quarta-feira, 20 de abril de 2016

Amor Paralisado

Amor paralisado

O quarto era decorado com algumas gravuras que combinavam com o ambiente. Discretas, serviam mesmo para compor o todo. Mostravam uma paisagem campestre de um país que não era este, com árvores que formavam uma alameda iluminada pelo sol, com folhas secas amareladas em todo o caminho. Via-se também uma ponte de madeira coberta com um telhado, como uma casa sobre o rio. Um bom lugar para passear em um fim de tarde, de mãos dadas com ele, a quem não via já há alguns meses. Desde que se despediram no hospital.
O sol que entrava pela janela iluminava os pés dela sob o lençol estampado, que emprestavam um pouco de vida ao ambiente e que cobriam toda a cama. Ela ficava olhando o sol subir lentamente pelo seu corpo, imaginando sentir o carinho quente que ele provocava, e de que sentia tanta saudade. Observava o sol e o tempo que passava. Ansiava a chegada dele até seu rosto onde finalmente poderia senti-lo de verdade com toda sua força e calor. Quando ele estava todo sobre ela, fechava os olhos e imaginava os momentos em que se sentiu inundada do seu calor, de sua paixão, de seu amor. Mas não podia ficar assim por muito tempo, o sol, era inclemente para quem abusava dos seus prazeres, do seu calor. Mas se administrado com carinho, e depois que ele se deliciasse com nuvens e campos, horas depois voltava para ela e poderia ser saboreado novamente. Já o outro de quem se lembrava com carinho e reclamava silenciosamente o calor do seu corpo e do seu coração, não passearia sob o seu corpo como o sol acabara de fazer.
Hélio. Sorria agora, quando pensava no nome dele, acabara de ser possuída por um outro de mesmo nome e achou isso divertido.
Com os acontecimentos ainda tão recentes, sentia-se confusa com tudo que aconteceu. As lembranças mais antigas às vezes faziam parte de algo muito próximo, algo do ontem à tarde, quando saíram para as compras, ou quando ficavam juntos lendo, sem nada dizer um ao outro, durante muito tempo. Mas a lembrança da cena de um adeus triste e consentido vem a sua memória. Confirma o fim de tudo, flashes do momento em que tudo aconteceu surgem a sua frente. Escuridão total e repentina, falta de ar, frio, dor aguda, desespero, desamparo, medo. Uma luz forte vem como uma salvação no fim de um túnel, que atravessou muito rápido e por onde não se lembrava de ter entrado.  Que agonia sem fim. Que falta de ar. Quero respirar. Algo me aperta a garganta, minha mão não a alcança, não me obedece. Tento balançar a cabeça para ver se algo acontece, mas esta tudo escuro, não consigo gritar. Água, estou na água, boiando de bruços,não devo respirar, não posso respirar, não devo respirar, mas eu quero, eu preciso, meu Deus eu vou sufocar, ninguém me vê, ninguém me acode. Posso ver o fundo do mar, meus olhos ardem, ouço as crianças brincando e gritando, “ela ta afogando, ela ta afogando”, não agüento mais, estou chorando, vou morrer esquecida, com plena consciência, morrer por não poder me mexer, vou explodir, onde estão todos, socorro. De olhos fechados inspiro assustada ar, ar, ar, finalmente abro os olhos, estou em um quarto de hospital, lugar que não conheço, parece que só tenho cabeça e que é enorme, dói muito.
Meu pai abre a porta do meu quarto e me pergunta se estou bem, e se agora que acordei, quero alguma coisa. Pergunto quem ligou, e ele me disse a lista de amigos e clientes que tinham ligado hoje. Já fazia seis meses desde que uma onda forte na praia de Ubatuba, com um tranco inesperado me jogou contra um banco de areia e me deixou paralisada do ombro para baixo. Estou aqui, cama hospitalar, sonda entrando, sonda saindo, fraldão por garantia, mas nada de movimento, nada de sentir, só uns movimentos que os médicos dizem ser involuntários. Grande coisa, não presto mais para nada.
A primeira pessoa que vi assim que acordei no hospital estava, constrangedoramente entre as minhas pernas, como dizem, “passando a sonda”, e eu sem saber do que se tratava. Assim que me olhou disse: fique tranqüila você não vai sentir mais nada mesmo, e saiu. Chorei, descobri que isso eu ainda podia fazer por mim mesma.
Sai do hospital sabendo tudo o que queria e o que não queria saber da minha nova condição de paralisada medular.
Quando encontrei Hélio sabia que seria o fim de tudo, não tinha cabimento um homem jovem e cheio de vida ficar preso a uma inválida sem futuro, e assim nos despedimos. Ele, calado, pálido, suando frio, não sabia muito o que dizer ou fazer, só lamentava e se desculpava, via-se que estava perdido, angustiado, amargurado, sofrendo. Como eu detestava vê-lo naquela condição. Não o culpava ou censurava por ir embora, não podia ser diferente. Eu mesma havia mandado que saísse da minha vida. Enfim acabamos, acabei, acabou. Chorei novamente e isso eu já sabia que podia fazer por mim. Agora só precisava superar a vida.
Tinha que aprender a lidar com os outros e comigo, não precisava aprender a fazer, só precisava aprender a passar pela vida, entender desejos e sentimentos de uma outra forma, se é que existia uma.
Quando me davam banho, e geralmente minha mãe tinha esta tarefa, não deixava que a enfermeira o fizesse, não entendia porque. Às vezes era colocada em uma banheira de hidro com um assento moldado no fundo para não escorregar e ficava ali por um tempo. Todos achavam que seria uma maravilha, eu morria de medo, pois seria um novo afogamento sem defesa. Mas fazia a vontade de todos e tentava controlar meu pescoço, para que não morresse afogada por tombar a cabeça. Quando minha mãe vinha finalmente me lavar e me massagear dentro da água, não falava nada, só acariciava meu corpo em silêncio, passava alguma coisa na mão e me tocava, não me olhava nos olhos, tinha um olhar vago, perdido, fazia tempo que não a via de tão perto, estava envelhecendo. Era engraçado ver estes sinais que ela sempre se recusava a aceitar. Ri sem querer dos meus pensamentos e ela se assustou, pois estava envolta com seus pensamentos sabe-se lá onde. Perguntou se sentia alguma coisa, cócegas, dor, ficou assustada, perguntou o que era. E quando lhe disse que estava ficando velhinha, ela me olhou nos olhos e riu, sentou no chão do banheiro e riu muito, rimos muito. Até que começou a chorar convulsivamente, pediu desculpas e falou que a enfermeira terminasse meu banho. Fiquei ali olhando meu corpo por sobre a espuma que já raleava na água, meus seios balançavam flutuando nas ondas dos movimentos da água, era estranho vê-los assim, eram ainda jovens, firmes. Olhei para o resto de mim, estava mais magra, e já perdera a cor do verão das praias do litoral de São Paulo e das sessões de bronzeamento. Mas ainda formavam um bonito conjunto de mulher. Afinal não era modelo a toa. Lembrei novamente de Hélio, de como tocava meu corpo, de como nos amávamos, dos prazeres que dividíamos, da cumplicidade dos nossos desejos. Chorei, era só o que eu podia fazer por mim naquela hora.
Voltei para cama, a enfermeira terminava de me enxugar, fazia bem o serviço, mas era impessoal, ela passava a toalha em uma coisa que não era eu, não era meu corpo, que fora desejado, amado, fotografado. Estava nua, e ela passava um creme qualquer. Perguntei o que ela achava do meu corpo, se ela ainda achava que era bonito. Que burra, que resposta eu esperava ouvir, falou o obvio.
Já haviam se passado seis meses. Sentia falta de mim, do meu corpo das minhas sensações, de me sentir viva e pulsante, sentia falta do Hélio, do seu calor do seu hálito, da textura da sua pele, do peso do seu corpo contra o meu, da sua companhia, do seu silencio, da sua cara. E ele apareceu. Depois de tanto tempo sem ter notícias. Tinha acabado de sair do banho, minha mãe nunca mais me dera banho e nunca perguntei porque, não achei que valesse a pena. Meu pai veio me avisar de sua chegada, e surpreendeu a enfermeira nos últimos cuidados para me secar, ainda ficava constrangido em me ver nua, justo eu que já dispensava tanto pudor, nada mais valia a pena. Pedi a enfermeira que só me cobrisse, como fazia às vezes, e pedi que Helio entrasse. Achava que estava mais magro, os cabelos estavam mais compridos. Será que como o sol, tinha se divertido por outras paragens neste tempo que ficamos separados? Mas que bobagem. Pergunta que já sei a resposta, óbvio de novo, estava ficando expert em obviedades. Estava como da última vez, sem jeito, não sabia o que dizer e o que fazer, disse algo sem sentido, bobagens que se diz quando não se sabe o que falar. Me enchi daquilo tudo e pedi que chegasse mais perto, ainda estava de pé, torcendo as mãos. Pude vê-lo melhor, parecia ter murchado, secado, precisava de sol. Disse mais algumas bobagens que não quis entender. Na verdade tinha receio de que visse pena nos seus olhos e na sua fala, pois eu queria mais. Meu coração disparou quando sem pensar pedi que ele levantasse o lençol. Ele acreditando que era algum cuidado de que eu precisasse,  fez sem pensar. Quando me viu nua, ficou paralisado com as mãos suspensas no ar segurando o lençol. Uma luz parece ter passado rapidamente por seu rosto, um leve espasmo fez com que seus lábios se contraíssem. Meu rosto parecia incendiar, meu coração se transformou no meu corpo todo, e pulsava violentamente. Ele de repente ganhara cor no rosto, e por fim me descobriu inteiramente colocando o lençol abaixo dos meus pés.
Enlouquecida pedi que ele se deitasse comigo mais uma vez, que precisava tentar senti-lo junto ao meu corpo ou pelo menos ter esta lembrança dos nossos corpos juntos. Ele desviou seus olhos dos meus, baixou a cabeça, olhou para a porta que estava a sua esquerda, e se dirigiu até ela estendendo a mão em direção a maçaneta. Pousou a mão sobre ela e voltou a olhar meu corpo nu sobre a cama. Queria morrer cem vezes naquela mesma hora, era a minha coroação de rainha das obviedades. Explodi por dentro de tanta raiva e de uma loucura cega, por ter sido tão estúpida a ponto de pedir que aquele homem, e não precisava mais de adjetivos, se deitasse com uma inválida que não conseguia sequer controlar a urina que saia pelo menor de seus orifícios. Com a mão esquerda apoiada na maçaneta puxou a porta e fechou a novamente, com a mesma mão alcançou a chave, trancou a porta e voltou-se na minha direção. Instantaneamente sentia novamente o pudor que havia perdido e uma felicidade tão grande que não podia acreditar. Um desespero tomou conta de mim como se fosse a primeira vez e tinha medo de não corresponder às expectativas dele, mas que besteira, o que poderia fazer senão continuar ali inerte. Foram tantas sensações em tão curto espaço de tempo de quase perdi os sentidos, me segurei para não desmaiar. Mas que estúpida, era só o que me faltava. Ele estava ali, e aceitara a minha loucura. Quando parou frente à cama hospitalar, parecia outro, eu também já era outra, estava mudada com as sensações de trinta segundos, pois não vivia há seis meses. Olhou meu corpo novamente e suavemente o tocou, estava emocionada, já não importava mais nada, estava feliz. Gritava por dentro de alegria,  chorava de felicidade. A loucura agora era outra, era vê-lo, e me ver. Beijou meu ventre com carinho, eu não sentia, mas não importava, eu via, entendia o toque por outro sentido, de uma outra maneira. Encostou o rosto na minha barriga e me apertou contra si. Estava calmo respirava tranquilamente. Afastou-se do meu corpo e da cama, olhei para ele com os olhos cheios de lágrimas e com uma cara boba de extrema felicidade e prazer. Foi quando finalmente ele disse algo que consegui ouvir. Você esta bem?  Você me parece feliz, apesar das lágrimas, mas tenho medo de lhe machucar ou de quebrar algo ou de tirar algo do lugar. Eu quero me deitar ai com você, mas tenho medo. Foi a primeira sensação de prazer que sentia em seis meses de vida paralítica. Só tive forças para disser que lamentava não poder estender meus braços e dizer, “vem meu amor”. Como se algo ainda pudesse me surpreender, deu um passo para trás e começou a desabotoar a camisa, despiu as calças a cueca, sapatos e meias. Estava nu à minha frente. Deitou-se do meu lado e me abraçando aninhou sua cabeça no meu peito. Pude sentir as lágrimas que caiam do seu rosto e escorriam pelo meu ombro. Eu estava viva, podia sentir, agora podia viver.

3 comentários:

  1. E a gente reclama......reclama. Eu convivi com um amigo que aos 26 anos passou por isto. Hje 73 anos casado, conseguiu ter sua filha Marina, hje ainda ele falou comigo...escreveu livros..Minha profissão é andar"...enfim tbém foi atras de amar e ser amado, viver.

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  2. Ah..uma vez, em uma palestra aqui em São Sebastião, uma menina perguntou como era prá ele não sentir nenhum prazer, e ele respondeu : sinto sim, qdo olho para o rosto da mulher que amo e ela está tendo o prazer.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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