Elisa e Roberson
“Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram.”
“Feliz daquele que acredita... mesmo sem ver”
“O dia a dia de quem trabalha com as pessoas é cheio de experiências inusitadas. São histórias ricas, e devem ser acolhidas com carinho e respeito. Alguns profissionais procuram não se mobilizar com estas histórias. Para que não haja envolvimento emocional. Assim não partilham destes sentimentos, não tomam consciência da realidade das pessoas. Não por descaso, desinteresse, mas por defesa. Para não sofrerem com as coisas que são incapazes de entender, de interferir.
A história de Elisa e Roberson é uma destas que chamam a atenção da gente, e nos fazem repensar conceitos e juízos. Eis a história.”
Elisa estava ansiosa para amamentar. Naquele dia em especial estava alegre, pois sentia que seu peito estava cheio, seu leite tinha aumentado. Sobrava, ensopando a camiseta de campanha política que estava usando.
O bebe, um menino lindo e rosado, de mais de 3 kilos, chorava a plenos pulmões pedindo o que lhe era de direito. A mãe. O peito. O leite. O carinho e a alegria que vinham do coração de sua mãe. A alegria que transbordava como o leite, que se transformava, em algo mais que o alimento, no sentimento de ser desejado, amado. Alimento que nutria a alma. E o fazia se sentir querido.
Elisa era nova, tinha 17 anos, quando engravidou de não se sabe quem. Tinha o perfil das estatísticas. Mulher jovem da periferia, pobre, primeira gravidez, não planejada. Quando se conta esta história logo se imagina uma jovem com um fogo de hormônios incendiando todos os orifícios de seu corpo. Sim, estava tudo lá como é próprio às jovens desta idade. É esperta, sabe ler, e entende bem das coisas, apesar de falar muito “errado”, segundo explicam suas vizinhas.
Enfim o “bocudo” , como as elas chamavam, abocanhava o peito da mãe, e saciava sua fome de leite e de carinho. Guloso e esfomeado, às vezes ia com muita sede ao pote, ou ao peito, e dava umas mordidas que faziam Elisa estremecer, e se assustar tanto, que quase a derrubavam da poltrona onde estava sentada. Mas o sorriso e a alegria voltavam ao seu rosto e ela continuava com a intensa expressão de prazer enquanto amamentava.
Dava um certo trabalho colocar para mamar o menino que se chamava Roberson, nome que a mãe mesmo escolheu, cheia de orgulho. Era um menino grande que nasceu com 47 centímetros, agora com 15 dias pesava 3,5 kilos, e essa era uma das dificuldades em colocar Roberson pra mamar.
Elisa tinha gerado Roberson deitada durante os nove meses sem grandes problemas, toda feliz com a gestação, e com a atenção que estava recebendo. Todos se mobilizaram em ajuda-la. O dia todo tinha gente em volta trazendo alguma coisa ou fazendo companhia. Ela também não ligava para os comentários das vizinhas enxeridas e maldosas. Nunca imaginou que teria tanto paparico.
Já fiz várias visitas a favelas e cortiços, conheço bem os lugares pobres e marginalizados de muitas cidades. Naquele, não havia nada de especial, era mais um barraco, pobre como muitos. Pessoas simples e lutadoras como se vê nestes lugares e em outros, que tinham em comum além da miséria, a esperança. Elisa e Roberson eram também os motivos de alegria para a aquela comunidade, apesar de toda dificuldade.
Quando entrei no barraco e me deparei com a cena de Elisa amamentando “Roberson o bocudo”. Fiquei atordoado. Uma sensação estranha me encheu por dentro, e me fez parar e encostar no batente da porta do barraco frágil, feito de um amontoado de tábuas e placas de outdoor.
Vi uma menina que tinha Paralisia cerebral, com a blusa levantada acima do peito, abanando freneticamente e cheia de alegria, os bracinhos que ficavam flexionados junto ao corpo, e falando com voz que saia do fundo da garganta e pouco inteligível – “meu nenê, meu nenê!!!!”.
As vizinhas que passaram a cuidar de Elisa, tinham que segurar o garoto, pois Ela “não tinha braços ou mãos”, por assim dizer, que ajudassem. Mas tinha o coração cheio de amor e o peito miúdo cheio de leite, que acolhia, saciava. Calava o choro do seu filho. Sua alegria era radiante. Sua felicidade desconcertante. Eu imaginava que seria impossível ver naquela cena qualquer possibilidade de felicidade. Pois ali havia muita felicidade, alegria, realização, e o desejo. Desejo de uns pelos outros.
Elisa mal ficava sentada devido a tanto tempo deitada e mal posicionada. Não conseguia controlar o tronco. Nunca tivera tratamento adequado para sua síndrome, vivera a vida toda na cama.
Se fosse atendida sua história seria outra. Agora talvez estivesse segurando seu filho.
Mas este não foi e nem seria seu único problema. Se bem que até o momento, de certa forma, as coisas se resolveram a seu favor.
Tudo começou, quando sua mãe a colocou para fora de casa. Pegou uma cadeira destas de fios de plástico colorido, uma espreguiçadeira, e a colocou na calçada de frente para a rua, próximo ao barraco. Quando as vizinhas viram, não entenderam, mas como a mãe de Elisa bebia muito, imaginaram que fosse mais uma das suas. Conforme anoitecia e as vizinhas ainda viam Elisa na rua ficaram preocupadas, pois naquela favela o toque de recolher era pra valer. E foram saber o que tinha acontecido. Elisa estava grávida e quando os sinais da gravidez apareceram foi colocada pra fora do Barraco. Foi um rebuliço na comunidade. E não houve meios de fazer a mãe de Elisa voltar a traz.
Foi uma das muitas Marias, mulher daquela comunidade, que acolheu Elisa junto aos seus cinco filhos, em um dos muitos barracos de madeira e zinco a beira córrego do Jacaré.
Elisa vivia na verdade, nesta espécie de prisão. O seu corpo. Não tinha movimentos para ser independente, mas tinha a lucidez e a inteligência preservadas. Era alfabetizada, sabia ler. Como aprendeu, ninguém sabe, pois ninguém ensinou. Alguns diziam que era de tanto ver televisão, outros que foi a amiga, a filha da vizinha que sempre brincou de escolinha com ela e foi ensinando aos poucos. Fiquei sabendo que de todas as vizinhas, inclusive a dona da casa, quem lia melhor era Elisa. As pessoas da igreja vinham rezar o terço semanalmente e traziam a Bíblia que era lida por Elisa. Aos trancos e sem entender os nomes difíceis que lia, mas que todos entendiam e consertavam a mediada que ela prosseguia com a leitura.
E essa era a cena. Uma poltrona aos pedaços, que tinha no lugar de uma das pernas um bloco de cimento dando apoio. Muito pouco estofado e coberto com uma colcha já bem puída pelo uso, mas limpa, muito limpa. Atrás dela uma folhinha do Sagrado Coração de Jesus. Ao lado, a cama que também servia de berço. Uma estante com a televisão e o aparelho de som. Tudo no primeiro cômodo do barraco, o que seria a sala. Dali mesmo podia se ver a cozinha, que tinha uma janela de madeira de frente a pia. O que dava luz para dentro dos dois cômodos. Panelas, lata, leiteiras, todas penduradas na prateleira acima da pia e preciosamente areadas, como novas.
Elisa estava sentada com pernas e braços flexionados, travesseiros arrumados ao lado do corpo para que se mantivesse sentada. E Roberson o “bocudo”, sugando com vigor, segurado por Dona Maria, que dividia com orgulho a maternidade de Elisa. Ela e todas as outras Marias da sala que estavam ali “assistindo” Elisa e Roberson.
O menino ganhava peso como previsto. Reações e reflexos próprios para idade, vacinas em dia. A mãe sem problemas para amamentar. Ambos dormiam bem a noite, intestino funcionando bem. Sem novidades, exceto tudo. Tudo ali era novo. Junto com Roberson nascera um ânimo novo entre eles. Uma esperança nova. Não se sabia do que, pois as dificuldades eram as mesmas. Mas se aspirava algo novo. E isso podia ser visto no rosto de todos. Só eu não entendia o que era.
Quando iniciei a conversa com Elisa, no início foi difícil, pois não estava acostumado com o seu jeito de falar. O que me fez pedir que ela repetisse várias vezes algumas de suas falas. Mas, com calma ela entendia minha dificuldade e repetia com mais calma.
Elisa falava da felicidade que sentia por seu filho. Como se fosse planejado e desejado. Falava do que esperava para o futuro. Apostava nele como uma projeção de si. Da capacidade de realizar que ele teria, por não ser deficiente como ela. De estudar, para ser alguém, ser feliz e ter um futuro na vida. Não se incluía nos planos, não falava de si, no futuro. Só em Roberson. E isso chamava a atenção. Não queria o filho como uma chave para sua saída daquele lugar, ou o conforto da velhice. Até porque tinha bem a noção de tempo e sabia que isso demoraria muito. E comumente as pessoas que vivem nesta realidade vivem o hoje, “do amanhã ninguém sabe”, diziam as Donas Marias. Impressionava, a certeza de que educaria seu filho com a firmeza necessária para que ele a obedecesse. Mesmo ela sendo uma deficiente física, como se auto-intitulava.
Perguntei se não tinha medo de que o conselho tutelar tomasse alguma medida com relação aos cuidados do seu filho. Sorrindo, estampou no rosto a mesma felicidade de quando estiva amamentando. Olhou para as Marias que estavam a sua volta e disse – “As minhas mães cuidam de mim”.
Dona Maria, a dona da casa, disse que tinha pedido a guarda provisória da Elisa e do menino, e que o conselheiro do bairro já tinha ido conversar com ela sobre o caso. Isso já estava resolvido.
Depois de muito tempo, entenderam que eu não era uma ameaça e pude ficar a sós com Elisa. Roberson já saciado e trocado, dormia profunda e calmamente na cama ao lado da poltrona. Pude então perguntar sobre o pai do garoto. Se ele não iria ajudar a cuidar do menino. Surpresa com a pergunta, que segundo ela ninguém tinha tido a coragem de fazer, resolveu contar o que acontecera. Contou que a mãe sempre trazia homens para casa para ganhar algum dinheiro. Mas estava sempre tão bêbada que quase nunca ganhava nada. Algumas vezes esses homens abusavam dela com o consentimento da mãe. Alguns ficavam chocados com a presença de Elisa e iam embora. O que deixava a mãe furiosa, aos gritos de inútil, imprestável, atrasa vida. Mas tinha um rapaz, um freguês habitual, que depois que resolvia seus particulares, ficava na conversa com Elisa horas e horas. O que só era possível porque a mãe estava desmaiada de tão bêbada. Às vezes ele aparecia quando ela estava sozinha e assim ficavam um tempão só conversando. “Era com se a gente tava namorando”, disse. Contou também que perguntou porque ele vinha tantas vezes com a mãe dela, se ele gostava, se ele tinha tanto dinheiro. E ele muito sem jeito, respondeu que não gostava muito, no começo sim, afinal era homem, e homem tem essas necessidades. Mas na verdade, era para que outros não viessem mexer com ela. Pois ele sabia que isso acontecia. Ela já tinha sido oferecida para ele também, mas havia recusado. E que não tinha muito dinheiro, trabalhava muito e pesado, mas quando não tinha dinheiro, era só dar umas pingas que resolvia, ela dormia e eles podiam conversar. “Ai, eu que não sou boba, vi que ele gostava de mim”, esforçou-se a dizer com um sorriso de menina no rosto.
Parecia impossível estar ouvindo aquilo tudo, era difícil acreditar. Ela quis me dizer em segredo o nome dele. Chamava-se Roberto, e tinha quase a mesma idade que ela. Se bem que, segredo no tom de sua voz, não tinha como. Mas não importava para ninguém que estava ali. Todos sabiam o que acontecia na casa de Elisa, e cada um cuidava de si como podia, se respeitavam a medida do possível, não interferiam na vida do outro. Só vivendo junto para entender esta forma de convívio. Só passando pelas dificuldades que estas pessoas vivem, pode se entender esta história toda. Então Elisa me conta que eles namoraram. Como assim, perguntei. E tive com resposta. “Seu bobo, você não sabe, até parece!” Fiquei com a cara no chão. Passei pelo meu vexame em silêncio. Até que quebra o silêncio e esclarece orgulhosa. “E foi eu quem quis, ele estava com vergonha de mim”. Perguntei como ela sabia que o filho era dele, e ela me responde com toda sabedoria do seus bem vividos 18 anos. “A gente sabe destas coisas”. E fazendo uma expressão grave disse que ninguém podia saber de quem era o filho, senão matavam. E me garantiu que eles iam se casar um dia, quando ele tivesse um barraco pra poderem morar juntos. Mas teriam que esperar até que ele tivesse um emprego melhor. Roberto era chapa, ajudava a carregar e descarregar caminhões. Tudo era tão absurdo, que não dava pra duvidar de nada. A convicção, a certeza de Elisa, a naturalidade daquela situação era assustadora. A naturalidade das pessoas a volta da mãe e filho davam conforto, credibilidade e esperança aquela situação.
Com Roberson e Elisa, estava claro para aquelas pessoas da comunidade, de que tudo é possível. Eles não podiam imaginar que Elisa naquelas condições geraria um filho normal, amamentaria e teria lucidez para pensar o que todos sabiam. As mães de Elisa não viam como um problema ou sacrifício todo o seu trabalho e esforço, que era na verdade o que garantia sustentação para aquelas duas vidas. Acreditavam em algo mais, e me disseram isso. “Só pode ser um sinal de Deus, uma mensagem de vida pra gente, pra não esquecer que tudo é possível”. Com tantas Marias, não podia ser diferente. Elas acreditavam, e isso bastava. Que assim fosse.
Quando a lucidez voltou, me perguntei o que é que eu estava fazendo ali. O que é era mesmo o que eu tinha que fazer? Mas isso já não importava mais.
Contos, causos, textos, sobre a vida de quem vive esta vida. A vida e seus conflitos, dramas, sofrimentos, alegrias e surpresas. A vida como ela é, bonita de ser vivida e partilhada. Este é o objetivo deste Blog. Sejam bem vindos.
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Elisa e Roberson
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