ao outro. Se eu soltasse ela me mordia.  Imaginei ela me dizendo : me solta cara, qual é tá machucando!!! Se eu soltar vc me morde, eu respondi. E ela retruca, mas é claro vc está com o pé no meu pescoço. Mas foi sem querer, retruquei. Sessou a conversa. Afrouxo um pouco o pé e de novo, ela faz um ruído rascante e tenta virar a cabeça para me picar. Não temos outra saída, vc vai mesmo me picar? perguntei, e ela me responde, claro essa é a minha natureza, qual e a sua?, ela pergunta. Bom, pensei com as alças da mochila que estavam me ardendo o ombro: Somos mega predadores, matamos e caçamos sem necessidade, esgotamos e poluímos a natureza, tá certo, vou ter que te matar, respondi. Se ela pudesse engoliria em seco, mas com o meu pé no pescoço não dava. Olhei em volta, não achei nem um pedaço de pau que pudesse me ajudar, pela frente uma subida enorme que já vinha me desgastando a uns bons minutos. Não tinha coragem de mata-la, se tivesse já teria acabado com essa história. Resolvi então tentar uma saída, fui apertando de leve até ela não se mover mais e soltar da minha perna, talvez assim conseguisse pega-la pela rabo e atirar longe ou empurrar para longe com os pés mesmo. E assim eu fiz, fui apertando, ela se debatendo. Que aflição!!! Até que seu rabo perdeu a força e se soltou da minha perna, peguei pelo rabo sem soltar a cabeça que estava debaixo do meu pé e atirei longe. Assustado com aquilo tudo, arranjei um último folego e sai correndo morro a cima. Quando consegui me achar em segurança, olhei pra ver se encontrava a minha amiga Celeste, sim dei nome pra ela ora essa, afinal no meio de tanta intimidade tinha que ter nome. Sim, as referências são da celeste do castelo Ra Tim Bum, sim, sim, eu assisti. Bom, continuando, tentei ver se encontrava a Celeste, demorei mas encontrei seu corpo esguio e colorido estendido no chão, eu a tinha matado :( Lamentei. Pensei em ir lá tirar os seus restos mortais do caminho, podia assustar alguém. Fui descendo devagar tudo o que já tinha subido com sacrifício, olhando para o seu corpo estendido no chão. Quando comecei a chegar mais perto, eis que ela se mexe!!!! #@&»:\§£@ TA VIVA !!!!!! (Sim é um palavrão!!!) Gente nunca senti um arrepio tão forte como aquele, gelado, por dentro, trinquei de medo, virei as costas e subi voando o morro, nem sei de onde tirei tanta energia. Segui meu rumo e Celeste o dela. Nunca mais nos encontramos, ainda bem. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Bem mais que o tempo

Bem mais que o tempo.

De frente para a penteadeira ela tinha tudo do que precisava, e do jeito que gostava que suas coisas ficassem. Escovava os cabelos recém cortados. Sentia falta do resto dos cabelos que haviam ficado no chão do salão. Ela disparava perguntas para ele que estava lendo na cama. E quando lia quase não ouvia o que ela dizia. Mesmo assim ela insistia e o crivava de perguntas.
O que você achou do meu cabelo? E olhava pelo espelho esperando resposta. Não só verbal, mas a cara de aprovação que ele costumava fazer. Sabia que se ele respondesse sem olhar era porque não tinha gostado.
Ficou bom, eu já lhe disse – Respondeu olhando para o reflexo do espelho. Não sei porque você cortou. Já disse que gosto deles compridos. Mas você não me ouve. Depois fica me perguntando o que achei.
Ela procurando os olhos dele pelo reflexo do espelho retruca. Eu sei, mas agora que está cortado. O que você achou?
Ele se levanta e diz com a voz cheia de carinho. Meu bem você sabe que eu gostei. Gosto de você assim também. Com o cabelo curto, você fica como na foto que esta na minha mesa, lembra? Ele chega até ela e sentou-se a cavalo na banqueta de frente ao espelho, tomando a carinhosamente nos braços, beijando o rosto. Ah! Disse, incrédula. Você sempre diz isso. Ele riu, e olhou diretamente para ela e a apertou com um abraço forte. Bobinha, ele disse. Ela sorriu e se apertou contra o corpo dele, encostando a cabeça no ombro forte.
Olhando ainda para o espelho ela passa as mãos ao lado dos olhos e pergunta. - Você acha que devo fazer uma plástica, para tirar essas rugas? Tirar esse ar de cansado. Ela a pega pelos ombros e a coloca de frente e a olha no rosto demoradamente e diz – hum! Pensando bem... eu acho que...bem....deixa eu ver... Virando o rosto dela para os lados segurando pelo queixo delicado, como se observasse melhor. Finalmente diz – Não, esta bom assim. Ela protesta batendo com a mão mole no ombro dele dizendo dengosa. – Seu bobo! Não fica me fazendo de ridícula assim. - Estou falando sério. Disse ele, acariciando o cabelo recém cortado. Ela adorava estas sessões de perguntas ao passo que para ele era um exercício de paciência. Mas que fazia com carinho, pois sabia que para ela era importante esse exercício de afirmação da sua “condição feminina” como ela sempre dizia. Infelizmente nem sempre conseguia responder da forma como ela queria e logo ela ficava emburrada. Dizia que estava velha e feia e que ele não se sentia mais atraído por ela. Ai não tinha concerto, só no dia seguinte.
Não satisfeita, ela abre o penhoar e descobrindo o colo. Provoca, passando a mão sobre os seios. Eles não estão muito tristes, sem vida? Para com isso, vocês mulheres são muito severas com vocês mesmas. Ninguém esta falando nada e vocês vivem vendo defeito. Diz ele, quase a beira da irritação. Levantando-se volta para cama onde estava. É nada! Afirma ela nervosinha. Empertigando o corpo para frente para ver se mudando a postura, seus seios pareceriam diferentes. Virou se de lado, depois do outro, levantou os com a palma das mãos, sentido o volume e peso. E atirou contra ele a afirmação que mais gostava de fazer. Com o dedo indicador levantado, disse: Você, nestes anos todos, nunca me deixou fazer uma plástica, nem uma. Bobagem, dizia ele, o principal esta ai, você. O que eu quero em você, de você, está como eu gosto e amo.Você, assim do jeito que te conheci. Se bem que se ela quisesse, na verdade, teria feito e nem teria perguntado. Ambos sabiam disso.– Mentiroso, disse ela brincando e se levantando da banqueta da penteadeira, indo na direção dele. – Eu sei dos olhos compridos que você tinha para umas e outras, que tinham outros predicados diferentes dos meus. Um pouquinho mais aqui, e arrebitando mostrava com as duas mãos um bumbum maior. Um pouquinho mais ali, e forçando o tronco para frente mostrava com as mãos seios mais volumosos. – Larga de ser bobinha, sempre a mesma história. Mas seja lá quem você esta imaginando, no mínimo tinha menos aqui e aqui. Mostrando a cabeça e o coração. Ela que estava em pé ao lado dele, sentou-se ao seu lado na cama e lhe apertando as bochechas, coisa que ele detestava, e ela sabia, disse: Sempre a mesma conversa. Você é um grande galanteador, sempre foi. Sabia levar todos na lábia. É verdade. Estamos aqui hoje depois de tanto tempo porque? Riu. Fazendo cócegas na cintura dela, coisa que ela detestava mais que tudo e que ele também sabia. Mas como o clima estava mais pra namoro do que pra encrenca. Até que ele querendo virar o jogo, disse. É, eu também não posso falar nada mesmo, se eu também não sou mais aquelas coisas, o físico de nadador já era, as entradas já são um fato, a barriga é uma realidade e o desempenho, bem isso então nem se fala. Lá vem você com essa história de macho, disse ela querendo desarma-lo. Não começa porque você sabe que eu não acho nada disso. Já te falei. Porque vocês homens acham que é só assim que nós entendemos essas coisas. Ele não perdeu a chance de retrucar. É isso que eu estou dizendo pra você querida. Disse ele, largando o jornal que inutilmente tentava ler, e com carinho puxou a sobre si e a abraçando com força, amassando o jornal entre eles. Ainda olhando a nos olhos bem de perto, ele disse: O que eu vi em você 40 anos atrás ainda continua me encantando depois de tanto tempo, depois de tanta coisa que passamos juntos depois de todo desentendimento que tivemos. Independentemente destas coisas eu nunca deixei te amar.Claro fiquei triste, chateado bravo, irritado. Sei que você também ficou comigo. Mas nunca deixei de ter dúvidas do meu amor por você. Mesmo quando as coisas não iam bem. E olha que não foram poucas vezes e por vários motivos. Mas não é disso que eu estou falando, disse ela tentando desviar o assunto, pois estava ficando com os olhos cheios dágua. Ele insistiu.  Assim é com o seu corpo. Temos 60 anos. Não! gritou ela. Você tem 60, eu tenho 59. Riram e se abraçaram. Escuta, disse ele retomando a conversa e puxando o queixo dela para si. Meu olhar ainda te vê, cheio de desejo como no começo. Meu olhar envelheceu junto com a gente. Então é como se sempre fossemos assim, no começo e agora. Ela gostava quando ele dizia essas coisas, pois sabia que eram verdadeiras. Suspirou fundo cheia de emoção, afinal ela era generosa até com as lágrimas. Abraçaram-se forte. E ficaram assim até que ela se ergueu sobre ele e beijando lhe a boca disse. Você é um danado mesmo heim! Sabe me amolecer. Meu lindo. Ele gostava que ela o chamasse assim, e ela sabia. Cheios de ternura um pelo outro continuaram abraçados, ela sobre o peito dele, em silêncio se acariciando, pensando no que haviam conversado e por tudo o que já haviam passado. Ela, num sobressalto, quebra o silêncio e diz baixinho - Apaga a luz, apaga. Agora quem vai te amolecer sou eu.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Elisa e Roberson

Elisa e Roberson


“Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram.”
“Feliz daquele que acredita... mesmo sem ver”

“O dia a dia de quem trabalha com as pessoas é cheio de experiências inusitadas. São histórias ricas, e devem ser acolhidas com carinho e respeito. Alguns profissionais procuram não se mobilizar com estas histórias. Para que não haja envolvimento emocional. Assim não partilham destes sentimentos, não tomam consciência da realidade das pessoas. Não por descaso, desinteresse, mas por defesa. Para não sofrerem com as coisas que são incapazes de entender, de interferir.
A história de Elisa e Roberson é uma destas que chamam a atenção da gente, e nos fazem repensar conceitos e juízos. Eis a história.”
Elisa estava ansiosa para amamentar. Naquele dia em especial estava alegre, pois sentia que seu peito estava cheio, seu leite tinha aumentado. Sobrava, ensopando a camiseta de campanha política que estava usando.
O bebe, um menino lindo e rosado, de mais de 3 kilos, chorava a plenos pulmões pedindo o que lhe era de direito. A mãe. O peito. O leite. O carinho e a alegria que vinham do coração de sua mãe. A alegria que transbordava como o leite, que se transformava, em algo mais que o alimento, no sentimento de ser desejado, amado. Alimento que nutria a alma. E o fazia se sentir querido.
Elisa era nova, tinha 17 anos, quando engravidou de não se sabe quem.  Tinha o perfil das estatísticas. Mulher jovem da periferia, pobre, primeira gravidez, não planejada. Quando se conta esta história logo se imagina uma jovem com um fogo de hormônios incendiando todos os orifícios de seu corpo. Sim, estava tudo lá como é próprio às jovens desta idade. É esperta, sabe ler, e entende bem das coisas, apesar de falar muito “errado”, segundo explicam suas vizinhas.
Enfim o “bocudo” , como as elas chamavam, abocanhava o peito da mãe, e saciava sua fome de leite e de carinho. Guloso e esfomeado, às vezes ia com muita sede ao pote, ou ao peito, e dava umas mordidas que faziam Elisa estremecer, e se assustar tanto, que quase a derrubavam da poltrona onde estava sentada. Mas o sorriso e a alegria voltavam ao seu rosto e ela continuava com a intensa expressão de prazer enquanto amamentava.
Dava um certo trabalho colocar para mamar o menino que se chamava Roberson, nome que a mãe mesmo escolheu, cheia de orgulho. Era um menino grande que nasceu com 47 centímetros, agora com 15 dias pesava 3,5 kilos, e essa era uma das dificuldades em colocar Roberson pra mamar.
Elisa tinha gerado Roberson deitada durante os nove meses sem grandes problemas, toda feliz com a gestação, e com a atenção que estava recebendo. Todos se mobilizaram em ajuda-la. O dia todo tinha gente em volta trazendo alguma coisa ou fazendo companhia. Ela também não ligava para os comentários das vizinhas enxeridas e maldosas. Nunca imaginou que teria tanto paparico.
Já fiz várias visitas a favelas e cortiços, conheço bem os lugares pobres e marginalizados de muitas cidades. Naquele, não havia nada de especial, era mais um barraco, pobre como muitos. Pessoas simples e lutadoras como se vê nestes lugares e em outros, que tinham em comum além da miséria, a esperança. Elisa e Roberson eram também os motivos de alegria para a aquela comunidade, apesar de toda dificuldade.
Quando entrei no barraco e me deparei com a cena de Elisa amamentando “Roberson o bocudo”. Fiquei atordoado. Uma sensação estranha me encheu por dentro, e me fez parar e encostar no batente da porta do barraco frágil, feito de um amontoado de tábuas e placas de outdoor.
Vi uma menina que tinha Paralisia cerebral, com a blusa levantada acima do peito, abanando freneticamente e cheia de alegria, os bracinhos que ficavam flexionados junto ao corpo, e falando com voz que saia do fundo da garganta e pouco inteligível – “meu nenê, meu nenê!!!!”.
As vizinhas que passaram a cuidar de Elisa, tinham que segurar o garoto, pois Ela “não tinha braços ou mãos”, por assim dizer, que ajudassem. Mas tinha o coração cheio de amor e o peito miúdo cheio de leite, que acolhia, saciava. Calava o choro do seu filho. Sua alegria era radiante. Sua felicidade desconcertante. Eu imaginava que seria impossível ver naquela cena qualquer possibilidade de felicidade. Pois ali havia muita felicidade, alegria, realização, e o desejo. Desejo de uns pelos outros.
Elisa mal ficava sentada devido a tanto tempo deitada e mal posicionada. Não conseguia controlar o tronco. Nunca tivera tratamento adequado para sua síndrome, vivera a vida toda na cama.
Se fosse atendida sua história seria outra. Agora talvez estivesse segurando seu filho.
Mas este não foi e nem seria seu único problema. Se bem que até o momento, de certa forma, as coisas se resolveram a seu favor.
Tudo começou, quando sua mãe a colocou para fora de casa. Pegou uma cadeira destas de fios de plástico colorido, uma espreguiçadeira, e a colocou na calçada de frente para a rua, próximo ao barraco. Quando as vizinhas viram, não entenderam, mas como a mãe de Elisa bebia muito, imaginaram que fosse mais uma das suas. Conforme anoitecia e as vizinhas ainda viam Elisa na rua ficaram preocupadas, pois naquela favela o toque de recolher era pra valer. E foram saber o que tinha acontecido. Elisa estava grávida e quando os sinais da gravidez apareceram foi colocada pra fora do Barraco. Foi um rebuliço na comunidade. E não houve meios de fazer a mãe de Elisa voltar a traz.
Foi uma das muitas Marias, mulher daquela comunidade, que acolheu Elisa junto aos seus cinco filhos, em um dos muitos barracos de madeira e zinco a beira córrego do Jacaré.
Elisa vivia na verdade, nesta espécie de prisão. O seu corpo. Não tinha movimentos para ser independente, mas tinha a lucidez e a inteligência preservadas. Era alfabetizada, sabia ler. Como aprendeu, ninguém sabe, pois ninguém ensinou. Alguns diziam que era de tanto ver televisão, outros que foi a amiga, a filha da vizinha que sempre brincou de escolinha com ela e foi ensinando aos poucos. Fiquei sabendo que de todas as vizinhas, inclusive a dona da casa, quem lia melhor era Elisa. As pessoas da igreja vinham rezar o terço semanalmente e traziam a Bíblia que era lida por Elisa. Aos trancos e sem entender os nomes difíceis que lia, mas que todos entendiam e consertavam a mediada que ela prosseguia com a leitura.
E essa era a cena. Uma poltrona aos pedaços, que tinha no lugar de uma das pernas um bloco de cimento dando apoio. Muito pouco estofado e coberto com uma colcha já bem puída pelo uso, mas limpa, muito limpa. Atrás dela uma folhinha do Sagrado Coração de Jesus. Ao lado, a cama que também servia de berço. Uma estante com a televisão e o aparelho de som. Tudo no primeiro cômodo do barraco, o que seria a sala. Dali mesmo podia se ver a cozinha, que tinha uma janela de madeira de frente a pia. O que dava luz para dentro dos dois cômodos. Panelas, lata, leiteiras, todas penduradas na prateleira acima da pia e preciosamente areadas, como novas.
Elisa estava sentada com pernas e braços flexionados, travesseiros arrumados ao lado do corpo para que se mantivesse sentada. E Roberson o “bocudo”, sugando com vigor, segurado por Dona Maria, que dividia com orgulho a maternidade de Elisa. Ela e todas as outras Marias da sala que estavam ali “assistindo” Elisa e Roberson.
O menino ganhava peso como previsto. Reações e reflexos próprios para idade, vacinas em dia. A mãe sem problemas para amamentar. Ambos dormiam bem a noite, intestino funcionando bem. Sem novidades, exceto tudo. Tudo ali era novo. Junto com Roberson nascera um ânimo novo entre eles. Uma esperança nova. Não se sabia do que, pois as dificuldades eram as mesmas. Mas se aspirava algo novo. E isso podia ser visto no rosto de todos. Só eu não entendia o que era.
Quando iniciei a conversa com Elisa, no início foi difícil, pois não estava acostumado com o seu jeito de falar. O que me fez pedir que ela repetisse várias vezes algumas de suas falas. Mas, com calma ela entendia minha dificuldade e repetia com mais calma.
Elisa falava da felicidade que sentia por seu filho. Como se fosse planejado e desejado. Falava do que esperava para o futuro. Apostava nele como uma projeção de si. Da capacidade de realizar que ele teria, por não ser deficiente como ela. De estudar, para ser alguém, ser feliz e ter um futuro na vida. Não se incluía nos planos, não falava de si, no futuro. Só em Roberson. E isso chamava a atenção. Não queria o filho como uma chave para sua saída daquele lugar, ou o conforto da velhice. Até porque tinha bem a noção de tempo e sabia que isso demoraria muito. E comumente as pessoas que vivem nesta realidade vivem o hoje, “do amanhã ninguém sabe”, diziam as Donas Marias. Impressionava, a certeza de que educaria seu filho com a firmeza necessária para que ele a obedecesse. Mesmo ela sendo uma deficiente física, como se auto-intitulava.
Perguntei se não tinha medo de que o conselho tutelar tomasse alguma medida com relação aos cuidados do seu filho. Sorrindo, estampou no rosto a mesma felicidade de quando estiva amamentando. Olhou para as Marias que estavam a sua volta e disse – “As minhas mães cuidam de mim”.
Dona Maria, a dona da casa, disse que tinha pedido a guarda provisória da Elisa e do menino, e que o conselheiro do bairro já tinha ido conversar com ela sobre o caso. Isso já estava resolvido.
Depois de muito tempo, entenderam que eu não era uma ameaça e pude ficar a sós com Elisa. Roberson já saciado e trocado, dormia profunda e calmamente na cama ao lado da poltrona. Pude então perguntar sobre o pai do garoto. Se ele não iria ajudar a cuidar do menino. Surpresa com a pergunta, que segundo ela ninguém tinha tido a coragem de fazer, resolveu contar o que acontecera. Contou que a mãe sempre trazia homens para casa para ganhar algum dinheiro. Mas estava sempre tão bêbada que quase nunca ganhava nada. Algumas vezes esses homens abusavam dela com o consentimento da mãe. Alguns ficavam chocados com a presença de Elisa e iam embora. O que deixava a mãe furiosa, aos gritos de inútil, imprestável, atrasa vida. Mas tinha um rapaz, um freguês habitual, que depois que resolvia seus particulares, ficava na conversa com Elisa horas e horas. O que só era possível porque a mãe estava desmaiada de tão bêbada. Às vezes ele aparecia quando ela estava sozinha e assim ficavam um tempão só conversando. “Era com se a gente tava namorando”, disse. Contou também que perguntou porque ele vinha tantas vezes com a mãe dela, se ele gostava, se ele tinha tanto dinheiro. E ele muito sem jeito, respondeu que não gostava muito, no começo sim, afinal era homem, e homem tem essas necessidades.  Mas na verdade, era para que outros não viessem mexer com ela. Pois ele sabia que isso acontecia. Ela já tinha sido oferecida para ele também, mas havia recusado. E que não tinha muito dinheiro, trabalhava muito e pesado, mas quando não tinha dinheiro, era só dar umas pingas que resolvia, ela dormia e eles podiam conversar. “Ai, eu que não sou boba, vi que ele gostava de mim”, esforçou-se a dizer com um sorriso de menina no rosto.
Parecia impossível estar ouvindo aquilo tudo, era difícil acreditar. Ela quis me dizer em segredo o nome dele. Chamava-se Roberto, e tinha quase a mesma idade que ela. Se bem que, segredo no tom de sua voz, não tinha como. Mas não importava para ninguém que estava ali. Todos sabiam o que acontecia na casa de Elisa, e cada um cuidava de si como podia, se respeitavam a medida do possível, não interferiam na vida do outro. Só vivendo junto para entender esta forma de convívio. Só passando pelas dificuldades que estas pessoas vivem, pode se entender esta história toda. Então Elisa me conta que eles namoraram. Como assim, perguntei. E tive com resposta. “Seu bobo, você não sabe, até parece!” Fiquei com a cara no chão. Passei pelo meu vexame em silêncio. Até que quebra o silêncio e esclarece orgulhosa. “E foi eu quem quis, ele estava com vergonha de mim”. Perguntei como ela sabia que o filho era dele, e ela me responde com toda sabedoria do seus bem vividos 18 anos. “A gente sabe destas coisas”. E fazendo uma expressão grave disse que ninguém podia saber de quem era o filho, senão matavam. E me garantiu que eles iam se casar um dia, quando ele tivesse um barraco pra poderem morar juntos. Mas teriam que esperar até que ele tivesse um emprego melhor. Roberto era chapa, ajudava a carregar e descarregar caminhões. Tudo era tão absurdo, que não dava pra duvidar de nada. A convicção, a certeza de Elisa, a naturalidade daquela situação era assustadora. A naturalidade das pessoas a volta da mãe e filho davam conforto, credibilidade e esperança aquela situação.
Com Roberson e Elisa, estava claro para aquelas pessoas da comunidade, de que tudo é possível. Eles não podiam imaginar que Elisa naquelas condições geraria um filho normal, amamentaria e teria lucidez para pensar o que todos sabiam. As mães de Elisa não viam como um problema ou sacrifício todo o seu trabalho e esforço, que era na verdade o que garantia sustentação para aquelas duas vidas. Acreditavam em algo mais, e me disseram isso. “Só pode ser um sinal de Deus, uma mensagem de vida pra gente, pra não esquecer que tudo é possível”. Com tantas Marias, não podia ser diferente. Elas acreditavam, e isso bastava. Que assim fosse.
Quando a lucidez voltou, me perguntei o que é que eu estava fazendo ali. O que é era mesmo o que eu tinha que fazer? Mas isso já não importava mais.