terça-feira, 19 de abril de 2016

Viajando com fortes emoções.

Outra viagem pra contar.

Em tempos de ser politicamente correto, escrever um texto ou descrever uma situação pode deixar as coisas um pouco difíceis. Acho que o respeito tem que estar sempre acima de tudo, independente de quem ou o que seja. E vocês que me conhecem bem, por isso estão lendo este texto, sabem que não tenho nenhum tipo de restrição ou prevenção ou preconceito contra nada e ninguém. Porque na verdade somos o que somos e só. Mas acontece que pra ilustrar uma situação as vezes precisamos carregar a mão nas cores, mas sem faltar com o devido respeito.
Em mais uma longa viagem de ônibus.
Quando viajo, sempre escolho a poltrona do lado direito e mais ou menos no meio do ônibus.  Detalhes que depois, um dia eu conto porque. Muito bem, vamos ao ocorrido. O ônibus em que eu estava, faz uma parada em um município vizinho pega mais alguns passageiros e segue viagem em definitivo.
O panorama era o seguinte: eu sentado na janela e eis que chega a pessoa que iria dividir comigo as próximas hora de viagem. Um senhor muito gordo que quando sentou invadiu o meu banco e meia bunda veio parar no meu colo. Ele de tão obeso não conseguia fechar o cinto de segurança. Lá fui eu ajudar e tive a desagradável percepção de que a obesidade o impedia de fazer uma higiene adequada, braços curtos, diâmetro corporal aumentado, resultado, não lavava a bunda direto, não alcançava a bunda, pra dizer sem rodeios. Sério , apesar de sentir uma certa pena dele, que não parecia perceber o fato, tinha mais pena de mim que sentia o cheiro ruim e iria passar 6 horas ao lado dele. Do outro lado da fileira, na mesma direção da que eu estava, sentavam 3 amigas, jovens de no máximo recém completos 18 anos. Não,  não estavam no mesmo banco, mas era como se estivessem, mas uma delas estava sentada à frente, e o tempo todo elas se debruçavam umas em cima da outra pra comentar ou mostrar algo no celular.  Sorte que a que estava no banco da frente não tinha ninguém ao seu lado. Sorte de quem ? Mas  não seria por muito tempo. Já conto o resto. Na minha frente uma religiosa que tinha o hábito,  sim de hábito,  mas que arrumava o véu constantemente como um tique nervoso. Sem tirar o véu puxava pra frente e com a mesma mão que puxava arrumava os cabelos na testa e jogava o véu pra trás junto com os cabelos curtos que lhe restavam. Parecia que fazia do véu uma extensão dos cabelos. Ao lado dela um rapaz que não dizia nada de si pelo que se via. Mais de 25, cabelo cortado curto, roupas de acordo com  a hora e ocasião. Ônibus aparentemente lotado. #partiu. Como já disse nesta viagem o ônibus faz uma única parada antes de seguir viagem, pega mais alguns passageiros e segue. Nem sempre entra alguém, para alegria daqueles que querem trocar de lugar, como eu. Era uma viagem como muitas, nada demais. Só as três meninas que não paravam de falar, dar uns gritinhos estéricos e se empoleirarem no banco pra contar ou mostrar como já tinha contado. Então parou o ônibus no tal lugar e subiram duas pessoas, uma ficou lá pela frente mesmo, não cheguei a ver. Ai entra ...a personalidade em questão. O termo personalidade é de propósito e vocês já vão entender. Vestindo uma blusa branca semi transparente com um top de mesma cor por baixo, usava um lenço vermelho estampado no pescoço e uma calça branca justissima, coladissima. Levava no braço segurando com o cotovelo dobrado uma bolsa de marca sei lá qual, me contaram depois era original e das caras. Sandalhas altas brancas e vermelhas de muito bom gosto, um luxo só, mas, era uma bicha feia de matar. Sim meus  amigos, nada combinava. Fui peguntar pra minha amiga Denise estevaleto como eu deveria me referir a personalidade em questão pra não causar nenhum mal estar neste caso, e ela me disse que o correto era travesti. Homem, homoxesual ou hetero que se veste de mulher, simples assim. Este conjunto fazia um quadro estranho. Ora meus amigos, podemos todos sermos, feio, bonitos, gordos, magros, altos baixos de preferências e hábitos diferentes, portanto era um travesti feio, mas muito bem vestido. O único cuidado que merecia um pouco mais de atenção era a maquiagem, tinha uma barba muito cerrada por baixo querendo surgir. Bom, vamos lá. O silencio das molecas foi instantâneo. A da frente que estava sozinha, pos a mão na boca pra segurar o riso e saiu foi algo como um peido abafado e as três cairam na gargalhada. Se contiveram. A personalidade desfilando como uma verdadeira coquete (vá procurar no dicionário se vc nasceu depois dos anos 70), sentou ao lado da menina que estava sozinha, ah tinha esquecido, óculos RayBan, tipo aviador, que ajeitou na cabeça junto com o penteado do tipo Donuts ou coque como me explicaram depois. No geral, um luxo só, muito bom gosto, mas nenhuma beleza. Como depois que se sentou, não se mexia muito, não deu pra notar nada demais. E aos poucos as meninas foram se acalmando e ficando a vontade ao lado da nossa personalidade, to chamando assim pra não comprometer o gênero, porque a palavra serve para ambos, apesar de ser uma palavra feminina. Bem, e assim foi a viagem, as meninas de ti ti ti a freira e seu balançar de véu frenético e o nosso personagem, lá. Uma coisa incomum aconteceu desta vez, paramos em um posto policial, as vezes sobe um pra pegar uma carona, quando há lugar vago, mas desta vez, subiu um policial federal e um rodoviário e passearam pelo ônibus olhando para os bancos, e sem mais, nos mandaram seguir. Só uma curiosidade para contar, nada mais além disso. Assim que o ônibus seguiu o nosso personagem abriu a bolsa e tirou um estojo desses de maquiagem, que causou o maior frison nas meninas, entre gritinhos e aplausos deliraram quando viram que acendia uma luz e iluminava o rosto de quem se maquiava. Ah minha gente, aquilo ficou um inferno. E até um “ai amiiiiigaaaa que de mais”. Posso ver? Uma chamou a outra, as tres se debruçaram sobre o traveco, ops travesti, e encheram de perguntas. De que marca era a base, a sombra onde tinha comprado, como era coisa da luzinha, ai ai ai, ui ui ui. Quando o nosso personagem em questão abriu a boca, espanto geral, novo silencio no ônibus, era a voz mais grave e anasalada que eu já tinha ouvido. Um baixo natural, diriam os coralistas. Ai as meninas entre a curiosidade com o objeto e a voz do cara ops, personagem, seguraram o riso e continuaram com as perguntas, que ele pelo visto não sabia nada a respeito. Choveu pergunta, fiquei com pena. Pra se livrar das pentelhas ele, eita, ela, ops a personalidade em questão deu, sim senhoras e senhores, deu o estojo de maquiagem. Agora me digam vcs que estão lendo, meninas, vcs dariam um estojo desses??? As garotas piraram. Foi uma algazarra infernal, o que tirou a atenção do personagem em questão, pois a disputa era saber quem iria ficar com o presente. Pareciam ter 12 anos, quase fui interferir. A religiosa quase quebrou o pescoço pra olhar o estojo e se levantou para ir ao banheiro só pra dar uma espiada no ”mimo”. Foi ai que descobri que agora tem banheiro masculino e feminino nos ônibus. Achei legal, as meninas sofrem com a falta de pontaria dos meninos. Mas também, haja mira com o ônibus em movimento...bom, enfim. Tudo correu bem dali em diante.
Mas aquelas meninas não paravam, e o que alimentava a conversa era o celular, claro, e começaram a pesquisar nos blogs e etc onde comprar aquela MA-RA-VI-LHA  de estojo de make, é aprendi essa palavra tbem. Vcs sabem que tem vários trechos na estrada que não tem sinal de celular, mas agora a novidade é que os ônibus tem wifi, pois é, e internet via satélite, aha... me disse o motorista num bate papo rápido antes da partida que esses ônibus novos tem telemetria como carros de corrida, que em tempo real a empresa sabe até se ele fez uma curva em que o ônibus adernou demais. Ok adernou é pra barco, enfim...Mas e dai, as garotas não paravam e dava pra ver que inclusive eu metade do ônibus estava tentando passar o tempo com alguma coisa na net.  Até o rapaz do lado da freira dava alguma instrução pra alguém que parecia não entender nada do que ele falava. Ele ria e tentava explicar, não fiquei prestando atenção, mas ele se divertia com o fato do outro não entender ou não acreditar noque ele falava. Ele ria muito e de lembrar da cena estou rindo agora também rs. Enfim depois de umas 4 horas o ônibus parou pro lanche. Era fim de tarde já escuro, estamos no inverno, certo? Todos se ajeitam, e saem do ônibus. Fui direto comer alguma coisa. Passado uns minutos ouve-se uma grande agitação, gritaria, sirenes brecadas de carro, correria e mais gritos. Como de costume, ao invés das pessoas se afastarem, foram ver o que estava acontecendo. Tumulto geral, policiais por todos os lados, cerco de carros aos ônibus, passageiros correndo assustados pra fora do restaurante, mulheres gritando com crianças no colo chorando, e o nosso personagem saindo algemado imobilizado por 4, sim meus amigos, QUATRO POLICIAIS, mais seis fortemente armados fazendo a cobertura. Era um dos bandidos mais procurados e perigosos do pais. Estava sendo seguido a dias, e tinham perdido contato com ele há algum tempo. Até que agentes da "inteligencia", o rapaz do banco da frente e a freira, pois é pasmem, o identificaram e começaram a seguir. Bandido muito perigoso, com extensa ficha criminal de roubo de carga, roubo a bancos, assalto a carro forte, sequestro e assassinatos, ali, se fazendo passar por um travesti. Já imaginaram o risco que todos no ônibus corremos? E as meninas, na hora que os policiais subiram no ônibus? O que fiquei sabendo depois do motorista, que tbem não sabia de nada é que os policiais que subiram, tbem não sabia de nada. Eles não costumam para e vistoriar o ônibus. Imaginem a cena:
Vc esta do lado de dentro do restaurante, atras da divisória de vidro e vê passar em câmera lenta a pessoa que estava viajando do seu lado, que parecia um traveco, feio por sinal, mas muito bem vestido, algemado e com varias armas apontadas para ele. Cabeça baixa sem a peruca, maquiagem borrada, óculos e bolsa perdido em algum lugar. Ele passa lentamente, olha em sua direção, não, ele não olhou pra mim, olhou pra meninas que estavam do meu lado e deu uma piscadinha. As meninas quase desmaiam se abraçam e começam a chorar.....
O resto da viagem foi uma tranquilidade, as vezes se ouvia o choro baixinho das três meninas. Com a sobra de espaço dos dois passageiros que estavam a minha frente consegui me livrar do companheiro de viagem.
Haja coração

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