Bem mais que o tempo.
De frente para a penteadeira ela tinha tudo do que precisava, e do jeito que gostava que suas coisas ficassem. Escovava os cabelos recém cortados. Sentia falta do resto dos cabelos que haviam ficado no chão do salão. Ela disparava perguntas para ele que estava lendo na cama. E quando lia quase não ouvia o que ela dizia. Mesmo assim ela insistia e o crivava de perguntas.
O que você achou do meu cabelo? E olhava pelo espelho esperando resposta. Não só verbal, mas a cara de aprovação que ele costumava fazer. Sabia que se ele respondesse sem olhar era porque não tinha gostado.
Ficou bom, eu já lhe disse – Respondeu olhando para o reflexo do espelho. Não sei porque você cortou. Já disse que gosto deles compridos. Mas você não me ouve. Depois fica me perguntando o que achei.
Ela procurando os olhos dele pelo reflexo do espelho retruca. Eu sei, mas agora que está cortado. O que você achou?
Ele se levanta e diz com a voz cheia de carinho. Meu bem você sabe que eu gostei. Gosto de você assim também. Com o cabelo curto, você fica como na foto que esta na minha mesa, lembra? Ele chega até ela e sentou-se a cavalo na banqueta de frente ao espelho, tomando a carinhosamente nos braços, beijando o rosto. Ah! Disse, incrédula. Você sempre diz isso. Ele riu, e olhou diretamente para ela e a apertou com um abraço forte. Bobinha, ele disse. Ela sorriu e se apertou contra o corpo dele, encostando a cabeça no ombro forte.
Olhando ainda para o espelho ela passa as mãos ao lado dos olhos e pergunta. - Você acha que devo fazer uma plástica, para tirar essas rugas? Tirar esse ar de cansado. Ela a pega pelos ombros e a coloca de frente e a olha no rosto demoradamente e diz – hum! Pensando bem... eu acho que...bem....deixa eu ver... Virando o rosto dela para os lados segurando pelo queixo delicado, como se observasse melhor. Finalmente diz – Não, esta bom assim. Ela protesta batendo com a mão mole no ombro dele dizendo dengosa. – Seu bobo! Não fica me fazendo de ridícula assim. - Estou falando sério. Disse ele, acariciando o cabelo recém cortado. Ela adorava estas sessões de perguntas ao passo que para ele era um exercício de paciência. Mas que fazia com carinho, pois sabia que para ela era importante esse exercício de afirmação da sua “condição feminina” como ela sempre dizia. Infelizmente nem sempre conseguia responder da forma como ela queria e logo ela ficava emburrada. Dizia que estava velha e feia e que ele não se sentia mais atraído por ela. Ai não tinha concerto, só no dia seguinte.
Não satisfeita, ela abre o penhoar e descobrindo o colo. Provoca, passando a mão sobre os seios. Eles não estão muito tristes, sem vida? Para com isso, vocês mulheres são muito severas com vocês mesmas. Ninguém esta falando nada e vocês vivem vendo defeito. Diz ele, quase a beira da irritação. Levantando-se volta para cama onde estava. É nada! Afirma ela nervosinha. Empertigando o corpo para frente para ver se mudando a postura, seus seios pareceriam diferentes. Virou se de lado, depois do outro, levantou os com a palma das mãos, sentido o volume e peso. E atirou contra ele a afirmação que mais gostava de fazer. Com o dedo indicador levantado, disse: Você, nestes anos todos, nunca me deixou fazer uma plástica, nem uma. Bobagem, dizia ele, o principal esta ai, você. O que eu quero em você, de você, está como eu gosto e amo.Você, assim do jeito que te conheci. Se bem que se ela quisesse, na verdade, teria feito e nem teria perguntado. Ambos sabiam disso.– Mentiroso, disse ela brincando e se levantando da banqueta da penteadeira, indo na direção dele. – Eu sei dos olhos compridos que você tinha para umas e outras, que tinham outros predicados diferentes dos meus. Um pouquinho mais aqui, e arrebitando mostrava com as duas mãos um bumbum maior. Um pouquinho mais ali, e forçando o tronco para frente mostrava com as mãos seios mais volumosos. – Larga de ser bobinha, sempre a mesma história. Mas seja lá quem você esta imaginando, no mínimo tinha menos aqui e aqui. Mostrando a cabeça e o coração. Ela que estava em pé ao lado dele, sentou-se ao seu lado na cama e lhe apertando as bochechas, coisa que ele detestava, e ela sabia, disse: Sempre a mesma conversa. Você é um grande galanteador, sempre foi. Sabia levar todos na lábia. É verdade. Estamos aqui hoje depois de tanto tempo porque? Riu. Fazendo cócegas na cintura dela, coisa que ela detestava mais que tudo e que ele também sabia. Mas como o clima estava mais pra namoro do que pra encrenca. Até que ele querendo virar o jogo, disse. É, eu também não posso falar nada mesmo, se eu também não sou mais aquelas coisas, o físico de nadador já era, as entradas já são um fato, a barriga é uma realidade e o desempenho, bem isso então nem se fala. Lá vem você com essa história de macho, disse ela querendo desarma-lo. Não começa porque você sabe que eu não acho nada disso. Já te falei. Porque vocês homens acham que é só assim que nós entendemos essas coisas. Ele não perdeu a chance de retrucar. É isso que eu estou dizendo pra você querida. Disse ele, largando o jornal que inutilmente tentava ler, e com carinho puxou a sobre si e a abraçando com força, amassando o jornal entre eles. Ainda olhando a nos olhos bem de perto, ele disse: O que eu vi em você 40 anos atrás ainda continua me encantando depois de tanto tempo, depois de tanta coisa que passamos juntos depois de todo desentendimento que tivemos. Independentemente destas coisas eu nunca deixei te amar.Claro fiquei triste, chateado bravo, irritado. Sei que você também ficou comigo. Mas nunca deixei de ter dúvidas do meu amor por você. Mesmo quando as coisas não iam bem. E olha que não foram poucas vezes e por vários motivos. Mas não é disso que eu estou falando, disse ela tentando desviar o assunto, pois estava ficando com os olhos cheios dágua. Ele insistiu. Assim é com o seu corpo. Temos 60 anos. Não! gritou ela. Você tem 60, eu tenho 59. Riram e se abraçaram. Escuta, disse ele retomando a conversa e puxando o queixo dela para si. Meu olhar ainda te vê, cheio de desejo como no começo. Meu olhar envelheceu junto com a gente. Então é como se sempre fossemos assim, no começo e agora. Ela gostava quando ele dizia essas coisas, pois sabia que eram verdadeiras. Suspirou fundo cheia de emoção, afinal ela era generosa até com as lágrimas. Abraçaram-se forte. E ficaram assim até que ela se ergueu sobre ele e beijando lhe a boca disse. Você é um danado mesmo heim! Sabe me amolecer. Meu lindo. Ele gostava que ela o chamasse assim, e ela sabia. Cheios de ternura um pelo outro continuaram abraçados, ela sobre o peito dele, em silêncio se acariciando, pensando no que haviam conversado e por tudo o que já haviam passado. Ela, num sobressalto, quebra o silêncio e diz baixinho - Apaga a luz, apaga. Agora quem vai te amolecer sou eu.
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