sábado, 29 de outubro de 2016

Uma história de atropelamento e fuga

Uma história de atropelamento e fuga.
Filho pequeno, animal de estimação, objetos de uso constante e de valor, levamos sempre a mão, em rédea curta, sempre próximo dos olhos e das mãos. Os motivos são óbvios. Mas as vezes temos aqueles instantes de bobeira e eles se soltam, se vão. Aproveitam da nossa distração e partem pra experimentar o novo, a liberdade sonhada, espaço almejado, enfim, o que será que se passa dentro de cada um? E assim, lá estava eu, com amigos, chovia, lama, buracos, frio. Uma dessas aventuras que a gente se mete a convite dos amigos. Mas junto com os amigos a gente topa até passeio de índio, lá estávamos nós. 
Quando percebi, não estava mais ao alcance das mãos ou dos olhos. Olhei em volta, perguntei aos que estavam por perto. Voltei ao carro e nada, uma sensação angustiante e de vazio tomaram conta de mim. Comecei a correr pelos lugares que já tinha passado e nada. Pedi para os amigos que estavam próximos de mim, que ajudasse a procurar e a chamar por ele. Nada! A sensação era terrível. Tudo nessa hora passa na sua cabeça. Onde estará, o que será que aconteceu, está com alguém ? Momentos torturantes. Até que de longe eu avistei. Caído na lama. Entre os buracos da rua, cheio de lama. Corri ao seu encontro. Á distancia não acreditava no que estava vendo. Não podia ser verdade, mas era. Lá estava ele, estirado no chão. Só, abandonado, sujo e aparentemente sem vida. Com carinho eu o peguei, limpei o que era possível. E ví que definitivamente estava sem vida. Não respondia a nenhum dos meus estímulos. Era o fim. Ele estava morto. Uma tristeza profunda toma conta de mim. Não sabia o que fazer, nem como agir. Estava desnorteado.
O que me deixa estarrecido é a falta de solidariedade e compaixão da pessoas. Não foram capaz de impedir, nem de socorrer. 
Apesar da sua breve vida, vivemos muitas coisas juntos. Alegria, tristezas, momentos de prazer, trabalho. Enfim ele se foi. Meu celular foi atropelado. Estou arrasado. Neste momento, de luto.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Marcelino e Severina

MARCELINO E SEVERINA.

Chegou do norte como quem chega do nada, e na bagagem de mão e da vida, tudo, menos instrução.
Assim chegou Severina. Semblante severo. Olhar Sereno. Apesar da vida marcada pela vida, trazia o desejo da esperança, que não sabia de onde viria, mas que viria, sabia.
Conheceu Marcelino. Um menino. Que professava a arte da madeira. Marcelino, marceneiro era. Sempre seria. Seu pai foi. Nunca conceberia saber outro saber. Já sabia o que era. Sempre soube o que seria.
Marcelino conhecia Severina aos poucos. Como se deve conhecer quem vai se amar para sempre. Conhecia, amava e entendia, mas não compreendia o seu não saber. Não entendia como alguém não sabia ler ou escrever. Ensinar ele tentou e a ambos frustrou. Mas os seus amores cresciam, disso, eles sabiam.
Marcelino marceneiro, acostumado a vencer a resistência e a dureza da madeira, escolheu novo ideal. Venceria o não saber de quem sabia, que poderia vencer. O de saber ler e escrever.
Marcelino então foi aprender, saborear novo saber. Rompeu com seu destino, professor queria ser. E uma nova sina, logo teria.
Marcelino, bom menino aprendeu logo o novo ofício. Madeira mesmo, agora só via no lápis, torneado e apontado. Mas Severina, a nova matéria prima, que daqui pra frente tornearia, logo outra resistência ofereceria. Matéria prima que uma vez marcada, pra sempre ficava.
O que aprendeu não resolveu, o pulo do gato ninguém ensinou, ou não sabiam. Ensinar, achou, que fácil seria, na verdade difícil missão se tornaria, pois com Severina nada conseguia.
Apaixonou-se por professar a arte de professorar. Foi um mestre de seus pares. A criançada, a nenhum outro preferia. Mas ainda não entendia, como Severina nada aprendia. Ainda assim amava, aquela, que não lia ou escrevia.
Sem saber como e porque, Severina, entendeu sem querer com a amiga Maria, o que Marcelino tanto lidava e ela não aprendia. Era só alegria o que ela sentia. Finalmente daria esta alegria a ele que tanto bem lhe queria.
Marcelino quando soube, ficou cheio de emoção e alegria, porque finalmente Severina, alfabetizada seria. O que ele ainda não entendia, era porque com ele, ela não aprendia.
Olhando daqui, sem conhecer essa moça e esse moço, o que logo ouço do meu coração é que Severina não aprendia porque que era o homem que ela queria e não ao professor que de tudo sabia.
Hoje Severina mulher de Marcelino, é professora que gosta de alfabetizar, e sabe como ninguém que para aprender e para amar é preciso se entregar .

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Meu encontro com Celeste


Meu encontro com “Ela”.
E ficamos assim, por um longo tempo nos olhamos. Não conseguia tirar os olhos dela. Tinha um olhar insidioso. Penetrantemente verde.  Lindos. Tinha pose, uma certa superioridade.  Mostrava a língua de forma provocativa, o que as vezes me levava a evitar o seu olhar, mas eu não conseguia, não podia . O corpo jovem demostrava a sua força e vitalidade. Sentia na minha perna o seu toque. Me chamava. Pequenos toques. TAP TAP TAP. E de novo como mais intensidade TAP TAP TAP TAP TAP. As vezes me apertava com mais força para chamar a atenção do que estava acontecendo ali. Ela estava embaixo de mim.
Isso aconteceu quando resolvi ir ao Bonete, comunidade “quase” isolada em Ilhabela/SP em uma caminhada solitária de 12 kilômetros de trilha, com subidas íngremes e descidas, que era preciso colocar a mão no chão pra dar apoio, travessia de pontes e rios. Era um desafio pessoal. Na verdade várias situações a superar.
Quando se começa a caminhada numa trilha dessas, tem que se tomar alguns cuidados. Folhas secas no chão podem esconder aranhas, cobras ou bichos menores. Prestar atenção em ramos e galhos, pois pode se encostar em folhas urticantes, teias de aranha, vespeiros. Mas depois de um tempo de caminhada, vc só quer acertar o próximo passo, buscar o ar que está faltando e tentar não pensar na frase “o que é que eu tô fazendo aqui ?!”. Nessa hora vc pensa na sua casa, na cerveja gelada e no sofá confortável. E que voltar pode ser tão ruim ou pior do que o esforço de terminar. Até pq a sensação de ter “arregado” é horrível. Esse desespero, vem sempre a meio caminho do destino.
No começo vc se acha o máximo. Acreditando que é logo ali e que está inteiro, molezinha! Depois de um tempo ou respira ou pensa. As duas coisas não funcionam juntas.
Como foi que encontrei com Ela ?
Então,  já sem fôlego e quase cambaleante em meio a tanto esforço pra subir a pirambeira, lá está ela. Embaixo de mim, sob os meus pés. Quase me faz escorregar. Só a vi de canto de olho, depois que a passada já havia sido dada, e o pé tocou o chão.
Sem pensar ou instintivamente mantive o pé sobre ela. Ela me olhava com um olhar penetrante. Me provocava mostrando a língua, e quando fui me ajeitar para não perder o equilíbrio, apertei-a mais ainda e como reflexo, ela se agarra na minha perna com a cauda. Sim tinha um rabão daqueles, era uma cobra. Seu corpo frio e escamoso me aperta a panturrilha suada e a ponta da sua cauda me chamava num tipo de Ei , me solta !!!! Tap tap tap.  Quando apertei mais, de novo recebo os tapinhas tap tap tap tap tap, e imaginava o que ela queria me dizer “ Ei, qual é? Me solta!!!
Estávamos ali, os dois, em um momento intimo, ligados pelo olhar, presos um ao outro. Se eu soltasse ela me mordia.  Imaginei ela me dizendo : me solta cara, qual é tá machucando!!! Se eu soltar vc me morde, eu respondi. E ela retruca, mas é claro vc está com o pé no meu pescoço. Mas foi sem querer, retruquei. Sessou a conversa. Afrouxo um pouco o pé e de novo, ela faz um ruído rascante e tenta virar a cabeça para me picar. Não temos outra saída, vc vai mesmo me picar? perguntei, e ela me responde, claro essa é a minha natureza, qual e a sua?, ela pergunta. Bom, pensei com as alças da mochila que estavam me ardendo o ombro: Somos mega predadores, matamos e caçamos sem necessidade, esgotamos e poluímos a natureza, tá certo, vou ter que te matar, respondi. Se ela pudesse engoliria em seco, mas com o meu pé no pescoço não dava. Olhei em volta, não achei nem um pedaço de pau que pudesse me ajudar, pela frente uma subida enorme que já vinha me desgastando a uns bons minutos. Não tinha coragem de mata-la, se tivesse já teria acabado com essa história. Resolvi então tentar uma saída, fui apertando de leve até ela não se mover mais e soltar da minha perna, talvez assim conseguisse pega-la pela rabo e atirar longe ou empurrar para longe com os pés mesmo. E assim eu fiz, fui apertando, ela se debatendo. Que aflição!!! Até que seu rabo perdeu a força e se soltou da minha perna, peguei pelo rabo sem soltar a cabeça que estava debaixo do meu pé e atirei longe. Assustado com aquilo tudo, arranjei um último folego e sai correndo morro a cima. Quando consegui me achar em segurança, olhei pra ver se encontrava a minha amiga Celeste, sim dei nome pra ela ora essa, afinal no meio de tanta intimidade tinha que ter nome. Sim, as referências são da celeste do castelo Ra Tim Bum, sim, sim, eu assisti. Bom, continuando, tentei ver se encontrava a Celeste, demorei mas encontrei seu corpo esguio e colorido estendido no chão, eu a tinha matado :( Lamentei. Pensei em ir lá tirar os seus restos mortais do caminho, podia assustar alguém. Fui descendo devagar tudo o que já tinha subido com sacrifício, olhando para o seu corpo estendido no chão. Quando comecei a chegar mais perto, eis que ela se mexe!!!! #@&»:\§£@ TA VIVA !!!!!! (Sim é um palavrão!!!) Gente nunca senti um arrepio tão forte como aquele, gelado, por dentro, trinquei de medo, virei as costas e subi voando o morro, nem sei de onde tirei tanta energia. Segui meu rumo e Celeste o dela. Nunca mais nos encontramos, ainda bem. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Bem mais que o tempo

Bem mais que o tempo.

De frente para a penteadeira ela tinha tudo do que precisava, e do jeito que gostava que suas coisas ficassem. Escovava os cabelos recém cortados. Sentia falta do resto dos cabelos que haviam ficado no chão do salão. Ela disparava perguntas para ele que estava lendo na cama. E quando lia quase não ouvia o que ela dizia. Mesmo assim ela insistia e o crivava de perguntas.
O que você achou do meu cabelo? E olhava pelo espelho esperando resposta. Não só verbal, mas a cara de aprovação que ele costumava fazer. Sabia que se ele respondesse sem olhar era porque não tinha gostado.
Ficou bom, eu já lhe disse – Respondeu olhando para o reflexo do espelho. Não sei porque você cortou. Já disse que gosto deles compridos. Mas você não me ouve. Depois fica me perguntando o que achei.
Ela procurando os olhos dele pelo reflexo do espelho retruca. Eu sei, mas agora que está cortado. O que você achou?
Ele se levanta e diz com a voz cheia de carinho. Meu bem você sabe que eu gostei. Gosto de você assim também. Com o cabelo curto, você fica como na foto que esta na minha mesa, lembra? Ele chega até ela e sentou-se a cavalo na banqueta de frente ao espelho, tomando a carinhosamente nos braços, beijando o rosto. Ah! Disse, incrédula. Você sempre diz isso. Ele riu, e olhou diretamente para ela e a apertou com um abraço forte. Bobinha, ele disse. Ela sorriu e se apertou contra o corpo dele, encostando a cabeça no ombro forte.
Olhando ainda para o espelho ela passa as mãos ao lado dos olhos e pergunta. - Você acha que devo fazer uma plástica, para tirar essas rugas? Tirar esse ar de cansado. Ela a pega pelos ombros e a coloca de frente e a olha no rosto demoradamente e diz – hum! Pensando bem... eu acho que...bem....deixa eu ver... Virando o rosto dela para os lados segurando pelo queixo delicado, como se observasse melhor. Finalmente diz – Não, esta bom assim. Ela protesta batendo com a mão mole no ombro dele dizendo dengosa. – Seu bobo! Não fica me fazendo de ridícula assim. - Estou falando sério. Disse ele, acariciando o cabelo recém cortado. Ela adorava estas sessões de perguntas ao passo que para ele era um exercício de paciência. Mas que fazia com carinho, pois sabia que para ela era importante esse exercício de afirmação da sua “condição feminina” como ela sempre dizia. Infelizmente nem sempre conseguia responder da forma como ela queria e logo ela ficava emburrada. Dizia que estava velha e feia e que ele não se sentia mais atraído por ela. Ai não tinha concerto, só no dia seguinte.
Não satisfeita, ela abre o penhoar e descobrindo o colo. Provoca, passando a mão sobre os seios. Eles não estão muito tristes, sem vida? Para com isso, vocês mulheres são muito severas com vocês mesmas. Ninguém esta falando nada e vocês vivem vendo defeito. Diz ele, quase a beira da irritação. Levantando-se volta para cama onde estava. É nada! Afirma ela nervosinha. Empertigando o corpo para frente para ver se mudando a postura, seus seios pareceriam diferentes. Virou se de lado, depois do outro, levantou os com a palma das mãos, sentido o volume e peso. E atirou contra ele a afirmação que mais gostava de fazer. Com o dedo indicador levantado, disse: Você, nestes anos todos, nunca me deixou fazer uma plástica, nem uma. Bobagem, dizia ele, o principal esta ai, você. O que eu quero em você, de você, está como eu gosto e amo.Você, assim do jeito que te conheci. Se bem que se ela quisesse, na verdade, teria feito e nem teria perguntado. Ambos sabiam disso.– Mentiroso, disse ela brincando e se levantando da banqueta da penteadeira, indo na direção dele. – Eu sei dos olhos compridos que você tinha para umas e outras, que tinham outros predicados diferentes dos meus. Um pouquinho mais aqui, e arrebitando mostrava com as duas mãos um bumbum maior. Um pouquinho mais ali, e forçando o tronco para frente mostrava com as mãos seios mais volumosos. – Larga de ser bobinha, sempre a mesma história. Mas seja lá quem você esta imaginando, no mínimo tinha menos aqui e aqui. Mostrando a cabeça e o coração. Ela que estava em pé ao lado dele, sentou-se ao seu lado na cama e lhe apertando as bochechas, coisa que ele detestava, e ela sabia, disse: Sempre a mesma conversa. Você é um grande galanteador, sempre foi. Sabia levar todos na lábia. É verdade. Estamos aqui hoje depois de tanto tempo porque? Riu. Fazendo cócegas na cintura dela, coisa que ela detestava mais que tudo e que ele também sabia. Mas como o clima estava mais pra namoro do que pra encrenca. Até que ele querendo virar o jogo, disse. É, eu também não posso falar nada mesmo, se eu também não sou mais aquelas coisas, o físico de nadador já era, as entradas já são um fato, a barriga é uma realidade e o desempenho, bem isso então nem se fala. Lá vem você com essa história de macho, disse ela querendo desarma-lo. Não começa porque você sabe que eu não acho nada disso. Já te falei. Porque vocês homens acham que é só assim que nós entendemos essas coisas. Ele não perdeu a chance de retrucar. É isso que eu estou dizendo pra você querida. Disse ele, largando o jornal que inutilmente tentava ler, e com carinho puxou a sobre si e a abraçando com força, amassando o jornal entre eles. Ainda olhando a nos olhos bem de perto, ele disse: O que eu vi em você 40 anos atrás ainda continua me encantando depois de tanto tempo, depois de tanta coisa que passamos juntos depois de todo desentendimento que tivemos. Independentemente destas coisas eu nunca deixei te amar.Claro fiquei triste, chateado bravo, irritado. Sei que você também ficou comigo. Mas nunca deixei de ter dúvidas do meu amor por você. Mesmo quando as coisas não iam bem. E olha que não foram poucas vezes e por vários motivos. Mas não é disso que eu estou falando, disse ela tentando desviar o assunto, pois estava ficando com os olhos cheios dágua. Ele insistiu.  Assim é com o seu corpo. Temos 60 anos. Não! gritou ela. Você tem 60, eu tenho 59. Riram e se abraçaram. Escuta, disse ele retomando a conversa e puxando o queixo dela para si. Meu olhar ainda te vê, cheio de desejo como no começo. Meu olhar envelheceu junto com a gente. Então é como se sempre fossemos assim, no começo e agora. Ela gostava quando ele dizia essas coisas, pois sabia que eram verdadeiras. Suspirou fundo cheia de emoção, afinal ela era generosa até com as lágrimas. Abraçaram-se forte. E ficaram assim até que ela se ergueu sobre ele e beijando lhe a boca disse. Você é um danado mesmo heim! Sabe me amolecer. Meu lindo. Ele gostava que ela o chamasse assim, e ela sabia. Cheios de ternura um pelo outro continuaram abraçados, ela sobre o peito dele, em silêncio se acariciando, pensando no que haviam conversado e por tudo o que já haviam passado. Ela, num sobressalto, quebra o silêncio e diz baixinho - Apaga a luz, apaga. Agora quem vai te amolecer sou eu.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Elisa e Roberson

Elisa e Roberson


“Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram.”
“Feliz daquele que acredita... mesmo sem ver”

“O dia a dia de quem trabalha com as pessoas é cheio de experiências inusitadas. São histórias ricas, e devem ser acolhidas com carinho e respeito. Alguns profissionais procuram não se mobilizar com estas histórias. Para que não haja envolvimento emocional. Assim não partilham destes sentimentos, não tomam consciência da realidade das pessoas. Não por descaso, desinteresse, mas por defesa. Para não sofrerem com as coisas que são incapazes de entender, de interferir.
A história de Elisa e Roberson é uma destas que chamam a atenção da gente, e nos fazem repensar conceitos e juízos. Eis a história.”
Elisa estava ansiosa para amamentar. Naquele dia em especial estava alegre, pois sentia que seu peito estava cheio, seu leite tinha aumentado. Sobrava, ensopando a camiseta de campanha política que estava usando.
O bebe, um menino lindo e rosado, de mais de 3 kilos, chorava a plenos pulmões pedindo o que lhe era de direito. A mãe. O peito. O leite. O carinho e a alegria que vinham do coração de sua mãe. A alegria que transbordava como o leite, que se transformava, em algo mais que o alimento, no sentimento de ser desejado, amado. Alimento que nutria a alma. E o fazia se sentir querido.
Elisa era nova, tinha 17 anos, quando engravidou de não se sabe quem.  Tinha o perfil das estatísticas. Mulher jovem da periferia, pobre, primeira gravidez, não planejada. Quando se conta esta história logo se imagina uma jovem com um fogo de hormônios incendiando todos os orifícios de seu corpo. Sim, estava tudo lá como é próprio às jovens desta idade. É esperta, sabe ler, e entende bem das coisas, apesar de falar muito “errado”, segundo explicam suas vizinhas.
Enfim o “bocudo” , como as elas chamavam, abocanhava o peito da mãe, e saciava sua fome de leite e de carinho. Guloso e esfomeado, às vezes ia com muita sede ao pote, ou ao peito, e dava umas mordidas que faziam Elisa estremecer, e se assustar tanto, que quase a derrubavam da poltrona onde estava sentada. Mas o sorriso e a alegria voltavam ao seu rosto e ela continuava com a intensa expressão de prazer enquanto amamentava.
Dava um certo trabalho colocar para mamar o menino que se chamava Roberson, nome que a mãe mesmo escolheu, cheia de orgulho. Era um menino grande que nasceu com 47 centímetros, agora com 15 dias pesava 3,5 kilos, e essa era uma das dificuldades em colocar Roberson pra mamar.
Elisa tinha gerado Roberson deitada durante os nove meses sem grandes problemas, toda feliz com a gestação, e com a atenção que estava recebendo. Todos se mobilizaram em ajuda-la. O dia todo tinha gente em volta trazendo alguma coisa ou fazendo companhia. Ela também não ligava para os comentários das vizinhas enxeridas e maldosas. Nunca imaginou que teria tanto paparico.
Já fiz várias visitas a favelas e cortiços, conheço bem os lugares pobres e marginalizados de muitas cidades. Naquele, não havia nada de especial, era mais um barraco, pobre como muitos. Pessoas simples e lutadoras como se vê nestes lugares e em outros, que tinham em comum além da miséria, a esperança. Elisa e Roberson eram também os motivos de alegria para a aquela comunidade, apesar de toda dificuldade.
Quando entrei no barraco e me deparei com a cena de Elisa amamentando “Roberson o bocudo”. Fiquei atordoado. Uma sensação estranha me encheu por dentro, e me fez parar e encostar no batente da porta do barraco frágil, feito de um amontoado de tábuas e placas de outdoor.
Vi uma menina que tinha Paralisia cerebral, com a blusa levantada acima do peito, abanando freneticamente e cheia de alegria, os bracinhos que ficavam flexionados junto ao corpo, e falando com voz que saia do fundo da garganta e pouco inteligível – “meu nenê, meu nenê!!!!”.
As vizinhas que passaram a cuidar de Elisa, tinham que segurar o garoto, pois Ela “não tinha braços ou mãos”, por assim dizer, que ajudassem. Mas tinha o coração cheio de amor e o peito miúdo cheio de leite, que acolhia, saciava. Calava o choro do seu filho. Sua alegria era radiante. Sua felicidade desconcertante. Eu imaginava que seria impossível ver naquela cena qualquer possibilidade de felicidade. Pois ali havia muita felicidade, alegria, realização, e o desejo. Desejo de uns pelos outros.
Elisa mal ficava sentada devido a tanto tempo deitada e mal posicionada. Não conseguia controlar o tronco. Nunca tivera tratamento adequado para sua síndrome, vivera a vida toda na cama.
Se fosse atendida sua história seria outra. Agora talvez estivesse segurando seu filho.
Mas este não foi e nem seria seu único problema. Se bem que até o momento, de certa forma, as coisas se resolveram a seu favor.
Tudo começou, quando sua mãe a colocou para fora de casa. Pegou uma cadeira destas de fios de plástico colorido, uma espreguiçadeira, e a colocou na calçada de frente para a rua, próximo ao barraco. Quando as vizinhas viram, não entenderam, mas como a mãe de Elisa bebia muito, imaginaram que fosse mais uma das suas. Conforme anoitecia e as vizinhas ainda viam Elisa na rua ficaram preocupadas, pois naquela favela o toque de recolher era pra valer. E foram saber o que tinha acontecido. Elisa estava grávida e quando os sinais da gravidez apareceram foi colocada pra fora do Barraco. Foi um rebuliço na comunidade. E não houve meios de fazer a mãe de Elisa voltar a traz.
Foi uma das muitas Marias, mulher daquela comunidade, que acolheu Elisa junto aos seus cinco filhos, em um dos muitos barracos de madeira e zinco a beira córrego do Jacaré.
Elisa vivia na verdade, nesta espécie de prisão. O seu corpo. Não tinha movimentos para ser independente, mas tinha a lucidez e a inteligência preservadas. Era alfabetizada, sabia ler. Como aprendeu, ninguém sabe, pois ninguém ensinou. Alguns diziam que era de tanto ver televisão, outros que foi a amiga, a filha da vizinha que sempre brincou de escolinha com ela e foi ensinando aos poucos. Fiquei sabendo que de todas as vizinhas, inclusive a dona da casa, quem lia melhor era Elisa. As pessoas da igreja vinham rezar o terço semanalmente e traziam a Bíblia que era lida por Elisa. Aos trancos e sem entender os nomes difíceis que lia, mas que todos entendiam e consertavam a mediada que ela prosseguia com a leitura.
E essa era a cena. Uma poltrona aos pedaços, que tinha no lugar de uma das pernas um bloco de cimento dando apoio. Muito pouco estofado e coberto com uma colcha já bem puída pelo uso, mas limpa, muito limpa. Atrás dela uma folhinha do Sagrado Coração de Jesus. Ao lado, a cama que também servia de berço. Uma estante com a televisão e o aparelho de som. Tudo no primeiro cômodo do barraco, o que seria a sala. Dali mesmo podia se ver a cozinha, que tinha uma janela de madeira de frente a pia. O que dava luz para dentro dos dois cômodos. Panelas, lata, leiteiras, todas penduradas na prateleira acima da pia e preciosamente areadas, como novas.
Elisa estava sentada com pernas e braços flexionados, travesseiros arrumados ao lado do corpo para que se mantivesse sentada. E Roberson o “bocudo”, sugando com vigor, segurado por Dona Maria, que dividia com orgulho a maternidade de Elisa. Ela e todas as outras Marias da sala que estavam ali “assistindo” Elisa e Roberson.
O menino ganhava peso como previsto. Reações e reflexos próprios para idade, vacinas em dia. A mãe sem problemas para amamentar. Ambos dormiam bem a noite, intestino funcionando bem. Sem novidades, exceto tudo. Tudo ali era novo. Junto com Roberson nascera um ânimo novo entre eles. Uma esperança nova. Não se sabia do que, pois as dificuldades eram as mesmas. Mas se aspirava algo novo. E isso podia ser visto no rosto de todos. Só eu não entendia o que era.
Quando iniciei a conversa com Elisa, no início foi difícil, pois não estava acostumado com o seu jeito de falar. O que me fez pedir que ela repetisse várias vezes algumas de suas falas. Mas, com calma ela entendia minha dificuldade e repetia com mais calma.
Elisa falava da felicidade que sentia por seu filho. Como se fosse planejado e desejado. Falava do que esperava para o futuro. Apostava nele como uma projeção de si. Da capacidade de realizar que ele teria, por não ser deficiente como ela. De estudar, para ser alguém, ser feliz e ter um futuro na vida. Não se incluía nos planos, não falava de si, no futuro. Só em Roberson. E isso chamava a atenção. Não queria o filho como uma chave para sua saída daquele lugar, ou o conforto da velhice. Até porque tinha bem a noção de tempo e sabia que isso demoraria muito. E comumente as pessoas que vivem nesta realidade vivem o hoje, “do amanhã ninguém sabe”, diziam as Donas Marias. Impressionava, a certeza de que educaria seu filho com a firmeza necessária para que ele a obedecesse. Mesmo ela sendo uma deficiente física, como se auto-intitulava.
Perguntei se não tinha medo de que o conselho tutelar tomasse alguma medida com relação aos cuidados do seu filho. Sorrindo, estampou no rosto a mesma felicidade de quando estiva amamentando. Olhou para as Marias que estavam a sua volta e disse – “As minhas mães cuidam de mim”.
Dona Maria, a dona da casa, disse que tinha pedido a guarda provisória da Elisa e do menino, e que o conselheiro do bairro já tinha ido conversar com ela sobre o caso. Isso já estava resolvido.
Depois de muito tempo, entenderam que eu não era uma ameaça e pude ficar a sós com Elisa. Roberson já saciado e trocado, dormia profunda e calmamente na cama ao lado da poltrona. Pude então perguntar sobre o pai do garoto. Se ele não iria ajudar a cuidar do menino. Surpresa com a pergunta, que segundo ela ninguém tinha tido a coragem de fazer, resolveu contar o que acontecera. Contou que a mãe sempre trazia homens para casa para ganhar algum dinheiro. Mas estava sempre tão bêbada que quase nunca ganhava nada. Algumas vezes esses homens abusavam dela com o consentimento da mãe. Alguns ficavam chocados com a presença de Elisa e iam embora. O que deixava a mãe furiosa, aos gritos de inútil, imprestável, atrasa vida. Mas tinha um rapaz, um freguês habitual, que depois que resolvia seus particulares, ficava na conversa com Elisa horas e horas. O que só era possível porque a mãe estava desmaiada de tão bêbada. Às vezes ele aparecia quando ela estava sozinha e assim ficavam um tempão só conversando. “Era com se a gente tava namorando”, disse. Contou também que perguntou porque ele vinha tantas vezes com a mãe dela, se ele gostava, se ele tinha tanto dinheiro. E ele muito sem jeito, respondeu que não gostava muito, no começo sim, afinal era homem, e homem tem essas necessidades.  Mas na verdade, era para que outros não viessem mexer com ela. Pois ele sabia que isso acontecia. Ela já tinha sido oferecida para ele também, mas havia recusado. E que não tinha muito dinheiro, trabalhava muito e pesado, mas quando não tinha dinheiro, era só dar umas pingas que resolvia, ela dormia e eles podiam conversar. “Ai, eu que não sou boba, vi que ele gostava de mim”, esforçou-se a dizer com um sorriso de menina no rosto.
Parecia impossível estar ouvindo aquilo tudo, era difícil acreditar. Ela quis me dizer em segredo o nome dele. Chamava-se Roberto, e tinha quase a mesma idade que ela. Se bem que, segredo no tom de sua voz, não tinha como. Mas não importava para ninguém que estava ali. Todos sabiam o que acontecia na casa de Elisa, e cada um cuidava de si como podia, se respeitavam a medida do possível, não interferiam na vida do outro. Só vivendo junto para entender esta forma de convívio. Só passando pelas dificuldades que estas pessoas vivem, pode se entender esta história toda. Então Elisa me conta que eles namoraram. Como assim, perguntei. E tive com resposta. “Seu bobo, você não sabe, até parece!” Fiquei com a cara no chão. Passei pelo meu vexame em silêncio. Até que quebra o silêncio e esclarece orgulhosa. “E foi eu quem quis, ele estava com vergonha de mim”. Perguntei como ela sabia que o filho era dele, e ela me responde com toda sabedoria do seus bem vividos 18 anos. “A gente sabe destas coisas”. E fazendo uma expressão grave disse que ninguém podia saber de quem era o filho, senão matavam. E me garantiu que eles iam se casar um dia, quando ele tivesse um barraco pra poderem morar juntos. Mas teriam que esperar até que ele tivesse um emprego melhor. Roberto era chapa, ajudava a carregar e descarregar caminhões. Tudo era tão absurdo, que não dava pra duvidar de nada. A convicção, a certeza de Elisa, a naturalidade daquela situação era assustadora. A naturalidade das pessoas a volta da mãe e filho davam conforto, credibilidade e esperança aquela situação.
Com Roberson e Elisa, estava claro para aquelas pessoas da comunidade, de que tudo é possível. Eles não podiam imaginar que Elisa naquelas condições geraria um filho normal, amamentaria e teria lucidez para pensar o que todos sabiam. As mães de Elisa não viam como um problema ou sacrifício todo o seu trabalho e esforço, que era na verdade o que garantia sustentação para aquelas duas vidas. Acreditavam em algo mais, e me disseram isso. “Só pode ser um sinal de Deus, uma mensagem de vida pra gente, pra não esquecer que tudo é possível”. Com tantas Marias, não podia ser diferente. Elas acreditavam, e isso bastava. Que assim fosse.
Quando a lucidez voltou, me perguntei o que é que eu estava fazendo ali. O que é era mesmo o que eu tinha que fazer? Mas isso já não importava mais.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Amor Paralisado

Amor paralisado

O quarto era decorado com algumas gravuras que combinavam com o ambiente. Discretas, serviam mesmo para compor o todo. Mostravam uma paisagem campestre de um país que não era este, com árvores que formavam uma alameda iluminada pelo sol, com folhas secas amareladas em todo o caminho. Via-se também uma ponte de madeira coberta com um telhado, como uma casa sobre o rio. Um bom lugar para passear em um fim de tarde, de mãos dadas com ele, a quem não via já há alguns meses. Desde que se despediram no hospital.
O sol que entrava pela janela iluminava os pés dela sob o lençol estampado, que emprestavam um pouco de vida ao ambiente e que cobriam toda a cama. Ela ficava olhando o sol subir lentamente pelo seu corpo, imaginando sentir o carinho quente que ele provocava, e de que sentia tanta saudade. Observava o sol e o tempo que passava. Ansiava a chegada dele até seu rosto onde finalmente poderia senti-lo de verdade com toda sua força e calor. Quando ele estava todo sobre ela, fechava os olhos e imaginava os momentos em que se sentiu inundada do seu calor, de sua paixão, de seu amor. Mas não podia ficar assim por muito tempo, o sol, era inclemente para quem abusava dos seus prazeres, do seu calor. Mas se administrado com carinho, e depois que ele se deliciasse com nuvens e campos, horas depois voltava para ela e poderia ser saboreado novamente. Já o outro de quem se lembrava com carinho e reclamava silenciosamente o calor do seu corpo e do seu coração, não passearia sob o seu corpo como o sol acabara de fazer.
Hélio. Sorria agora, quando pensava no nome dele, acabara de ser possuída por um outro de mesmo nome e achou isso divertido.
Com os acontecimentos ainda tão recentes, sentia-se confusa com tudo que aconteceu. As lembranças mais antigas às vezes faziam parte de algo muito próximo, algo do ontem à tarde, quando saíram para as compras, ou quando ficavam juntos lendo, sem nada dizer um ao outro, durante muito tempo. Mas a lembrança da cena de um adeus triste e consentido vem a sua memória. Confirma o fim de tudo, flashes do momento em que tudo aconteceu surgem a sua frente. Escuridão total e repentina, falta de ar, frio, dor aguda, desespero, desamparo, medo. Uma luz forte vem como uma salvação no fim de um túnel, que atravessou muito rápido e por onde não se lembrava de ter entrado.  Que agonia sem fim. Que falta de ar. Quero respirar. Algo me aperta a garganta, minha mão não a alcança, não me obedece. Tento balançar a cabeça para ver se algo acontece, mas esta tudo escuro, não consigo gritar. Água, estou na água, boiando de bruços,não devo respirar, não posso respirar, não devo respirar, mas eu quero, eu preciso, meu Deus eu vou sufocar, ninguém me vê, ninguém me acode. Posso ver o fundo do mar, meus olhos ardem, ouço as crianças brincando e gritando, “ela ta afogando, ela ta afogando”, não agüento mais, estou chorando, vou morrer esquecida, com plena consciência, morrer por não poder me mexer, vou explodir, onde estão todos, socorro. De olhos fechados inspiro assustada ar, ar, ar, finalmente abro os olhos, estou em um quarto de hospital, lugar que não conheço, parece que só tenho cabeça e que é enorme, dói muito.
Meu pai abre a porta do meu quarto e me pergunta se estou bem, e se agora que acordei, quero alguma coisa. Pergunto quem ligou, e ele me disse a lista de amigos e clientes que tinham ligado hoje. Já fazia seis meses desde que uma onda forte na praia de Ubatuba, com um tranco inesperado me jogou contra um banco de areia e me deixou paralisada do ombro para baixo. Estou aqui, cama hospitalar, sonda entrando, sonda saindo, fraldão por garantia, mas nada de movimento, nada de sentir, só uns movimentos que os médicos dizem ser involuntários. Grande coisa, não presto mais para nada.
A primeira pessoa que vi assim que acordei no hospital estava, constrangedoramente entre as minhas pernas, como dizem, “passando a sonda”, e eu sem saber do que se tratava. Assim que me olhou disse: fique tranqüila você não vai sentir mais nada mesmo, e saiu. Chorei, descobri que isso eu ainda podia fazer por mim mesma.
Sai do hospital sabendo tudo o que queria e o que não queria saber da minha nova condição de paralisada medular.
Quando encontrei Hélio sabia que seria o fim de tudo, não tinha cabimento um homem jovem e cheio de vida ficar preso a uma inválida sem futuro, e assim nos despedimos. Ele, calado, pálido, suando frio, não sabia muito o que dizer ou fazer, só lamentava e se desculpava, via-se que estava perdido, angustiado, amargurado, sofrendo. Como eu detestava vê-lo naquela condição. Não o culpava ou censurava por ir embora, não podia ser diferente. Eu mesma havia mandado que saísse da minha vida. Enfim acabamos, acabei, acabou. Chorei novamente e isso eu já sabia que podia fazer por mim. Agora só precisava superar a vida.
Tinha que aprender a lidar com os outros e comigo, não precisava aprender a fazer, só precisava aprender a passar pela vida, entender desejos e sentimentos de uma outra forma, se é que existia uma.
Quando me davam banho, e geralmente minha mãe tinha esta tarefa, não deixava que a enfermeira o fizesse, não entendia porque. Às vezes era colocada em uma banheira de hidro com um assento moldado no fundo para não escorregar e ficava ali por um tempo. Todos achavam que seria uma maravilha, eu morria de medo, pois seria um novo afogamento sem defesa. Mas fazia a vontade de todos e tentava controlar meu pescoço, para que não morresse afogada por tombar a cabeça. Quando minha mãe vinha finalmente me lavar e me massagear dentro da água, não falava nada, só acariciava meu corpo em silêncio, passava alguma coisa na mão e me tocava, não me olhava nos olhos, tinha um olhar vago, perdido, fazia tempo que não a via de tão perto, estava envelhecendo. Era engraçado ver estes sinais que ela sempre se recusava a aceitar. Ri sem querer dos meus pensamentos e ela se assustou, pois estava envolta com seus pensamentos sabe-se lá onde. Perguntou se sentia alguma coisa, cócegas, dor, ficou assustada, perguntou o que era. E quando lhe disse que estava ficando velhinha, ela me olhou nos olhos e riu, sentou no chão do banheiro e riu muito, rimos muito. Até que começou a chorar convulsivamente, pediu desculpas e falou que a enfermeira terminasse meu banho. Fiquei ali olhando meu corpo por sobre a espuma que já raleava na água, meus seios balançavam flutuando nas ondas dos movimentos da água, era estranho vê-los assim, eram ainda jovens, firmes. Olhei para o resto de mim, estava mais magra, e já perdera a cor do verão das praias do litoral de São Paulo e das sessões de bronzeamento. Mas ainda formavam um bonito conjunto de mulher. Afinal não era modelo a toa. Lembrei novamente de Hélio, de como tocava meu corpo, de como nos amávamos, dos prazeres que dividíamos, da cumplicidade dos nossos desejos. Chorei, era só o que eu podia fazer por mim naquela hora.
Voltei para cama, a enfermeira terminava de me enxugar, fazia bem o serviço, mas era impessoal, ela passava a toalha em uma coisa que não era eu, não era meu corpo, que fora desejado, amado, fotografado. Estava nua, e ela passava um creme qualquer. Perguntei o que ela achava do meu corpo, se ela ainda achava que era bonito. Que burra, que resposta eu esperava ouvir, falou o obvio.
Já haviam se passado seis meses. Sentia falta de mim, do meu corpo das minhas sensações, de me sentir viva e pulsante, sentia falta do Hélio, do seu calor do seu hálito, da textura da sua pele, do peso do seu corpo contra o meu, da sua companhia, do seu silencio, da sua cara. E ele apareceu. Depois de tanto tempo sem ter notícias. Tinha acabado de sair do banho, minha mãe nunca mais me dera banho e nunca perguntei porque, não achei que valesse a pena. Meu pai veio me avisar de sua chegada, e surpreendeu a enfermeira nos últimos cuidados para me secar, ainda ficava constrangido em me ver nua, justo eu que já dispensava tanto pudor, nada mais valia a pena. Pedi a enfermeira que só me cobrisse, como fazia às vezes, e pedi que Helio entrasse. Achava que estava mais magro, os cabelos estavam mais compridos. Será que como o sol, tinha se divertido por outras paragens neste tempo que ficamos separados? Mas que bobagem. Pergunta que já sei a resposta, óbvio de novo, estava ficando expert em obviedades. Estava como da última vez, sem jeito, não sabia o que dizer e o que fazer, disse algo sem sentido, bobagens que se diz quando não se sabe o que falar. Me enchi daquilo tudo e pedi que chegasse mais perto, ainda estava de pé, torcendo as mãos. Pude vê-lo melhor, parecia ter murchado, secado, precisava de sol. Disse mais algumas bobagens que não quis entender. Na verdade tinha receio de que visse pena nos seus olhos e na sua fala, pois eu queria mais. Meu coração disparou quando sem pensar pedi que ele levantasse o lençol. Ele acreditando que era algum cuidado de que eu precisasse,  fez sem pensar. Quando me viu nua, ficou paralisado com as mãos suspensas no ar segurando o lençol. Uma luz parece ter passado rapidamente por seu rosto, um leve espasmo fez com que seus lábios se contraíssem. Meu rosto parecia incendiar, meu coração se transformou no meu corpo todo, e pulsava violentamente. Ele de repente ganhara cor no rosto, e por fim me descobriu inteiramente colocando o lençol abaixo dos meus pés.
Enlouquecida pedi que ele se deitasse comigo mais uma vez, que precisava tentar senti-lo junto ao meu corpo ou pelo menos ter esta lembrança dos nossos corpos juntos. Ele desviou seus olhos dos meus, baixou a cabeça, olhou para a porta que estava a sua esquerda, e se dirigiu até ela estendendo a mão em direção a maçaneta. Pousou a mão sobre ela e voltou a olhar meu corpo nu sobre a cama. Queria morrer cem vezes naquela mesma hora, era a minha coroação de rainha das obviedades. Explodi por dentro de tanta raiva e de uma loucura cega, por ter sido tão estúpida a ponto de pedir que aquele homem, e não precisava mais de adjetivos, se deitasse com uma inválida que não conseguia sequer controlar a urina que saia pelo menor de seus orifícios. Com a mão esquerda apoiada na maçaneta puxou a porta e fechou a novamente, com a mesma mão alcançou a chave, trancou a porta e voltou-se na minha direção. Instantaneamente sentia novamente o pudor que havia perdido e uma felicidade tão grande que não podia acreditar. Um desespero tomou conta de mim como se fosse a primeira vez e tinha medo de não corresponder às expectativas dele, mas que besteira, o que poderia fazer senão continuar ali inerte. Foram tantas sensações em tão curto espaço de tempo de quase perdi os sentidos, me segurei para não desmaiar. Mas que estúpida, era só o que me faltava. Ele estava ali, e aceitara a minha loucura. Quando parou frente à cama hospitalar, parecia outro, eu também já era outra, estava mudada com as sensações de trinta segundos, pois não vivia há seis meses. Olhou meu corpo novamente e suavemente o tocou, estava emocionada, já não importava mais nada, estava feliz. Gritava por dentro de alegria,  chorava de felicidade. A loucura agora era outra, era vê-lo, e me ver. Beijou meu ventre com carinho, eu não sentia, mas não importava, eu via, entendia o toque por outro sentido, de uma outra maneira. Encostou o rosto na minha barriga e me apertou contra si. Estava calmo respirava tranquilamente. Afastou-se do meu corpo e da cama, olhei para ele com os olhos cheios de lágrimas e com uma cara boba de extrema felicidade e prazer. Foi quando finalmente ele disse algo que consegui ouvir. Você esta bem?  Você me parece feliz, apesar das lágrimas, mas tenho medo de lhe machucar ou de quebrar algo ou de tirar algo do lugar. Eu quero me deitar ai com você, mas tenho medo. Foi a primeira sensação de prazer que sentia em seis meses de vida paralítica. Só tive forças para disser que lamentava não poder estender meus braços e dizer, “vem meu amor”. Como se algo ainda pudesse me surpreender, deu um passo para trás e começou a desabotoar a camisa, despiu as calças a cueca, sapatos e meias. Estava nu à minha frente. Deitou-se do meu lado e me abraçando aninhou sua cabeça no meu peito. Pude sentir as lágrimas que caiam do seu rosto e escorriam pelo meu ombro. Eu estava viva, podia sentir, agora podia viver.

Verônica e Janice

Lembrei outro dia de duas amigas muito queridas do tempo da faculdade, pessoas completamente diferentes, mas que tinham objetivos de vida, ou não tinham, bem curiosos e peculiares. Nunca imaginei que a história delas fosse ter o desfecho que teve.

A história de cada uma delas vai por caminhos opostos e tem finais curiosos e inusitados.

Verônica uma moça cheia dos predicados físicos, tinha pele clara cabelos negros, resumindo e pra facilitar, um mulherão, com todo respeito. Acontece que ela gostava de uma boa esbórnia e só queria se dar bem na vida. Vivia me dizendo que queria se dar bem, casar com um cara de grana e curtir a vida. Mas era determinante que se desse bem. Ou seja, vida com muita grana, mordomia e sexo. Ela resumia uma boa vida dentro deste tripé, se bem que pra ela essa palavra tinha outra conotação. Enfim arranjou um cara que tinha disso tudo, e de sobra. Muito dinheiro, mas muito dinheiro, gastava sem precisar se preocupar e era um amante da boa cama. Gostava da coisa. Caíram um nas graças do outro. Pasmem, pasmei, casaram. Fizeram um contrato pre-nupcial, claro pq ninguém confiava em ninguém, e casaram. Encontrei com ela alguns anos depois e achei uma mulher mais radiante ainda, peruissima. Almoçava em Paris, para jantar em qqer outro lugar do mundo onde se pudesse chegar com o jato particular do marido. Ganhava uma pensão mensal que é quase tão imoral como essa história. Prefiro não revelar. Me dizia com um sotaque adquirido sabe-se lá onde “querido, isso que é vida, maraviwonderfull”.
Janice uma moça tbem muito bonita, e isso neste caso não vem ao caso, não precisava de dinheiro. Filha única de família rica, tinha muito, sempre teve, mas dizia que tinha um problema: Vivia uma vida bem besta, palavras dela. Tinha uma história não menos curiosa. Dizia que queria casar. Mas que podia ser com qqer um pq já tinha tido tantos relacionamentos mal sucedidos, que não acreditava em mais nada e em ninguém. Mas queria ter um lugar para voltar, uma casa pra cuidar, alguém de quem reclamar. Pq como estava vivendo, não tinha graça nenhuma. Achou “um cara”, como ela dizia. Descrevia como bonzinho, e só. Pareciam compativelmente sonsos pela descrição. Ambos tinham dinheiro, não precisaram de nenhum arranjo jurídico. Na verdade separação total. Ela achava mais seguro, no caso de se separarem (aqui eu preciso dar uma risada kkkk).

O desfecho das duas histórias conto agora:

Neste último encontro com Verônica encontrei uma mulher acabada, sem brilho, sem maquiagem, sem joias, olheiras fundas e escuras. Quase não reconheci. Precisei olhar bem para ter certeza de que era aquela mulher exuberante que eu conhecia na faculdade. E ela me conta o que estava se passando com ela. Tudo vai bem, continua ganhando aquela mesada imoral, viajando para onde quer, não há limites para o que quer fazer. Mas...o marido só quer entrar pela porta dos fundos, todo santo dia, se é que me entendem. Não que não gostasse, mas nesta frequencia estava acabando com ela. Quando ia chegando a noite ela ia ficando desesperada, se sentindo deprimida, agoniada. Assim foi perdendo o gosto pelas coisas, pelo sexo, pelas coisas boas da vida, segundo ela. E perguntei se já tinha falado com ele a esse respeito. Lembro bem quando ela tirou os óculos escuros, mostrando as enormes olheiras, baixou a cabeça e com as lágrimas escorrendo no rosto, disse que tinha medo. Dele? perguntei. E ela me responde com vergonha, “de perder os direitos do contrato nupcial”. Nunca mais vi Verônica.
Janice me conta que em dois anos vajaram o mundo, sem trabalhar. Se deram tão bem, que em mais um ano juntos, unificaram os negócios e empreendimentos que tinham, se desfizeram de alguns outros, capitalizaram e estavam levando uma vida apaixonada, uma lua de mel sem fim. Algo surpreendente para quem só queria “um cara”. No quarto ano desta ilha da fantasia ele teve um câncer fulminante e morre em 6 meses. Janice descobriu naqueles dias que estava com uma gravidez adiantada e de risco. Nunca mais vi Janice.