terça-feira, 19 de abril de 2016

Cenas de um sequestro.

Fui sequestrado, vítima de um sequestro relâmpago.
Que sufoco. Uma sensação horrível, de morte. Medo intenso, suor frio.

Foi assim: já era noite, estava parado, esperando uma carona, próximo ao metrô Brigadeiro, Avenida Paulista, em São Paulo. Para um carro pra pedir uma informação. Eu me aproximei, o rapaz abre a porta pra falar comigo, estende a mão pra me cumprimentar, ao que eu instintivamente respondo, estendendo a mão, e sou puxado pra dentro do carro. Cheguei a pensar que era a minha carona e que alguém havia descido do carro pra me chamar ou abrir a porta, não sei bem no que foi que pensei. A porta de trás foi aberta, não vi como ou quando. Só percebi que fui puxado para dentro do carro. E tinha alguém me segurando, com alguma coisa me espetando do lado esquerdo. Levei um tempo pra entender o que estava acontecendo. Era um sequestro. Gelei. Dois caras na frente e um atrás me segurando e me ameaçando com alguma coisa que me doía demais ao lado da costela.
Nessa hora não dá pra pensar em muitas coisas, tudo acontece muito rápido, mas vem uma avalanche de pensamentos e sensações, todos de uma vez. Pensei na família, em cada um dos filhos, na mãe idosa. Tudo isso entre uma ameaça, um soco ou um tapão. Não foi nada fácil.
E assim começou a tortura. O que estava do meu lado, fala:
- Passa tudo.
Lá foi o celular, carteira, aliança, mais ameaça, mais socos.
-  Colabora que vai ser melhor pra você. Manda a senha dos cartões.
Anotada a senha, começaram a procurar um caixa eletrônico.
- Ele desce junto pra ir ao banco ou vamos nós mesmos? A primeira dúvida.
- Se a senha estiver errada você vai tomar uma surra.
E por aí vai. O mal estar era absurdo, apesar do frio o suor era intenso. O aperto no peito era esmagador. O tremor por dentro e fora do corpo era associado com uma sensação de pânico, medo e morte. O estômago estava apertado, como um nó. Parecia que alguém me segurava pelo pescoço, fazendo a respiração ficar cada vez mais difícil, sofrida.
Chegamos ao caixa. Aumenta o desespero. Pensando no que poderia acontecer depois disso. E se desse alguma coisa errada no caixa eletrônico?
Tinham várias pessoas no caixa eletrônico e resolveram não esperar, saindo para procurar outro mais vazio.
O cara que estava na frente, olhando para trás, resolveu ler o nome no cartão. Leu e me olhou. Virou-se pra frente e leu de novo. Ficou calado. Só o motorista e o que estava ao meu lado continuavam a me aterrorizar, ameaçando disso e daquilo, nem gosto de contar, nem de lembrar.  Ele abaixou a cabeça e olhando de novo para o cartão, perguntou de onde eu era e o que eu fazia. Falei o nome da cidade e disse que era professor.
Ah!!! Essa história, verídica, não aconteceu comigo. Encontrei um amigo do tempo da faculdade no Terminal do Tietê e embarcamos juntos no metrô. No caminho, ele me contou esta história. Contava e chorava, pois fazia pouco tempo que havia acontecido e ele ainda não tinha se recuperado do trauma. Estava fazendo terapia, tomando remédios. Diagnóstico: síndrome do pânico.
Era a primeira vez que estava voltando a São Paulo, sozinho. Teve uma outra vez, mas viera acompanhado da filha, mesmo assim se sentiu mal, ficou envergonhado da situação, um turbilhão de emoções ainda o torturaram.
Naquele momento tinha ficado muito contente de ter encontrado alguém conhecido. Pois já estava entrando em pânico quando desceu do ônibus no Terminal. Quando me viu passar por ele no desembarque, deu um grito e me chamou. Assustei na hora e levei um tempo pra reconhecer. Ele me deu um abraço apertado que estranhei, mas depois entendi, era uma tábua de salvação. E fomos estação por estação como num calvário da via sacra desenrolando esta história triste e trágica.
Voltando à história, o rapaz que estava na frente reconheceu a vítima. Tinha sido aluno dele. Entre o espanto e o terror, o professor também reconheceu o aluno. Não deu tempo pra qualquer demonstração de alegria e sim mais medo.
Entre xingamentos os dois comparsas disseram:
– Agora vamos ter que apagar esse fdp.
E uma saraivada de xingamentos e socos fizeram parte dos momentos que se seguiram.
E o aluno sequestrador, começou a lembrar do professor. Dizendo pros comparsas:
-Ele era o único professor que valia a pena. Ele conseguia dar conta daquele bando de fdp que era a turma. Ele tirava sarro da gente como uma forma de quebrar o gelo e ficar amigo da galera. Era professor de história. Ele dava aula contando história. Pra sacanear, ele começava com “era uma vez”.
Contando isso, com um riso nervoso e emenda: - O cara é boa gente. Vamos soltar ele.
Aí virou confusão, o rapaz que estava segurando o professor deu um murro no que estava na frente e deixou o professor livre por uns momentos. Foi quando ele pensou em pular do carro. O que estava na frente, defendendo o professor, revidou o soco que levou e os dois se engalfinharam, atravessados no carro, deixando o professor mais uma vez livre. Mais uma chance de pular, e ele coloca  a mão na trava para abrir a porta. O motorista, o tempo todo xingando e tentando, ao mesmo tempo, que dirigia, apartar os dois. O carro balança na pista, o que faz que alguns motoristas buzinem e xinguem, afinal estamos no trânsito de São Paulo. A angústia e o medo de morrer aumentaram, quando o cara que estava no banco de trás finalmente mostra o que estava segurando pra ameaçar o professor: uma arma. E aponta pro aluno que defendia o professor. Os dois congelam. O motorista continua gritando e o professor me conta que teve um espasmo no peito e tinha a certeza que estava enfartando.
- Deixa o cara ir, disse o aluno do banco da frente, falando entre dentes, ameaçado pela arma. O outro responde: -De jeito nenhum (na verdade o que ele disse foi, nem F...).
-Esse cara vai denunciar a gente, temos que apagar, e já.
E disse pro que estava dirigindo: -Toca pro bosque, vamos nos livrar logo deste M...
O outro reage: -Não vamos, para que ele vai descer, ele não vai falar nada, não é professor? Ele sempre foi de boa, ele entende, para o carro bem longe, vamos dar um perdido nele e boa, ficamos com os cartões, fazemos o saque e deixamos ele ir.
O que estava com a arma, engatilha o revólver,  junta as duas mãos e firma a mira no colega do banco da frente.
- Você vai morrer junto com ele.
O que estava na frente avança contra o que estava com a arma, ouve-se o disparo, o rapaz que defendia o professor, com o impacto é atirado de costas contra o para-brisa, os olhos arregalados, a boca aberta, os braços estendidos para frente, e desaba, caindo de cara no encosto do banco da frente. A proximidade com o disparo, o cheiro da pólvora e a visão do rapaz caído sem vida no banco da frente se somou a todos os outros medos que já o torturavam. O motorista berrava, o rapaz que estava armado, foi sacudir o amigo baleado, gritavam palavrões, gritavam a culpa de um e do outro, discutiam o que fazer. Apagar o professor, ir pro hospital, largar o carro que era roubado e queimar com tudo dentro pra não deixar pistas. Estavam desnorteados.
- Pulei do carro no meio da gritaria. Com o trânsito intenso, quase fui atropelado. Fiquei paralisado no meio do asfalto, sem ação. Eu ouvia os gritos dos pneus e das pessoas, mas não entendia o que queriam dizer. Vieram me socorrer. Não conseguia ouvir nada, meus músculos estavam duros, tensos. Mal conseguia respirar. Colocaram-me sentado na calçada e ali fiquei, imóvel. Só respirava, não ouvia, não sentia. Olhos vidrados. Angústia e tristeza profunda, era tudo o que consegui sentir. Na confusão, eles bateram o carro logo a frente. O motorista ficou preso pelas pernas. O que estava armado, no desespero de sair do carro apontou a arma para pessoas que estavam tentando ajudar, e saiu correndo. Uma viatura parou para saber o que tinha acontecido e foi atrás do fugitivo deixando todo o resto para trás.
- Minhas memórias daquele aluno eram boas.
Sim, o tempo todo ele se referia ao rapaz como  “meu aluno”. Era como se fosse o mesmo menino desde que o deixara no último dia de aula. Ainda tinha a posse sobre ele, o mesmo carinho quando falava de um outro menino qualquer. Não havia raiva ou mágoa quando se lembrava dele. Disse que era tranquilo e calmo. Contaminado pelos outros acabava descambando.
- Era uma turma difícil de um bairro de periferia, violento. Alguns envolvidos com o tráfico, outros usuários.  Mas ele por muitas vezes peitou a turma. Queria que calassem a boca, por que ele queria ouvir a aula. E era muito zoado por todos. Mas ele ficava firme e eu até que consegui dar aula e a adesão de mais alguns. 
E dar aula de história, não era nada fácil.
- Serve pra que essa P... ? eles me perguntavam. Eu tinha que trazer pra um contexto atual, fazer paralelos, isso leva tempo e precisa da atenção dos alunos. Então o jeito era ver o que estava acontecendo nos dias de hoje e dizer que isso também era história e fazer uma leitura dessa realidade e quais as consequências disso para um futuro imediato que era o que interessava pra eles. Para só então, mostrar porque estamos assim hoje em dia. Devido ao que aconteceu lá atrás a muito tempo. Era esse o exercício que eu fazia com eles, a história de frente para trás.
- E ele morreu me defendendo, porque a minha aula era boa!?! Porque eu fui bom pra eles?? Será que eu devia ter sido como os outros, e só deixar passar? Isso me corrói a alma, dizia ele com a voz embargada e muitas lágrimas no rosto, enquanto as pessoas começavam a prestar atenção na nossa conversa de forma mais declarada. Vcs se lembram, nós estamos no metrô.
E ele continuou: - Os outros colegas professores, tem medo da classe, não se importam se eles não souberem ou não aprenderem algo que podem mudar a sua vida. E eu só dei aula de história. Eles nãos sabem ler, interpretar, vão ser roubados no troco ou no salário e eu ensinei história, pra quê? E ele morreu, porquê?
Não resisti chorei junto.
Nestas horas vem um monte de coisas pra dizer, mas nada iria consolá-lo. Chegamos ao nosso destino. Eu o acompanhei até o ônibus que iria tomar, nos demos uma grande e demorado abraço e nos despedimos.
Depois que nos separamos, um vazio no peito me incomodava. Achei que devia dizer alguma coisa e mandei uma mensagem pelo celular com o seguinte texto:
“ Meu amigo, é tanta coisa pra dizer neste momento difícil que por agora só posso dizer que ele estava lá pra te salvar. Se vc não tivesse feito nada de bom pra esse rapaz, e sabe mais quantos você encantou com a sua aula, talvez você, esposa e filhos, estivessem agora em outra situação. Ele assumiu os riscos e fez as escolhas que tinha que fazer. Vc era tão importante pra ele, que ele se arriscou por você. Faça o resto da sua caminhada como professor valer a pena pra mais gente.  Abraços, fique bem. “

Cenas de um sequestro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário