terça-feira, 19 de abril de 2016

Dona Jana

Mais uma história pra contar.

Alguns de vcs, meus amigos, sabem que sou acupunturista, se não sabiam...disponham. rs
Em toda atividade profissional, sempre tem surpresas e histórias no meio do caminho. E como dizia o poeta, as vezes, uma pedra tbem.
Antes de mais nada, história que vou contar foi estimulada pela personagem principal, uma senhora de 78 anos. O fato ocorreu em um atendimento, e depois do fato ocorrido e de rirmos muito juntos, ela me disse que aquilo era uma boa história pra ser contada, uma piada. Perguntei se ela se incomodava que eu escrevesse e ela adorou a ideia. Então, aqui vai a história ou o fato ocorrido com a Dona Janaina, ou Dona Janna, com dois enes como ela prefere.
Marca horário para atendimento uma senhora com dor no quadril, manca muito e vem fazendo uso de uma bengala feita de cabo de vassoura, que apesar disso estava lixado e pintado, enfeitado com tirinhas de algum Santo católico, tipo aquelas do Senhor do Bom Fim. Era caiçara, dessas que a família toda conhece. Quem é caiçara sabe bem como é. Conhece "mamae', sabe quem é papai e fala com aquele sotaque que pouco se escuta aqui no centro da cidade.
Muito bem, segue o atendimento, tudo bem explicado. Repito, minuciosamente explicando, passo a passo o que iria acontecer. Tudo o que seria utilizado naquela sessão e como seria usado.
Ajudo a subir na maca, pois a dor intensa no quadril dificultava a subida, quase carrego no colo. Enfim na maca. Rolo de espuma sob os joelhos, ajeito travesseiro. A calça precisa ser baixada pra ter acesso a região de dor, e começo a inserir as agulhas. Pronto, mais uma etapa.
Etapa seguinte, resolvi usar moxa, que é um bastão em forma de charuto de uma erva medicinal chamada Artemisia Vulgaris, muito utilizada por aqui em forma de chá, em casos de cólicas, coisas da cultura popular. Funciona também.
Ai começa a aventura. Acender esse bastão ou charuto de artemisia, é um pouco difícil, com fósforos demora muito, com isqueiro, quase sempre aquece demais e fica difícil segurar. A solução mais prática que encontrei até hj foi usar uma vela. Simples acendo a vela e phá, rapidinho está acesa a moxa.
A hora que a Dona Janna viu a vela acesa meus amigos!!!!
Foi um escândalo.
O que é isso, gritava ela. Não sabia que vc era dessas coisas!! Nunca imaginei.
Minha surpresa na hora foi tanta, que não sabia pra onde olhar, o que fazer ou do que se tratava. Antes que eu pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, ela se levanta da maca com uma agilidade espantosa. Nem o rolo que estava sob os joelho a impediram de se levantar. Com um único movimento, ela se pôs de pé e foi andando com as calças no joelho e cheio de agulhas, em direção a porta.
De queixo caído só tive tempo de dizer, calma Donna Janna, volta aqui, o que aconteceu?
E ela repetia, nunca pensei que vc fosse dessas coisas, olhando em direção a vela que eu tinha acabado de acender.
Ai entendi qual era o problema dela.
Dona Janna volta aqui, a senhora esta com as calças abaixada, vai sair daqui assim desse jeito? volte aqui.
Ela olho pra baixo e viu que estava com as calças arriadas até os joelhos, e começou a subir a calça por cima das agulhas mesmo.
Tinha que interromper esse surto, porque não era outra coisa além de um surto. Ainda que duvidasse ou tinha pouca certeza de que era esse mesmo o motivo. Dona Janna, eu chamei. E ela disse, não quero saber de conversa com vc que lida com essas coisas. Logo você!!!
Emendei, a senhora esta subido a calça por cima das agulhas, calma Dona Janna.
E imediatamente abaixa novamente as calças e passa a arrancar as agulhas aos puxões,  como se fosse um maço de algo que estivesse colhendo. Jogava as agulhas no chão com raiva.
Meus amigos, imaginem a cena: Uma senhora de muita idade, saindo do meu consultório com as calças nos joelhos toda espetada e esbravejando. Eu logo atrás dela pedindo pra  ela ter calma e voltar.
Eu ainda estava impressionado com a rapidez dela ao descer da maca, e já não suspeitava mais que ela estivesse impressionada com a vela que acendi. Será que ela achava que eu iria fazer algum trabalho ou coisa do gênero? Parece que sim.
Novamente meu veio a imagem dela saindo pra rua com as calças arriadas, eu logo atrás e ela gritando, "eu não esperava isso de você, isso não se faz". Acordei rápido desse devaneio apaguei a vela da discórdia e fui em direção a D. Janna ajudar a retirar as várias agulhas que estavam por baixo da calça.
Depois de alguns instantes de silêncio, retirar as agulhas e ajuda-la com as calças, com calma perguntei o que é que ela estava pensando? Ela não respondeu. E tentei explicar, com calma, que a vela era só pra acender o bastão. E lembrei pra ela o que já tinha explicado.
Ela riu e disse "ah é!? Tinha esquecido, porque você não falou logo. Me ajude a subir de novo nessa cama ".
Ah essa Dona Janna !!!!

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