quarta-feira, 20 de abril de 2016

Amor Paralisado

Amor paralisado

O quarto era decorado com algumas gravuras que combinavam com o ambiente. Discretas, serviam mesmo para compor o todo. Mostravam uma paisagem campestre de um país que não era este, com árvores que formavam uma alameda iluminada pelo sol, com folhas secas amareladas em todo o caminho. Via-se também uma ponte de madeira coberta com um telhado, como uma casa sobre o rio. Um bom lugar para passear em um fim de tarde, de mãos dadas com ele, a quem não via já há alguns meses. Desde que se despediram no hospital.
O sol que entrava pela janela iluminava os pés dela sob o lençol estampado, que emprestavam um pouco de vida ao ambiente e que cobriam toda a cama. Ela ficava olhando o sol subir lentamente pelo seu corpo, imaginando sentir o carinho quente que ele provocava, e de que sentia tanta saudade. Observava o sol e o tempo que passava. Ansiava a chegada dele até seu rosto onde finalmente poderia senti-lo de verdade com toda sua força e calor. Quando ele estava todo sobre ela, fechava os olhos e imaginava os momentos em que se sentiu inundada do seu calor, de sua paixão, de seu amor. Mas não podia ficar assim por muito tempo, o sol, era inclemente para quem abusava dos seus prazeres, do seu calor. Mas se administrado com carinho, e depois que ele se deliciasse com nuvens e campos, horas depois voltava para ela e poderia ser saboreado novamente. Já o outro de quem se lembrava com carinho e reclamava silenciosamente o calor do seu corpo e do seu coração, não passearia sob o seu corpo como o sol acabara de fazer.
Hélio. Sorria agora, quando pensava no nome dele, acabara de ser possuída por um outro de mesmo nome e achou isso divertido.
Com os acontecimentos ainda tão recentes, sentia-se confusa com tudo que aconteceu. As lembranças mais antigas às vezes faziam parte de algo muito próximo, algo do ontem à tarde, quando saíram para as compras, ou quando ficavam juntos lendo, sem nada dizer um ao outro, durante muito tempo. Mas a lembrança da cena de um adeus triste e consentido vem a sua memória. Confirma o fim de tudo, flashes do momento em que tudo aconteceu surgem a sua frente. Escuridão total e repentina, falta de ar, frio, dor aguda, desespero, desamparo, medo. Uma luz forte vem como uma salvação no fim de um túnel, que atravessou muito rápido e por onde não se lembrava de ter entrado.  Que agonia sem fim. Que falta de ar. Quero respirar. Algo me aperta a garganta, minha mão não a alcança, não me obedece. Tento balançar a cabeça para ver se algo acontece, mas esta tudo escuro, não consigo gritar. Água, estou na água, boiando de bruços,não devo respirar, não posso respirar, não devo respirar, mas eu quero, eu preciso, meu Deus eu vou sufocar, ninguém me vê, ninguém me acode. Posso ver o fundo do mar, meus olhos ardem, ouço as crianças brincando e gritando, “ela ta afogando, ela ta afogando”, não agüento mais, estou chorando, vou morrer esquecida, com plena consciência, morrer por não poder me mexer, vou explodir, onde estão todos, socorro. De olhos fechados inspiro assustada ar, ar, ar, finalmente abro os olhos, estou em um quarto de hospital, lugar que não conheço, parece que só tenho cabeça e que é enorme, dói muito.
Meu pai abre a porta do meu quarto e me pergunta se estou bem, e se agora que acordei, quero alguma coisa. Pergunto quem ligou, e ele me disse a lista de amigos e clientes que tinham ligado hoje. Já fazia seis meses desde que uma onda forte na praia de Ubatuba, com um tranco inesperado me jogou contra um banco de areia e me deixou paralisada do ombro para baixo. Estou aqui, cama hospitalar, sonda entrando, sonda saindo, fraldão por garantia, mas nada de movimento, nada de sentir, só uns movimentos que os médicos dizem ser involuntários. Grande coisa, não presto mais para nada.
A primeira pessoa que vi assim que acordei no hospital estava, constrangedoramente entre as minhas pernas, como dizem, “passando a sonda”, e eu sem saber do que se tratava. Assim que me olhou disse: fique tranqüila você não vai sentir mais nada mesmo, e saiu. Chorei, descobri que isso eu ainda podia fazer por mim mesma.
Sai do hospital sabendo tudo o que queria e o que não queria saber da minha nova condição de paralisada medular.
Quando encontrei Hélio sabia que seria o fim de tudo, não tinha cabimento um homem jovem e cheio de vida ficar preso a uma inválida sem futuro, e assim nos despedimos. Ele, calado, pálido, suando frio, não sabia muito o que dizer ou fazer, só lamentava e se desculpava, via-se que estava perdido, angustiado, amargurado, sofrendo. Como eu detestava vê-lo naquela condição. Não o culpava ou censurava por ir embora, não podia ser diferente. Eu mesma havia mandado que saísse da minha vida. Enfim acabamos, acabei, acabou. Chorei novamente e isso eu já sabia que podia fazer por mim. Agora só precisava superar a vida.
Tinha que aprender a lidar com os outros e comigo, não precisava aprender a fazer, só precisava aprender a passar pela vida, entender desejos e sentimentos de uma outra forma, se é que existia uma.
Quando me davam banho, e geralmente minha mãe tinha esta tarefa, não deixava que a enfermeira o fizesse, não entendia porque. Às vezes era colocada em uma banheira de hidro com um assento moldado no fundo para não escorregar e ficava ali por um tempo. Todos achavam que seria uma maravilha, eu morria de medo, pois seria um novo afogamento sem defesa. Mas fazia a vontade de todos e tentava controlar meu pescoço, para que não morresse afogada por tombar a cabeça. Quando minha mãe vinha finalmente me lavar e me massagear dentro da água, não falava nada, só acariciava meu corpo em silêncio, passava alguma coisa na mão e me tocava, não me olhava nos olhos, tinha um olhar vago, perdido, fazia tempo que não a via de tão perto, estava envelhecendo. Era engraçado ver estes sinais que ela sempre se recusava a aceitar. Ri sem querer dos meus pensamentos e ela se assustou, pois estava envolta com seus pensamentos sabe-se lá onde. Perguntou se sentia alguma coisa, cócegas, dor, ficou assustada, perguntou o que era. E quando lhe disse que estava ficando velhinha, ela me olhou nos olhos e riu, sentou no chão do banheiro e riu muito, rimos muito. Até que começou a chorar convulsivamente, pediu desculpas e falou que a enfermeira terminasse meu banho. Fiquei ali olhando meu corpo por sobre a espuma que já raleava na água, meus seios balançavam flutuando nas ondas dos movimentos da água, era estranho vê-los assim, eram ainda jovens, firmes. Olhei para o resto de mim, estava mais magra, e já perdera a cor do verão das praias do litoral de São Paulo e das sessões de bronzeamento. Mas ainda formavam um bonito conjunto de mulher. Afinal não era modelo a toa. Lembrei novamente de Hélio, de como tocava meu corpo, de como nos amávamos, dos prazeres que dividíamos, da cumplicidade dos nossos desejos. Chorei, era só o que eu podia fazer por mim naquela hora.
Voltei para cama, a enfermeira terminava de me enxugar, fazia bem o serviço, mas era impessoal, ela passava a toalha em uma coisa que não era eu, não era meu corpo, que fora desejado, amado, fotografado. Estava nua, e ela passava um creme qualquer. Perguntei o que ela achava do meu corpo, se ela ainda achava que era bonito. Que burra, que resposta eu esperava ouvir, falou o obvio.
Já haviam se passado seis meses. Sentia falta de mim, do meu corpo das minhas sensações, de me sentir viva e pulsante, sentia falta do Hélio, do seu calor do seu hálito, da textura da sua pele, do peso do seu corpo contra o meu, da sua companhia, do seu silencio, da sua cara. E ele apareceu. Depois de tanto tempo sem ter notícias. Tinha acabado de sair do banho, minha mãe nunca mais me dera banho e nunca perguntei porque, não achei que valesse a pena. Meu pai veio me avisar de sua chegada, e surpreendeu a enfermeira nos últimos cuidados para me secar, ainda ficava constrangido em me ver nua, justo eu que já dispensava tanto pudor, nada mais valia a pena. Pedi a enfermeira que só me cobrisse, como fazia às vezes, e pedi que Helio entrasse. Achava que estava mais magro, os cabelos estavam mais compridos. Será que como o sol, tinha se divertido por outras paragens neste tempo que ficamos separados? Mas que bobagem. Pergunta que já sei a resposta, óbvio de novo, estava ficando expert em obviedades. Estava como da última vez, sem jeito, não sabia o que dizer e o que fazer, disse algo sem sentido, bobagens que se diz quando não se sabe o que falar. Me enchi daquilo tudo e pedi que chegasse mais perto, ainda estava de pé, torcendo as mãos. Pude vê-lo melhor, parecia ter murchado, secado, precisava de sol. Disse mais algumas bobagens que não quis entender. Na verdade tinha receio de que visse pena nos seus olhos e na sua fala, pois eu queria mais. Meu coração disparou quando sem pensar pedi que ele levantasse o lençol. Ele acreditando que era algum cuidado de que eu precisasse,  fez sem pensar. Quando me viu nua, ficou paralisado com as mãos suspensas no ar segurando o lençol. Uma luz parece ter passado rapidamente por seu rosto, um leve espasmo fez com que seus lábios se contraíssem. Meu rosto parecia incendiar, meu coração se transformou no meu corpo todo, e pulsava violentamente. Ele de repente ganhara cor no rosto, e por fim me descobriu inteiramente colocando o lençol abaixo dos meus pés.
Enlouquecida pedi que ele se deitasse comigo mais uma vez, que precisava tentar senti-lo junto ao meu corpo ou pelo menos ter esta lembrança dos nossos corpos juntos. Ele desviou seus olhos dos meus, baixou a cabeça, olhou para a porta que estava a sua esquerda, e se dirigiu até ela estendendo a mão em direção a maçaneta. Pousou a mão sobre ela e voltou a olhar meu corpo nu sobre a cama. Queria morrer cem vezes naquela mesma hora, era a minha coroação de rainha das obviedades. Explodi por dentro de tanta raiva e de uma loucura cega, por ter sido tão estúpida a ponto de pedir que aquele homem, e não precisava mais de adjetivos, se deitasse com uma inválida que não conseguia sequer controlar a urina que saia pelo menor de seus orifícios. Com a mão esquerda apoiada na maçaneta puxou a porta e fechou a novamente, com a mesma mão alcançou a chave, trancou a porta e voltou-se na minha direção. Instantaneamente sentia novamente o pudor que havia perdido e uma felicidade tão grande que não podia acreditar. Um desespero tomou conta de mim como se fosse a primeira vez e tinha medo de não corresponder às expectativas dele, mas que besteira, o que poderia fazer senão continuar ali inerte. Foram tantas sensações em tão curto espaço de tempo de quase perdi os sentidos, me segurei para não desmaiar. Mas que estúpida, era só o que me faltava. Ele estava ali, e aceitara a minha loucura. Quando parou frente à cama hospitalar, parecia outro, eu também já era outra, estava mudada com as sensações de trinta segundos, pois não vivia há seis meses. Olhou meu corpo novamente e suavemente o tocou, estava emocionada, já não importava mais nada, estava feliz. Gritava por dentro de alegria,  chorava de felicidade. A loucura agora era outra, era vê-lo, e me ver. Beijou meu ventre com carinho, eu não sentia, mas não importava, eu via, entendia o toque por outro sentido, de uma outra maneira. Encostou o rosto na minha barriga e me apertou contra si. Estava calmo respirava tranquilamente. Afastou-se do meu corpo e da cama, olhei para ele com os olhos cheios de lágrimas e com uma cara boba de extrema felicidade e prazer. Foi quando finalmente ele disse algo que consegui ouvir. Você esta bem?  Você me parece feliz, apesar das lágrimas, mas tenho medo de lhe machucar ou de quebrar algo ou de tirar algo do lugar. Eu quero me deitar ai com você, mas tenho medo. Foi a primeira sensação de prazer que sentia em seis meses de vida paralítica. Só tive forças para disser que lamentava não poder estender meus braços e dizer, “vem meu amor”. Como se algo ainda pudesse me surpreender, deu um passo para trás e começou a desabotoar a camisa, despiu as calças a cueca, sapatos e meias. Estava nu à minha frente. Deitou-se do meu lado e me abraçando aninhou sua cabeça no meu peito. Pude sentir as lágrimas que caiam do seu rosto e escorriam pelo meu ombro. Eu estava viva, podia sentir, agora podia viver.

Verônica e Janice

Lembrei outro dia de duas amigas muito queridas do tempo da faculdade, pessoas completamente diferentes, mas que tinham objetivos de vida, ou não tinham, bem curiosos e peculiares. Nunca imaginei que a história delas fosse ter o desfecho que teve.

A história de cada uma delas vai por caminhos opostos e tem finais curiosos e inusitados.

Verônica uma moça cheia dos predicados físicos, tinha pele clara cabelos negros, resumindo e pra facilitar, um mulherão, com todo respeito. Acontece que ela gostava de uma boa esbórnia e só queria se dar bem na vida. Vivia me dizendo que queria se dar bem, casar com um cara de grana e curtir a vida. Mas era determinante que se desse bem. Ou seja, vida com muita grana, mordomia e sexo. Ela resumia uma boa vida dentro deste tripé, se bem que pra ela essa palavra tinha outra conotação. Enfim arranjou um cara que tinha disso tudo, e de sobra. Muito dinheiro, mas muito dinheiro, gastava sem precisar se preocupar e era um amante da boa cama. Gostava da coisa. Caíram um nas graças do outro. Pasmem, pasmei, casaram. Fizeram um contrato pre-nupcial, claro pq ninguém confiava em ninguém, e casaram. Encontrei com ela alguns anos depois e achei uma mulher mais radiante ainda, peruissima. Almoçava em Paris, para jantar em qqer outro lugar do mundo onde se pudesse chegar com o jato particular do marido. Ganhava uma pensão mensal que é quase tão imoral como essa história. Prefiro não revelar. Me dizia com um sotaque adquirido sabe-se lá onde “querido, isso que é vida, maraviwonderfull”.
Janice uma moça tbem muito bonita, e isso neste caso não vem ao caso, não precisava de dinheiro. Filha única de família rica, tinha muito, sempre teve, mas dizia que tinha um problema: Vivia uma vida bem besta, palavras dela. Tinha uma história não menos curiosa. Dizia que queria casar. Mas que podia ser com qqer um pq já tinha tido tantos relacionamentos mal sucedidos, que não acreditava em mais nada e em ninguém. Mas queria ter um lugar para voltar, uma casa pra cuidar, alguém de quem reclamar. Pq como estava vivendo, não tinha graça nenhuma. Achou “um cara”, como ela dizia. Descrevia como bonzinho, e só. Pareciam compativelmente sonsos pela descrição. Ambos tinham dinheiro, não precisaram de nenhum arranjo jurídico. Na verdade separação total. Ela achava mais seguro, no caso de se separarem (aqui eu preciso dar uma risada kkkk).

O desfecho das duas histórias conto agora:

Neste último encontro com Verônica encontrei uma mulher acabada, sem brilho, sem maquiagem, sem joias, olheiras fundas e escuras. Quase não reconheci. Precisei olhar bem para ter certeza de que era aquela mulher exuberante que eu conhecia na faculdade. E ela me conta o que estava se passando com ela. Tudo vai bem, continua ganhando aquela mesada imoral, viajando para onde quer, não há limites para o que quer fazer. Mas...o marido só quer entrar pela porta dos fundos, todo santo dia, se é que me entendem. Não que não gostasse, mas nesta frequencia estava acabando com ela. Quando ia chegando a noite ela ia ficando desesperada, se sentindo deprimida, agoniada. Assim foi perdendo o gosto pelas coisas, pelo sexo, pelas coisas boas da vida, segundo ela. E perguntei se já tinha falado com ele a esse respeito. Lembro bem quando ela tirou os óculos escuros, mostrando as enormes olheiras, baixou a cabeça e com as lágrimas escorrendo no rosto, disse que tinha medo. Dele? perguntei. E ela me responde com vergonha, “de perder os direitos do contrato nupcial”. Nunca mais vi Verônica.
Janice me conta que em dois anos vajaram o mundo, sem trabalhar. Se deram tão bem, que em mais um ano juntos, unificaram os negócios e empreendimentos que tinham, se desfizeram de alguns outros, capitalizaram e estavam levando uma vida apaixonada, uma lua de mel sem fim. Algo surpreendente para quem só queria “um cara”. No quarto ano desta ilha da fantasia ele teve um câncer fulminante e morre em 6 meses. Janice descobriu naqueles dias que estava com uma gravidez adiantada e de risco. Nunca mais vi Janice.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Viajando com fortes emoções.

Outra viagem pra contar.

Em tempos de ser politicamente correto, escrever um texto ou descrever uma situação pode deixar as coisas um pouco difíceis. Acho que o respeito tem que estar sempre acima de tudo, independente de quem ou o que seja. E vocês que me conhecem bem, por isso estão lendo este texto, sabem que não tenho nenhum tipo de restrição ou prevenção ou preconceito contra nada e ninguém. Porque na verdade somos o que somos e só. Mas acontece que pra ilustrar uma situação as vezes precisamos carregar a mão nas cores, mas sem faltar com o devido respeito.
Em mais uma longa viagem de ônibus.
Quando viajo, sempre escolho a poltrona do lado direito e mais ou menos no meio do ônibus.  Detalhes que depois, um dia eu conto porque. Muito bem, vamos ao ocorrido. O ônibus em que eu estava, faz uma parada em um município vizinho pega mais alguns passageiros e segue viagem em definitivo.
O panorama era o seguinte: eu sentado na janela e eis que chega a pessoa que iria dividir comigo as próximas hora de viagem. Um senhor muito gordo que quando sentou invadiu o meu banco e meia bunda veio parar no meu colo. Ele de tão obeso não conseguia fechar o cinto de segurança. Lá fui eu ajudar e tive a desagradável percepção de que a obesidade o impedia de fazer uma higiene adequada, braços curtos, diâmetro corporal aumentado, resultado, não lavava a bunda direto, não alcançava a bunda, pra dizer sem rodeios. Sério , apesar de sentir uma certa pena dele, que não parecia perceber o fato, tinha mais pena de mim que sentia o cheiro ruim e iria passar 6 horas ao lado dele. Do outro lado da fileira, na mesma direção da que eu estava, sentavam 3 amigas, jovens de no máximo recém completos 18 anos. Não,  não estavam no mesmo banco, mas era como se estivessem, mas uma delas estava sentada à frente, e o tempo todo elas se debruçavam umas em cima da outra pra comentar ou mostrar algo no celular.  Sorte que a que estava no banco da frente não tinha ninguém ao seu lado. Sorte de quem ? Mas  não seria por muito tempo. Já conto o resto. Na minha frente uma religiosa que tinha o hábito,  sim de hábito,  mas que arrumava o véu constantemente como um tique nervoso. Sem tirar o véu puxava pra frente e com a mesma mão que puxava arrumava os cabelos na testa e jogava o véu pra trás junto com os cabelos curtos que lhe restavam. Parecia que fazia do véu uma extensão dos cabelos. Ao lado dela um rapaz que não dizia nada de si pelo que se via. Mais de 25, cabelo cortado curto, roupas de acordo com  a hora e ocasião. Ônibus aparentemente lotado. #partiu. Como já disse nesta viagem o ônibus faz uma única parada antes de seguir viagem, pega mais alguns passageiros e segue. Nem sempre entra alguém, para alegria daqueles que querem trocar de lugar, como eu. Era uma viagem como muitas, nada demais. Só as três meninas que não paravam de falar, dar uns gritinhos estéricos e se empoleirarem no banco pra contar ou mostrar como já tinha contado. Então parou o ônibus no tal lugar e subiram duas pessoas, uma ficou lá pela frente mesmo, não cheguei a ver. Ai entra ...a personalidade em questão. O termo personalidade é de propósito e vocês já vão entender. Vestindo uma blusa branca semi transparente com um top de mesma cor por baixo, usava um lenço vermelho estampado no pescoço e uma calça branca justissima, coladissima. Levava no braço segurando com o cotovelo dobrado uma bolsa de marca sei lá qual, me contaram depois era original e das caras. Sandalhas altas brancas e vermelhas de muito bom gosto, um luxo só, mas, era uma bicha feia de matar. Sim meus  amigos, nada combinava. Fui peguntar pra minha amiga Denise estevaleto como eu deveria me referir a personalidade em questão pra não causar nenhum mal estar neste caso, e ela me disse que o correto era travesti. Homem, homoxesual ou hetero que se veste de mulher, simples assim. Este conjunto fazia um quadro estranho. Ora meus amigos, podemos todos sermos, feio, bonitos, gordos, magros, altos baixos de preferências e hábitos diferentes, portanto era um travesti feio, mas muito bem vestido. O único cuidado que merecia um pouco mais de atenção era a maquiagem, tinha uma barba muito cerrada por baixo querendo surgir. Bom, vamos lá. O silencio das molecas foi instantâneo. A da frente que estava sozinha, pos a mão na boca pra segurar o riso e saiu foi algo como um peido abafado e as três cairam na gargalhada. Se contiveram. A personalidade desfilando como uma verdadeira coquete (vá procurar no dicionário se vc nasceu depois dos anos 70), sentou ao lado da menina que estava sozinha, ah tinha esquecido, óculos RayBan, tipo aviador, que ajeitou na cabeça junto com o penteado do tipo Donuts ou coque como me explicaram depois. No geral, um luxo só, muito bom gosto, mas nenhuma beleza. Como depois que se sentou, não se mexia muito, não deu pra notar nada demais. E aos poucos as meninas foram se acalmando e ficando a vontade ao lado da nossa personalidade, to chamando assim pra não comprometer o gênero, porque a palavra serve para ambos, apesar de ser uma palavra feminina. Bem, e assim foi a viagem, as meninas de ti ti ti a freira e seu balançar de véu frenético e o nosso personagem, lá. Uma coisa incomum aconteceu desta vez, paramos em um posto policial, as vezes sobe um pra pegar uma carona, quando há lugar vago, mas desta vez, subiu um policial federal e um rodoviário e passearam pelo ônibus olhando para os bancos, e sem mais, nos mandaram seguir. Só uma curiosidade para contar, nada mais além disso. Assim que o ônibus seguiu o nosso personagem abriu a bolsa e tirou um estojo desses de maquiagem, que causou o maior frison nas meninas, entre gritinhos e aplausos deliraram quando viram que acendia uma luz e iluminava o rosto de quem se maquiava. Ah minha gente, aquilo ficou um inferno. E até um “ai amiiiiigaaaa que de mais”. Posso ver? Uma chamou a outra, as tres se debruçaram sobre o traveco, ops travesti, e encheram de perguntas. De que marca era a base, a sombra onde tinha comprado, como era coisa da luzinha, ai ai ai, ui ui ui. Quando o nosso personagem em questão abriu a boca, espanto geral, novo silencio no ônibus, era a voz mais grave e anasalada que eu já tinha ouvido. Um baixo natural, diriam os coralistas. Ai as meninas entre a curiosidade com o objeto e a voz do cara ops, personagem, seguraram o riso e continuaram com as perguntas, que ele pelo visto não sabia nada a respeito. Choveu pergunta, fiquei com pena. Pra se livrar das pentelhas ele, eita, ela, ops a personalidade em questão deu, sim senhoras e senhores, deu o estojo de maquiagem. Agora me digam vcs que estão lendo, meninas, vcs dariam um estojo desses??? As garotas piraram. Foi uma algazarra infernal, o que tirou a atenção do personagem em questão, pois a disputa era saber quem iria ficar com o presente. Pareciam ter 12 anos, quase fui interferir. A religiosa quase quebrou o pescoço pra olhar o estojo e se levantou para ir ao banheiro só pra dar uma espiada no ”mimo”. Foi ai que descobri que agora tem banheiro masculino e feminino nos ônibus. Achei legal, as meninas sofrem com a falta de pontaria dos meninos. Mas também, haja mira com o ônibus em movimento...bom, enfim. Tudo correu bem dali em diante.
Mas aquelas meninas não paravam, e o que alimentava a conversa era o celular, claro, e começaram a pesquisar nos blogs e etc onde comprar aquela MA-RA-VI-LHA  de estojo de make, é aprendi essa palavra tbem. Vcs sabem que tem vários trechos na estrada que não tem sinal de celular, mas agora a novidade é que os ônibus tem wifi, pois é, e internet via satélite, aha... me disse o motorista num bate papo rápido antes da partida que esses ônibus novos tem telemetria como carros de corrida, que em tempo real a empresa sabe até se ele fez uma curva em que o ônibus adernou demais. Ok adernou é pra barco, enfim...Mas e dai, as garotas não paravam e dava pra ver que inclusive eu metade do ônibus estava tentando passar o tempo com alguma coisa na net.  Até o rapaz do lado da freira dava alguma instrução pra alguém que parecia não entender nada do que ele falava. Ele ria e tentava explicar, não fiquei prestando atenção, mas ele se divertia com o fato do outro não entender ou não acreditar noque ele falava. Ele ria muito e de lembrar da cena estou rindo agora também rs. Enfim depois de umas 4 horas o ônibus parou pro lanche. Era fim de tarde já escuro, estamos no inverno, certo? Todos se ajeitam, e saem do ônibus. Fui direto comer alguma coisa. Passado uns minutos ouve-se uma grande agitação, gritaria, sirenes brecadas de carro, correria e mais gritos. Como de costume, ao invés das pessoas se afastarem, foram ver o que estava acontecendo. Tumulto geral, policiais por todos os lados, cerco de carros aos ônibus, passageiros correndo assustados pra fora do restaurante, mulheres gritando com crianças no colo chorando, e o nosso personagem saindo algemado imobilizado por 4, sim meus amigos, QUATRO POLICIAIS, mais seis fortemente armados fazendo a cobertura. Era um dos bandidos mais procurados e perigosos do pais. Estava sendo seguido a dias, e tinham perdido contato com ele há algum tempo. Até que agentes da "inteligencia", o rapaz do banco da frente e a freira, pois é pasmem, o identificaram e começaram a seguir. Bandido muito perigoso, com extensa ficha criminal de roubo de carga, roubo a bancos, assalto a carro forte, sequestro e assassinatos, ali, se fazendo passar por um travesti. Já imaginaram o risco que todos no ônibus corremos? E as meninas, na hora que os policiais subiram no ônibus? O que fiquei sabendo depois do motorista, que tbem não sabia de nada é que os policiais que subiram, tbem não sabia de nada. Eles não costumam para e vistoriar o ônibus. Imaginem a cena:
Vc esta do lado de dentro do restaurante, atras da divisória de vidro e vê passar em câmera lenta a pessoa que estava viajando do seu lado, que parecia um traveco, feio por sinal, mas muito bem vestido, algemado e com varias armas apontadas para ele. Cabeça baixa sem a peruca, maquiagem borrada, óculos e bolsa perdido em algum lugar. Ele passa lentamente, olha em sua direção, não, ele não olhou pra mim, olhou pra meninas que estavam do meu lado e deu uma piscadinha. As meninas quase desmaiam se abraçam e começam a chorar.....
O resto da viagem foi uma tranquilidade, as vezes se ouvia o choro baixinho das três meninas. Com a sobra de espaço dos dois passageiros que estavam a minha frente consegui me livrar do companheiro de viagem.
Haja coração

Cenas de um sequestro.

Fui sequestrado, vítima de um sequestro relâmpago.
Que sufoco. Uma sensação horrível, de morte. Medo intenso, suor frio.

Foi assim: já era noite, estava parado, esperando uma carona, próximo ao metrô Brigadeiro, Avenida Paulista, em São Paulo. Para um carro pra pedir uma informação. Eu me aproximei, o rapaz abre a porta pra falar comigo, estende a mão pra me cumprimentar, ao que eu instintivamente respondo, estendendo a mão, e sou puxado pra dentro do carro. Cheguei a pensar que era a minha carona e que alguém havia descido do carro pra me chamar ou abrir a porta, não sei bem no que foi que pensei. A porta de trás foi aberta, não vi como ou quando. Só percebi que fui puxado para dentro do carro. E tinha alguém me segurando, com alguma coisa me espetando do lado esquerdo. Levei um tempo pra entender o que estava acontecendo. Era um sequestro. Gelei. Dois caras na frente e um atrás me segurando e me ameaçando com alguma coisa que me doía demais ao lado da costela.
Nessa hora não dá pra pensar em muitas coisas, tudo acontece muito rápido, mas vem uma avalanche de pensamentos e sensações, todos de uma vez. Pensei na família, em cada um dos filhos, na mãe idosa. Tudo isso entre uma ameaça, um soco ou um tapão. Não foi nada fácil.
E assim começou a tortura. O que estava do meu lado, fala:
- Passa tudo.
Lá foi o celular, carteira, aliança, mais ameaça, mais socos.
-  Colabora que vai ser melhor pra você. Manda a senha dos cartões.
Anotada a senha, começaram a procurar um caixa eletrônico.
- Ele desce junto pra ir ao banco ou vamos nós mesmos? A primeira dúvida.
- Se a senha estiver errada você vai tomar uma surra.
E por aí vai. O mal estar era absurdo, apesar do frio o suor era intenso. O aperto no peito era esmagador. O tremor por dentro e fora do corpo era associado com uma sensação de pânico, medo e morte. O estômago estava apertado, como um nó. Parecia que alguém me segurava pelo pescoço, fazendo a respiração ficar cada vez mais difícil, sofrida.
Chegamos ao caixa. Aumenta o desespero. Pensando no que poderia acontecer depois disso. E se desse alguma coisa errada no caixa eletrônico?
Tinham várias pessoas no caixa eletrônico e resolveram não esperar, saindo para procurar outro mais vazio.
O cara que estava na frente, olhando para trás, resolveu ler o nome no cartão. Leu e me olhou. Virou-se pra frente e leu de novo. Ficou calado. Só o motorista e o que estava ao meu lado continuavam a me aterrorizar, ameaçando disso e daquilo, nem gosto de contar, nem de lembrar.  Ele abaixou a cabeça e olhando de novo para o cartão, perguntou de onde eu era e o que eu fazia. Falei o nome da cidade e disse que era professor.
Ah!!! Essa história, verídica, não aconteceu comigo. Encontrei um amigo do tempo da faculdade no Terminal do Tietê e embarcamos juntos no metrô. No caminho, ele me contou esta história. Contava e chorava, pois fazia pouco tempo que havia acontecido e ele ainda não tinha se recuperado do trauma. Estava fazendo terapia, tomando remédios. Diagnóstico: síndrome do pânico.
Era a primeira vez que estava voltando a São Paulo, sozinho. Teve uma outra vez, mas viera acompanhado da filha, mesmo assim se sentiu mal, ficou envergonhado da situação, um turbilhão de emoções ainda o torturaram.
Naquele momento tinha ficado muito contente de ter encontrado alguém conhecido. Pois já estava entrando em pânico quando desceu do ônibus no Terminal. Quando me viu passar por ele no desembarque, deu um grito e me chamou. Assustei na hora e levei um tempo pra reconhecer. Ele me deu um abraço apertado que estranhei, mas depois entendi, era uma tábua de salvação. E fomos estação por estação como num calvário da via sacra desenrolando esta história triste e trágica.
Voltando à história, o rapaz que estava na frente reconheceu a vítima. Tinha sido aluno dele. Entre o espanto e o terror, o professor também reconheceu o aluno. Não deu tempo pra qualquer demonstração de alegria e sim mais medo.
Entre xingamentos os dois comparsas disseram:
– Agora vamos ter que apagar esse fdp.
E uma saraivada de xingamentos e socos fizeram parte dos momentos que se seguiram.
E o aluno sequestrador, começou a lembrar do professor. Dizendo pros comparsas:
-Ele era o único professor que valia a pena. Ele conseguia dar conta daquele bando de fdp que era a turma. Ele tirava sarro da gente como uma forma de quebrar o gelo e ficar amigo da galera. Era professor de história. Ele dava aula contando história. Pra sacanear, ele começava com “era uma vez”.
Contando isso, com um riso nervoso e emenda: - O cara é boa gente. Vamos soltar ele.
Aí virou confusão, o rapaz que estava segurando o professor deu um murro no que estava na frente e deixou o professor livre por uns momentos. Foi quando ele pensou em pular do carro. O que estava na frente, defendendo o professor, revidou o soco que levou e os dois se engalfinharam, atravessados no carro, deixando o professor mais uma vez livre. Mais uma chance de pular, e ele coloca  a mão na trava para abrir a porta. O motorista, o tempo todo xingando e tentando, ao mesmo tempo, que dirigia, apartar os dois. O carro balança na pista, o que faz que alguns motoristas buzinem e xinguem, afinal estamos no trânsito de São Paulo. A angústia e o medo de morrer aumentaram, quando o cara que estava no banco de trás finalmente mostra o que estava segurando pra ameaçar o professor: uma arma. E aponta pro aluno que defendia o professor. Os dois congelam. O motorista continua gritando e o professor me conta que teve um espasmo no peito e tinha a certeza que estava enfartando.
- Deixa o cara ir, disse o aluno do banco da frente, falando entre dentes, ameaçado pela arma. O outro responde: -De jeito nenhum (na verdade o que ele disse foi, nem F...).
-Esse cara vai denunciar a gente, temos que apagar, e já.
E disse pro que estava dirigindo: -Toca pro bosque, vamos nos livrar logo deste M...
O outro reage: -Não vamos, para que ele vai descer, ele não vai falar nada, não é professor? Ele sempre foi de boa, ele entende, para o carro bem longe, vamos dar um perdido nele e boa, ficamos com os cartões, fazemos o saque e deixamos ele ir.
O que estava com a arma, engatilha o revólver,  junta as duas mãos e firma a mira no colega do banco da frente.
- Você vai morrer junto com ele.
O que estava na frente avança contra o que estava com a arma, ouve-se o disparo, o rapaz que defendia o professor, com o impacto é atirado de costas contra o para-brisa, os olhos arregalados, a boca aberta, os braços estendidos para frente, e desaba, caindo de cara no encosto do banco da frente. A proximidade com o disparo, o cheiro da pólvora e a visão do rapaz caído sem vida no banco da frente se somou a todos os outros medos que já o torturavam. O motorista berrava, o rapaz que estava armado, foi sacudir o amigo baleado, gritavam palavrões, gritavam a culpa de um e do outro, discutiam o que fazer. Apagar o professor, ir pro hospital, largar o carro que era roubado e queimar com tudo dentro pra não deixar pistas. Estavam desnorteados.
- Pulei do carro no meio da gritaria. Com o trânsito intenso, quase fui atropelado. Fiquei paralisado no meio do asfalto, sem ação. Eu ouvia os gritos dos pneus e das pessoas, mas não entendia o que queriam dizer. Vieram me socorrer. Não conseguia ouvir nada, meus músculos estavam duros, tensos. Mal conseguia respirar. Colocaram-me sentado na calçada e ali fiquei, imóvel. Só respirava, não ouvia, não sentia. Olhos vidrados. Angústia e tristeza profunda, era tudo o que consegui sentir. Na confusão, eles bateram o carro logo a frente. O motorista ficou preso pelas pernas. O que estava armado, no desespero de sair do carro apontou a arma para pessoas que estavam tentando ajudar, e saiu correndo. Uma viatura parou para saber o que tinha acontecido e foi atrás do fugitivo deixando todo o resto para trás.
- Minhas memórias daquele aluno eram boas.
Sim, o tempo todo ele se referia ao rapaz como  “meu aluno”. Era como se fosse o mesmo menino desde que o deixara no último dia de aula. Ainda tinha a posse sobre ele, o mesmo carinho quando falava de um outro menino qualquer. Não havia raiva ou mágoa quando se lembrava dele. Disse que era tranquilo e calmo. Contaminado pelos outros acabava descambando.
- Era uma turma difícil de um bairro de periferia, violento. Alguns envolvidos com o tráfico, outros usuários.  Mas ele por muitas vezes peitou a turma. Queria que calassem a boca, por que ele queria ouvir a aula. E era muito zoado por todos. Mas ele ficava firme e eu até que consegui dar aula e a adesão de mais alguns. 
E dar aula de história, não era nada fácil.
- Serve pra que essa P... ? eles me perguntavam. Eu tinha que trazer pra um contexto atual, fazer paralelos, isso leva tempo e precisa da atenção dos alunos. Então o jeito era ver o que estava acontecendo nos dias de hoje e dizer que isso também era história e fazer uma leitura dessa realidade e quais as consequências disso para um futuro imediato que era o que interessava pra eles. Para só então, mostrar porque estamos assim hoje em dia. Devido ao que aconteceu lá atrás a muito tempo. Era esse o exercício que eu fazia com eles, a história de frente para trás.
- E ele morreu me defendendo, porque a minha aula era boa!?! Porque eu fui bom pra eles?? Será que eu devia ter sido como os outros, e só deixar passar? Isso me corrói a alma, dizia ele com a voz embargada e muitas lágrimas no rosto, enquanto as pessoas começavam a prestar atenção na nossa conversa de forma mais declarada. Vcs se lembram, nós estamos no metrô.
E ele continuou: - Os outros colegas professores, tem medo da classe, não se importam se eles não souberem ou não aprenderem algo que podem mudar a sua vida. E eu só dei aula de história. Eles nãos sabem ler, interpretar, vão ser roubados no troco ou no salário e eu ensinei história, pra quê? E ele morreu, porquê?
Não resisti chorei junto.
Nestas horas vem um monte de coisas pra dizer, mas nada iria consolá-lo. Chegamos ao nosso destino. Eu o acompanhei até o ônibus que iria tomar, nos demos uma grande e demorado abraço e nos despedimos.
Depois que nos separamos, um vazio no peito me incomodava. Achei que devia dizer alguma coisa e mandei uma mensagem pelo celular com o seguinte texto:
“ Meu amigo, é tanta coisa pra dizer neste momento difícil que por agora só posso dizer que ele estava lá pra te salvar. Se vc não tivesse feito nada de bom pra esse rapaz, e sabe mais quantos você encantou com a sua aula, talvez você, esposa e filhos, estivessem agora em outra situação. Ele assumiu os riscos e fez as escolhas que tinha que fazer. Vc era tão importante pra ele, que ele se arriscou por você. Faça o resto da sua caminhada como professor valer a pena pra mais gente.  Abraços, fique bem. “

Cenas de um sequestro.

Não sei como vim parar aqui.

Não sei como vim parar aqui....

Vida e morte, dia e noite, são fatos que se alternam, queiramos ou não. O dia amanhece esteja você querendo ou não, vamos morrer essa é uma certeza. Todo santo dia nasce alguém. É assim.
Não estamos preparados para as perdas, os motivos são tantos e pessoais que não adianta escrever aqui um monte de impressões que tenho a respeito do que deve vir a ser isso. Pois se a gente não suporta ver o time do coração perder, quem dirá uma pessoa querida. Foi quando estava para partir um ente muito querido da família, durante aqueles intermináveis dias de internação e UTI, que me veio em meio aos preparos para a dor que inevitavelmente iríamos sentir, o pensamento de como seria o momento do outro. Sim, pode ser bizarro, mas estava preocupado em saber o que ele deveria estar sentindo ou pensando. O que deveria significar para ele cada interferência, cada contato. Foi isso que delirei no texto que segue.

Não sei como vim parar aqui. Parece que estou dentro de uma cápsula fechada, onde a claridade e o som passam, mas de forma diferente. E o que escuto, é como se estivessem longe de mim. Ouço as vozes, os risos, mas não presto atenção em nada. Parece que nada interessa. Não sinto dor, frio, calor, só uma tranqüilidade que não consigo explicar. Também quase não penso em nada. Mas as vezes me vem algumas lembranças, e só. Me sinto estranho, sem coordenação, as idéias confusas, sonolento, mas aos poucos com muito esforço vou conseguindo me conectar ao que está a minha volta. A única coisa que me estimula é quando você chega. Parece que começo a emergir de dentro de mim para a superfície, de volta ao meu corpo. Ouço sua voz afetiva, o calor da sua mão me acariciando o rosto, a cabeça, já sem cabelos. Quando você me dá a mão e reza comigo, me deixa novamente em uma paz profunda e tranquilizadora. Quando consigo abrir os olhos, olho mas não vejo, pouca coisa faz sentido. Tem algo no meu braço, tento tirar, não porque dói, mas porque parece que não deveria estar ali.  Pelo meu nariz entra alguma coisa, um tubo? O que é isso? Não tenho medo, só estranheza de tudo.
As vezes me vem a consciência de tudo, os ruídos são intensos, os cheiros vivos, as vozes confusas. Como se uma porta de um salão de festas se abrisse e de dentro todos estivesse falando ao mesmo tempo, como se todas as luzes se acendessem ao mesmo tempo, como se voltasse a consciência vindo de um estado de sono, de uma só vez.
De novo te percebo perto de mim, sinto o seu perfume, esse que vc usa sempre, há muito tempo, há tantos anos. Me vem vagas lembranças de nós dois, uma confusão de memórias, emoções e sentimentos.  Não são bons, não são ruins, só lembranças que não consigo juntar. As vezes uma solidão toma conta de tudo e junto vem a escuridão, mas não me assusta, até me conforta. É como se deixasse de sofrer algo que não sinto. Depois destes momentos, te percebo triste, com um sentimento estranho, de ausência, saudade. Como se despedisse de mim. Acho que começo a entender o que esta acontecendo.
Está na hora de ir. Adeus meu amor.

Canoas na praia.

Em uma praia do litoral de São Sebastião SP, nos anos 70, eu tinha uns 12 anos, estava de férias. Íamos todo ano passar as férias na costa Sul de São Sebastião. Nem a chuva estragava nossos dias, muito menos, os borrachudos que na época não tinham o devido tratamento de hoje. Passávamos óleo de cozinha pra enfrentar os danados e ficar coçando sem alternativa as picadas nos lugares chatos onde essas pragas acabavam picando. A diversão era passar os dias inteiros brincando na praia, quebrando barrancos feito pela água do rio que descia para o mar. Éramos pequenos e os barrancos ficavam altos, uma delicia para se escorregar. Outra brincadeira muito legal era represar o riozinho, fazendo uma piscina enorme, para ficar nadando em água doce quando o mar estava bravo. Em um destes dias, no fim da tarde, chega uma canoa de pescadores, carregada de peixes. Paramos a brincadeira e fomos ajudar a tirar a canoa da água, virou outra brincadeira. Carregar os roletes, calçar a canoa, fazer força para tirar a canoa de mais de 6 metros da água. Trocar a posição dos roletes de trás para frente, até chegar próximo ao jundú. Um monte de gente puxando, parecia uma festa, um acontecimento, e de fato era, mas eu nem sabia. Canoa em terra, começa uma curiosa distribuição de peixes. Um dos pescadores, distribuía os peixes para as pessoas que formaram um roda em torno da canoa. E dizia: Leva isso pra sua mãe, Manda isso pro seu pai está doente. Para um dos meninos que brincava comigo o pescador entregou alguns. Esse é o seu, dizia para outro que também tinha ajudado. E assim foi, até que para minha surpresa, me deram alguns peixes também. Sem entender nada, fiquei até o fim para ver no que ia dar. Não sobrou nada, ninguém pagou nada, não vi um único centavo na mão daquelas pessoas, não tinha excedente, simplesmente acabou. Ainda sem entender, peguei os peixes e fui embora. Chegando em casa meu pai, me pergunta de onde eram aqueles peixes. Achei que ia tomar uma bronca, fiquei pensando como ia explicar o que eu não tinha entendido direito, pois pra mim além daquilo ser estranho, era na verdade uma novidade. Expliquei o que tinha acontecido e ele me pergunta se tinha entendido porque tinha ganho. Disse que tinha ajudado e achava que era por esse motivo. E ele me explica que era mais do que isso. Fiquei sem entender. Pegando uma peixeira e os peixes que eu tinha trazido, me chamou para e num canto do terreiro onde havia uma bica d’água, se acocorou para “consertar” os peixes. Começou a explicar, que as pessoas que estavam na praia: um era o dono da rede, outro da canoa, outro era pescador, mas estava doente e não podia pescar, mas precisava daquele peixe, outro era pescador muito velho, e consertava as redes e também recebeu o seu quinhão. Assim ele me explicou que esse era o verdadeiro sentido de comunidade e de partilha. Sendo vivido de verdade naqueles dias. Achei aquilo formidável e incrível, saber que era possível viver assim. Coisa que só tinha lido e ouvido, nunca imaginava que fosse viver parte disso.
Alguns anos atrás, por uma incrível coincidência, ao sair de um restaurante em Boissucanga com amigos de trabalho, vi uma foto daquele momento, o exato momento de tirar a canoa da água.  Quanta lembrança boa me veio na hora, dentre elas minha primeira experiência de comunidade. Tenho certeza que sou eu nesta foto. Bons tempos.

Dona Jana

Mais uma história pra contar.

Alguns de vcs, meus amigos, sabem que sou acupunturista, se não sabiam...disponham. rs
Em toda atividade profissional, sempre tem surpresas e histórias no meio do caminho. E como dizia o poeta, as vezes, uma pedra tbem.
Antes de mais nada, história que vou contar foi estimulada pela personagem principal, uma senhora de 78 anos. O fato ocorreu em um atendimento, e depois do fato ocorrido e de rirmos muito juntos, ela me disse que aquilo era uma boa história pra ser contada, uma piada. Perguntei se ela se incomodava que eu escrevesse e ela adorou a ideia. Então, aqui vai a história ou o fato ocorrido com a Dona Janaina, ou Dona Janna, com dois enes como ela prefere.
Marca horário para atendimento uma senhora com dor no quadril, manca muito e vem fazendo uso de uma bengala feita de cabo de vassoura, que apesar disso estava lixado e pintado, enfeitado com tirinhas de algum Santo católico, tipo aquelas do Senhor do Bom Fim. Era caiçara, dessas que a família toda conhece. Quem é caiçara sabe bem como é. Conhece "mamae', sabe quem é papai e fala com aquele sotaque que pouco se escuta aqui no centro da cidade.
Muito bem, segue o atendimento, tudo bem explicado. Repito, minuciosamente explicando, passo a passo o que iria acontecer. Tudo o que seria utilizado naquela sessão e como seria usado.
Ajudo a subir na maca, pois a dor intensa no quadril dificultava a subida, quase carrego no colo. Enfim na maca. Rolo de espuma sob os joelhos, ajeito travesseiro. A calça precisa ser baixada pra ter acesso a região de dor, e começo a inserir as agulhas. Pronto, mais uma etapa.
Etapa seguinte, resolvi usar moxa, que é um bastão em forma de charuto de uma erva medicinal chamada Artemisia Vulgaris, muito utilizada por aqui em forma de chá, em casos de cólicas, coisas da cultura popular. Funciona também.
Ai começa a aventura. Acender esse bastão ou charuto de artemisia, é um pouco difícil, com fósforos demora muito, com isqueiro, quase sempre aquece demais e fica difícil segurar. A solução mais prática que encontrei até hj foi usar uma vela. Simples acendo a vela e phá, rapidinho está acesa a moxa.
A hora que a Dona Janna viu a vela acesa meus amigos!!!!
Foi um escândalo.
O que é isso, gritava ela. Não sabia que vc era dessas coisas!! Nunca imaginei.
Minha surpresa na hora foi tanta, que não sabia pra onde olhar, o que fazer ou do que se tratava. Antes que eu pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, ela se levanta da maca com uma agilidade espantosa. Nem o rolo que estava sob os joelho a impediram de se levantar. Com um único movimento, ela se pôs de pé e foi andando com as calças no joelho e cheio de agulhas, em direção a porta.
De queixo caído só tive tempo de dizer, calma Donna Janna, volta aqui, o que aconteceu?
E ela repetia, nunca pensei que vc fosse dessas coisas, olhando em direção a vela que eu tinha acabado de acender.
Ai entendi qual era o problema dela.
Dona Janna volta aqui, a senhora esta com as calças abaixada, vai sair daqui assim desse jeito? volte aqui.
Ela olho pra baixo e viu que estava com as calças arriadas até os joelhos, e começou a subir a calça por cima das agulhas mesmo.
Tinha que interromper esse surto, porque não era outra coisa além de um surto. Ainda que duvidasse ou tinha pouca certeza de que era esse mesmo o motivo. Dona Janna, eu chamei. E ela disse, não quero saber de conversa com vc que lida com essas coisas. Logo você!!!
Emendei, a senhora esta subido a calça por cima das agulhas, calma Dona Janna.
E imediatamente abaixa novamente as calças e passa a arrancar as agulhas aos puxões,  como se fosse um maço de algo que estivesse colhendo. Jogava as agulhas no chão com raiva.
Meus amigos, imaginem a cena: Uma senhora de muita idade, saindo do meu consultório com as calças nos joelhos toda espetada e esbravejando. Eu logo atrás dela pedindo pra  ela ter calma e voltar.
Eu ainda estava impressionado com a rapidez dela ao descer da maca, e já não suspeitava mais que ela estivesse impressionada com a vela que acendi. Será que ela achava que eu iria fazer algum trabalho ou coisa do gênero? Parece que sim.
Novamente meu veio a imagem dela saindo pra rua com as calças arriadas, eu logo atrás e ela gritando, "eu não esperava isso de você, isso não se faz". Acordei rápido desse devaneio apaguei a vela da discórdia e fui em direção a D. Janna ajudar a retirar as várias agulhas que estavam por baixo da calça.
Depois de alguns instantes de silêncio, retirar as agulhas e ajuda-la com as calças, com calma perguntei o que é que ela estava pensando? Ela não respondeu. E tentei explicar, com calma, que a vela era só pra acender o bastão. E lembrei pra ela o que já tinha explicado.
Ela riu e disse "ah é!? Tinha esquecido, porque você não falou logo. Me ajude a subir de novo nessa cama ".
Ah essa Dona Janna !!!!