terça-feira, 19 de abril de 2016

Canoas na praia.

Em uma praia do litoral de São Sebastião SP, nos anos 70, eu tinha uns 12 anos, estava de férias. Íamos todo ano passar as férias na costa Sul de São Sebastião. Nem a chuva estragava nossos dias, muito menos, os borrachudos que na época não tinham o devido tratamento de hoje. Passávamos óleo de cozinha pra enfrentar os danados e ficar coçando sem alternativa as picadas nos lugares chatos onde essas pragas acabavam picando. A diversão era passar os dias inteiros brincando na praia, quebrando barrancos feito pela água do rio que descia para o mar. Éramos pequenos e os barrancos ficavam altos, uma delicia para se escorregar. Outra brincadeira muito legal era represar o riozinho, fazendo uma piscina enorme, para ficar nadando em água doce quando o mar estava bravo. Em um destes dias, no fim da tarde, chega uma canoa de pescadores, carregada de peixes. Paramos a brincadeira e fomos ajudar a tirar a canoa da água, virou outra brincadeira. Carregar os roletes, calçar a canoa, fazer força para tirar a canoa de mais de 6 metros da água. Trocar a posição dos roletes de trás para frente, até chegar próximo ao jundú. Um monte de gente puxando, parecia uma festa, um acontecimento, e de fato era, mas eu nem sabia. Canoa em terra, começa uma curiosa distribuição de peixes. Um dos pescadores, distribuía os peixes para as pessoas que formaram um roda em torno da canoa. E dizia: Leva isso pra sua mãe, Manda isso pro seu pai está doente. Para um dos meninos que brincava comigo o pescador entregou alguns. Esse é o seu, dizia para outro que também tinha ajudado. E assim foi, até que para minha surpresa, me deram alguns peixes também. Sem entender nada, fiquei até o fim para ver no que ia dar. Não sobrou nada, ninguém pagou nada, não vi um único centavo na mão daquelas pessoas, não tinha excedente, simplesmente acabou. Ainda sem entender, peguei os peixes e fui embora. Chegando em casa meu pai, me pergunta de onde eram aqueles peixes. Achei que ia tomar uma bronca, fiquei pensando como ia explicar o que eu não tinha entendido direito, pois pra mim além daquilo ser estranho, era na verdade uma novidade. Expliquei o que tinha acontecido e ele me pergunta se tinha entendido porque tinha ganho. Disse que tinha ajudado e achava que era por esse motivo. E ele me explica que era mais do que isso. Fiquei sem entender. Pegando uma peixeira e os peixes que eu tinha trazido, me chamou para e num canto do terreiro onde havia uma bica d’água, se acocorou para “consertar” os peixes. Começou a explicar, que as pessoas que estavam na praia: um era o dono da rede, outro da canoa, outro era pescador, mas estava doente e não podia pescar, mas precisava daquele peixe, outro era pescador muito velho, e consertava as redes e também recebeu o seu quinhão. Assim ele me explicou que esse era o verdadeiro sentido de comunidade e de partilha. Sendo vivido de verdade naqueles dias. Achei aquilo formidável e incrível, saber que era possível viver assim. Coisa que só tinha lido e ouvido, nunca imaginava que fosse viver parte disso.
Alguns anos atrás, por uma incrível coincidência, ao sair de um restaurante em Boissucanga com amigos de trabalho, vi uma foto daquele momento, o exato momento de tirar a canoa da água.  Quanta lembrança boa me veio na hora, dentre elas minha primeira experiência de comunidade. Tenho certeza que sou eu nesta foto. Bons tempos.

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