Não sei como vim parar aqui....
Vida e morte, dia e noite, são fatos que se alternam, queiramos ou não. O dia amanhece esteja você querendo ou não, vamos morrer essa é uma certeza. Todo santo dia nasce alguém. É assim.
Não estamos preparados para as perdas, os motivos são tantos e pessoais que não adianta escrever aqui um monte de impressões que tenho a respeito do que deve vir a ser isso. Pois se a gente não suporta ver o time do coração perder, quem dirá uma pessoa querida. Foi quando estava para partir um ente muito querido da família, durante aqueles intermináveis dias de internação e UTI, que me veio em meio aos preparos para a dor que inevitavelmente iríamos sentir, o pensamento de como seria o momento do outro. Sim, pode ser bizarro, mas estava preocupado em saber o que ele deveria estar sentindo ou pensando. O que deveria significar para ele cada interferência, cada contato. Foi isso que delirei no texto que segue.
Não sei como vim parar aqui. Parece que estou dentro de uma cápsula fechada, onde a claridade e o som passam, mas de forma diferente. E o que escuto, é como se estivessem longe de mim. Ouço as vozes, os risos, mas não presto atenção em nada. Parece que nada interessa. Não sinto dor, frio, calor, só uma tranqüilidade que não consigo explicar. Também quase não penso em nada. Mas as vezes me vem algumas lembranças, e só. Me sinto estranho, sem coordenação, as idéias confusas, sonolento, mas aos poucos com muito esforço vou conseguindo me conectar ao que está a minha volta. A única coisa que me estimula é quando você chega. Parece que começo a emergir de dentro de mim para a superfície, de volta ao meu corpo. Ouço sua voz afetiva, o calor da sua mão me acariciando o rosto, a cabeça, já sem cabelos. Quando você me dá a mão e reza comigo, me deixa novamente em uma paz profunda e tranquilizadora. Quando consigo abrir os olhos, olho mas não vejo, pouca coisa faz sentido. Tem algo no meu braço, tento tirar, não porque dói, mas porque parece que não deveria estar ali. Pelo meu nariz entra alguma coisa, um tubo? O que é isso? Não tenho medo, só estranheza de tudo.
As vezes me vem a consciência de tudo, os ruídos são intensos, os cheiros vivos, as vozes confusas. Como se uma porta de um salão de festas se abrisse e de dentro todos estivesse falando ao mesmo tempo, como se todas as luzes se acendessem ao mesmo tempo, como se voltasse a consciência vindo de um estado de sono, de uma só vez.
De novo te percebo perto de mim, sinto o seu perfume, esse que vc usa sempre, há muito tempo, há tantos anos. Me vem vagas lembranças de nós dois, uma confusão de memórias, emoções e sentimentos. Não são bons, não são ruins, só lembranças que não consigo juntar. As vezes uma solidão toma conta de tudo e junto vem a escuridão, mas não me assusta, até me conforta. É como se deixasse de sofrer algo que não sinto. Depois destes momentos, te percebo triste, com um sentimento estranho, de ausência, saudade. Como se despedisse de mim. Acho que começo a entender o que esta acontecendo.
Está na hora de ir. Adeus meu amor.
Cheiros vivos.
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